A escola tornou-se, nos últimos anos, um território onde todos reclamam direitos e poucos reconhecem deveres. Discute-se a qualidade dos programas, a formação dos docentes, a falta de meios, a burocracia e o desgaste acumulado nos corredores da instituição. Mas raramente se encara o problema central: a educação não é apenas um sistema. É uma relação humana. E todas as relações humanas podem falhar: não apenas de um lado.
Costuma afirmar-se, com a segurança confortável de quem encontrou um culpado universal, que a crise educativa é culpa dos professores. Que não são motivadores, que não compreendem os novos tempos, que não dominam o “pedagogês” contemporâneo com a fluidez de um influenciador digital. Há, sem dúvida, profissionais que não honram a dimensão exigente do seu ofício. Qualquer corpo humano, e o docente não é exceção, contém falhas. Mas esta explicação fácil revela uma cegueira mais profunda: pressupõe que a dignidade da educação reside apenas no professor. E isto é um erro conceptual.
Explicamos: a aula não é um espetáculo onde o docente atua e o aluno assiste. A aula é a construção simultânea de duas vontades. Sem reciprocidade, não há aprendizagem: há monólogo. A questão raramente é enunciada, mas muitos alunos chegam à escola num estado de disponibilidade intelectual próximo de zero. Não porque lhes falte capacidade, mas porque lhes falta disposição. A indisciplina, hoje, não é apenas ruído: é uma forma de recusar o mundo. Quando o aluno rejeita a autoridade, não rejeita apenas a pessoa do professor: rejeita a própria ideia de aprendizagem. A cultura que fomenta esta atitude não nasceu na escola: entrou nela pela porta da sociedade, onde a infância passou a ser tratada como território intocável e a adolescência como época de imunidade moral. O professor, nesse ambiente, aparece sempre como culpado enquanto o aluno nunca surge como agente. E, no entanto, nenhuma conceção séria de educação pode excluir a responsabilidade discente. O aluno não é uma tábua rasa, não é um espectador passivo, não é uma criatura neutra sobre a qual a escola imprime conhecimento. É uma pessoa situada, com deveres tão vincados quanto os do professor. Recusar-se a aprender, ou dificultar que outros aprendam, é uma violação desse dever.
A origem desta assimetria é filosófica antes de ser social. Vivemos uma época que idolatra a espontaneidade e desconfia da autoridade. Não se trata de recusar tiranias, mas de rejeitar qualquer estrutura que exija disciplina. A liberdade foi confundida com ausência de limites, como se o amadurecimento humano pudesse dar-se sem esforço. Esta visão, profundamente sentimental, destruiu a figura do professor e infantilizou a figura do aluno. A escola deixou de ser um espaço de exigência e passou a ser o lugar onde todos se “expressam”. Mas uma sociedade que substitui a disciplina pela expressão não educa: entretém.
O professor que falha merece crítica. Mas o aluno que não se comporta também. Entre estas duas realidades existe uma verdade esquecida: o ensino é um pacto. E um pacto pressupõe reciprocidade. Um professor ensina na medida em que o aluno permite, um aluno aprende na medida em que o professor guia. O rompimento de um destes elos desumaniza a aula. Recusar esta reciprocidade não é apenas injusto: é perigoso. A escola é o primeiro espaço extrafamiliar onde uma criança experimenta a ideia de ordem. Sem ela, cresce sob o domínio dos impulsos, incapaz de reconhecer limites, de ouvir, de esperar, de cooperar. E quando uma sociedade falha em transmitir essa ordem, é a própria vida pública que se desfaz. Já não haverá cidadãos, mas indivíduos emocionalmente imediatos, habituados a exigir e incapazes de cumprir.
O que, então, fazer? Recuperar o que a modernidade tentou apagar: a noção de que o conhecimento exige esforço, o respeito exige contenção e a escolaridade exige carácter. O professor deve ser digno da sua missão, mas o aluno deve ser digno de estar à sua frente. A dignidade educativa não é unilateral: é construída a dois. E quando um destes lados falha, o fracasso não se limita à aula daquele dia: é o próprio futuro que se empobrece. A escola não precisa de ser reinventada: precisa de ser reequilibrada. Entre autoridade e liberdade. Entre exigência e compreensão. Entre dever e direito. Não há aprendizagem possível onde só um lado suporta o peso da relação. E, por isso, enquanto não reconhecermos que a dignidade educativa é uma via de duas mãos, continuaremos a discutir reformas sem perceber o essencial: a educação falha sempre que um professor abdica da sua missão, mas falha igualmente sempre que um aluno abdica da sua.