A depressão Kristin chegou e, em pouco tempo, deixou a sua marca. Desde a madrugada até ao início da tarde desta quarta-feira, foram registadas mais de quatro mil ocorrências, pelo menos seis pessoas morreram e foi batido o recorde de rajada de vento mais forte. A Kristin foi a terceira de um longo comboio de tempestades que atravessou a Península Ibérica, não foi a maior, mas foi a que mais danos provocou.
A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) e o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) emitiram vários avisos durante o dia de terça-feira para a forte intensidade dos ventos que chegariam a partir das 3h, o que não foi suficiente para evitar os piores efeitos das rajadas previstas de mais de 140 quilómetros por hora — a mais forte acabou por chegar aos 170 km/h.
O certo é que “o pior já passou”, de acordo com a meteorologista do IPMA Patrícia Marques, e para além de chuva, frio e uma grande agitação marítima, não se esperam outras tempestades até ao fim de semana. Contudo, o climatologista Carlos da Câmara, ouvido pelo Observador, avisa que existem duas depressões no Atlântico que podem “trazer notícias” no início da próxima semana, embora não seja ainda possível prever que intensidade podem assumir e se chegam a Portugal.
Que tempestades são estas?
Primeiro a Ingrid, depois a Joseph e agora a Kristin. As três tempestades consecutivas que chegaram a Portugal em menos de uma semana fazem parte da mesma “região depressionária complexa” do Atlântico Norte, mas são depressões distintas.
A depressão Ingrid foi a primeira: chegou no final da semana passada e inicialmente foi classificada como “a mais forte”. Na última quinta-feira, 22 de janeiro, do Norte até ao Alentejo, uma grande parte do País ficou coberto de neve, as chuvas foram torrenciais em todo o território — com granizo —, e sentiram-se ventos fortes a par de uma grande agitação marítima que levou o IPMA a acionar um alerta vermelho no litoral.
No início desta semana, o país foi atravessado pela Joseph. Chuvas e ventos intensos causaram pelo menos 1.400 ocorrências registadas pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), mesmo antes da entrada da Kristin na Península Ibérica. Cinco pessoas ficaram desalojadas devido a inundações.
Porque é que chegaram todas a Portugal num curto espaço de tempo? Carlos da Câmara explica que se deve ao jet stream. São colunas de jato de ar, como indica o nome, que são muito localizadas — “uma espécie de rio estreito, uma coluna vertebral da atmosfera”, explica o climatologista. Como tem de “obedecer às leis da física, cada vez que existem excessos de energia em determinadas regiões, o jato reposiciona-se de modo a induzir certos comportamentos na atmosfera para restabelecer o equilíbrio”. Assim surgem os ciclones (ou depressões), centros de baixa pressão atmosférica onde o ar é mais quente, o que favorece a chuva e o vento.
No início deste ano, o “jato está muito mais para sul do que é habitual” e, por isso, está a formar depressões sobre o Atlântico para restaurar o normal funcionamento da atmosfera. Como consequência, surgem comboios de depressões como este que chegou na semana passada — e que irá continuar durante a próxima semana. O climatologista adianta que estes comboios de depressões são “completamente normais”.
Estas três “carruagens” que passaram pela Península Ibérica receberam os seus nomes — por ordem alfabética (I, J, K) — porque o serviço meteorológico determinou que seria mais fácil para serem “referenciadas por outros serviços e mesmo entre elas”. Assim, sabemos que a terceira “carruagem”, a depressão Kristin, foi “significativamente mais intensa em termos de ventos”.

Porque é que a depressão Kristin foi a mais intensa?
Ciclogénese explosiva e sting jet. São dois conceitos que não são conhecidos pela grande maioria da população, mas que respondem diretamente à pergunta.
“Quanto mais rapidamente baixar a pressão no centro da depressão, mais rapidamente se vão intensificar os ventos à volta dessa mesma depressão”, explica ao Observador o climatologista Carlos da Câmara. Uma depressão torna-se explosiva quando baixa mais de 24 hectopascal em 24 horas. Ou seja, quando a pressão baixa muito rapidamente. Como este fenómeno se verificou no caso da Kristin, os ventos foram “extremamente intensos”.
Nas outras depressões que precederam Kristin, esta descida da pressão foi feita de forma gradual, não abrupta. Assim, explica-se o porquê de esta última tempestade ser classificada como sendo “explosiva”, em contraste com as restantes — e também terem-se registado ventos ainda mais intensos.
“E a agravar a estes ventos muito intensos, quando a depressão chegou à costa portuguesa, durante a madrugada, tivemos um outro fenómeno: o sting jet“, afirma o especialista. É uma espécie de ferrão (sting) que aparece na imagem de radar, e que “tem a ver com a própria estrutura da depressão. Em termos mais objetivos, explica Carlos da Câmara, este fenómeno faz com que o ar desça com “extrema violência sobre o solo e com velocidades muito grandes”.
Já Ricardo Deus, dirigente da Divisão de Clima e Alterações Climáticas do IPMA, explica que é um fenómeno “extremamente imprevisível”, mas que aparece sempre associado a este tipo de depressões. “Quando aparece, juntam-se essencialmente dois componentes que podem coincidir na mesma trajetória”, refere o especialista, acrescentando que quando este fenómeno se verifica, existe uma “soma de velocidades” já elevadas que vêm com a ciclogénese explosiva. Como terá incidido na região da Figueira da Foz e de Leiria, os danos foram mais expressivos.
“Houve uma conjugação de três fatores: a corrente de jato [ou jet stream] muito para o sul, uma ciclogénese explosiva, e o sting jet“, conclui Carlos da Câmara.
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A situação ainda pode piorar?
No início da manhã, o IPMA garantiu que “o pior já passou”. Os ventos fortes acalmaram-se com o nascer do sol e a Kristin foi avançando em direção a Espanha. No interior do país, como nos distritos da Guarda e Castelo Branco, os efeitos da tempestade sentiram-se até mais tarde, mas no litoral, onde a ameaça era maior, “o pior já passou”, afirmou a meteorologista Patrícia Marques, em declarações à Lusa.
Mas todo o litoral continua sob alerta vermelho. A maior preocupação neste momento é a agitação marítima, uma vez que os ventos mais fortes já se afastaram, com o IPMA a contar com ondas que podem atingir os 14 metros de altura. O vermelho deve passar a laranja já esta quinta-feira e os alertas devem começar a desaparecer nos próximos dias. “Espera-se que as coisas acalmem até domingo”, afirmou o climatologista Carlos da Câmara ao Observador.

Mas o mau tempo não fica por aqui. O climatologista e investigador do Instituto Dom Luiz, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, explica que no início da próxima semana podem chegar duas outras depressões, que estão neste momento no Atlântico e que podem “trazer notícias” entre domingo e segunda-feira. Através da leitura dos mapas e dos radares, admite que ainda não é possível determinar a possível severidade destas tempestades.
Voltando à Kristin, Carlos da Câmara não afasta a possibilidade de começarem a aparecer cheias. Com as depressões Ingrid e Joseph, que estiveram ativas no fim de semana antes da última ser “engolida” pela Kristin, o solo ficou “completamente saturado” por causa da forte precipitação. “Com uma capacidade quase nula de retenção de água, uma precipitação mais intensa vai refletir-se claramente”, acrescenta o especialista.
Para a situação não piorar, o climatologista defende que “é preciso ter comportamentos defensivos” e “estar atento a todos os avisos”, remetendo para o facto de as barragens estarem cheias e para as condições favorecem alagamentos.
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Com milhares de ocorrências durante a noite, como é que a Kristin se compara às últimas tempestades que passaram por Portugal?
A tempestade Martinho foi a maior tempestade de 2025. Foram registadas quase 10 mil ocorrências em todo o território nacional e as consequências foram semelhantes, após avisos da Proteção Civil para condições meteorológicas adversas, como chuva, vento e agitação marítima fortes.
Cerca de 100 mil árvores caíram apenas na Serra de Sintra, juntando-se a outras centenas ou milhares que tombaram em todo o país ao longo dos três dias mais intensos de passagem da Martinho por Portugal. A depressão Kristin, durante a madrugada — altura em que os efeitos foram mais sentidos —, registou mais de 3.300 ocorrências, com as quedas de árvores e de estruturas urbanas a dominar o balanço feito pela ANEPC.
Ao Observador, Jorge Carvalho da Silva, da Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Proteção Civil (Asprocivil), explica que os efeitos sentidos durante esta madrugada devido à depressão Kristin são diferentes dos observados em março de 2025, uma vez que esta noite houve “mais vento e menos precipitação”.
“Tivemos mais efeitos de cheias e alagamentos com a tempestade Martinho, porque choveu mais e havia menos vento. Com a Kristin foram principalmente rombos de estruturas por causa do vento muito forte”, explica o vice-presidente da Asprocivil.
O IPMA compara os efeitos da depressão Kristin com o furacão — fenómeno com maior intensidade de ventos e que se forma sobre águas quentes — Leslie, que passou por território nacional em 2018. O local de maior incidência foi a região Centro, algo que ambas as tempestades têm em comum, com a última a provocar 27 feridos ligeiros, 61 desalojados e prejuízos a atingir os 120 milhões de euros. Os cálculos finais dos danos provocados pela Kristin ainda estão a ser determinados e devem demorar algum tempo a serem conhecidos. Ainda assim, há questões que podem ser comparadas.
Primeiro, o furacão Leslie, tal como a tempestade Kristin, ficou marcado por não ter quantidades significativas de chuva, mas sim pelos ventos fortes que abalaram o centro do país. Em 2018, este furacão ficou carimbado na história por ter trazido uma rajada de 176,4 quilómetros por hora, o valor mais elevado alguma vez observado em Portugal e que incidiu na zona da Figueira da Foz. Na última madrugada, este mesmo valor foi superado. Não foi num equipamento oficial do IPMA, mas na base aérea de Monte Real registou, pelas 5h, uma rajada de vento com 178 km/h.

Quedas de árvores e danos na via pública. O que se deve fazer se for afetado pelos efeitos das tempestades?
Todas as previsões indicavam que os ventos fortes trazidos pela Kristin fossem provocar danos significativos no litoral do país. E confirmaram-se, com a queda da roda gigante da Figueira da Foz, as placas do Estádio Municipal de Leiria que voaram com o vento para cima do relvado e as árvores que impediram o trânsito, seja de carros ou de comboios.
Como o período de maior intensidade desta depressão ocorreu durante a madrugada, quando a grande maioria da população estava em casa, a dormir, uma percentagem daqueles que foram afetados só terão descoberto de manhã, quando acordaram. Nestes casos, o que deve fazer se no rescaldo de uma tempestade reparar que uma árvore, por exemplo, caiu por cima do seu carro ou partiu uma janela de casa?
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Se forem danos provocados por árvores ou outros elementos do espaço público — os casos mais comuns —, Jorge Carvalho da Silva explica que, em primeiro lugar, se deve chamar as autoridades ao local do incidente, para fazer o auto policial e ter o registo da ocorrência. “A seguir, contacta-se a câmara respetiva e solicita-se um pedido de indemnização, porque há seguros de responsabilidade civil das autarquias que servem para fazer este tipo de pagamentos”, adianta.
O que é que os municípios devem fazer para minimizar os efeitos do mau tempo?
Podar árvores e fazer um registo municipal de arborização. Para Jorge Carvalho da Silva, estes são os dois temas importantes a abordar para garantir que os efeitos de tempestades como a Kristin são o menos intensos possível.
De acordo com o especialista, “muitos dos municípios não têm esses planos feitos”, o que depois dificulta o acompanhamento do estado das árvores nas diferentes localidades do país e, por isso, acabam por haver centenas ou milhares de ocorrências relacionadas com quedas de árvores — incluindo a do homem que morreu esta madrugada em Vila Franca de Xira. Segundo Jorge Carvalho da Silva, a criação destes planos já é prevista na legislação atual, mas não está a ser cumprida.
O Plano Municipal de Arborização prevê que seja mantida a listagem de todo o património arbóreo, de modo a facilitar o processo de plantação, de manutenção e renovação do mesmo. Sem um plano, o responsável pela Asprocivil diz que não estão a ser feitos os esforços necessários para prevenir os efeitos destas tempestades.
Jorge Carvalho da Silva aponta também para a poda das árvores — neste caso o facto de não ser feito, de forma geral, em vários municípios do país — como causa do número elevado de ocorrências. “Em meio urbano, as árvores devem ter copas de baixo volume. Uma árvore que tenha alcatrão ao seu lado consiga ter raízes saudáveis a 100% para poder suportar árvores com copas de 10 metros de altura”, afirma o responsável.
Numa defesa da poda — apesar de referir que a sua prática é muito contestada publicamente —, afirma que as árvores vão “perdendo força” com o aumento da sua copa, uma vez que “as raízes são sujeitas a contaminação dos fluidos dos carros, da poluição e de tudo o que é arrastado, absorvem os nutrientes contaminantes e, pouco a pouco, vão envelhecendo de uma forma distinta às árvores em ambiente rural”, provocando a sua queda quando sujeita a ventos mais fortes e fora do habitual.
Estamos preparados para uma nova grande tempestade em breve?
O climatologista Carlos da Câmara indicou que duas novas depressões podem estar a caminho de Portugal já na próxima semana. Não se conhece ainda a intensidade que podem vir a ter, mas a questão que se coloca é se estaremos ou não preparados para enfrentar uma tempestade semelhante à Kristin cujos efeitos serão os mesmos, ou um fenómeno mais ou menos perigoso. Além da vítima mortal causada pela queda de uma árvore, uma pessoa morreu devido à queda de um poste e outra ainda foi atingida por uma chapa metálica.
Uma semana pode ser pouco tempo para mudar drasticamente a organização do espaço urbano para garantir que os efeitos das tempestades são mínimos. O que é necessário, de acordo com Jorge Carvalho da Silva, é que se aumente o nível de prontidão dos municípios e que o ambiente urbano esteja protegido para garantir que o que aconteceu esta quarta-feira não volta a acontecer.
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Em termos de previsão dos efeitos da Kristin, Carlos da Câmara defende que “tudo correu bem”. “Não há duvidas de que a previsão foi muito boa”, continuou nas suas declarações ao Observador, referindo que os avisos mais intensos na zona da Figueira da Foz e de Leiria, onde a tempestade entrou com mais força, são exemplos do alto nível de prontidão dos serviços meteorológicos. “Os ventos de 140 km/h previstos foram exatamente os valores registados em algumas estações”, acrescentou.
Mas o nível de prontidão dos municípios é que deixa a desejar para o vice-presidente da Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Proteção Civil. “Se não mudarmos o estado de preparação em relação ao espaço público urbano, é muito difícil ter efeitos diferentes em função daquilo que já temos”, afirmou, voltando a defender a poda das árvores nas cidades e a elaboração dos planos municipais de arborização.