
A frase
Nas ruas nevadas de Teerão uma jovem iraniana encarna o espírito indomável dos protestos contra o regime.
Com um cigarro entre os lábios, ela acende o fogo usando a foto em chamas do Aiatolá Ali Khamenei, Líder Supremo, cercada por multidões enfurecidas que queimam bandeiras e cartazes do opressor.
— Utilizador do Facebook, 11 de janeiro de 2026
A imagem é, em qualquer contexto, desafiadora. Uma jovem pega num cigarro com uma mão e, na outra, segura uma imagem do ayatollah Khamenei, líder supremo do Irão, que incendeia. As labaredas aparecem instantaneamente e é com esse fogo que acende o seu cigarro, fumando depois e fitando a câmara que a grava.
Segundo várias publicações nas redes sociais, no meio de “um inverno em Teerão”, no Irão, são assim “quebradas inúmeras leis”. Há aliás imagens que supostamente mostram a rapariga iraniana supostamente “cercada por multidões enfurecidas, que queimam bandeiras e cartazes do opressor”.

Mas não foi exatamente isso que aconteceu. Desde logo, porque as imagens que mostram multidões em protesto, pelas ruas do Irão, atrás da rapariga que protagoniza a imagem foram digitalmente alteradas. Não é difícil verificá-lo acedendo às imagens originais, partilhadas tanto em fotografia como em vídeo, pela própria no início de janeiro, na sua conta da rede social X.
https://twitter.com/melianouss/status/2009614783134449688
A segunda questão é que as publicações — mesmo as que replicam a fotografia e vídeo originais, e não alterados — insistem que a jovem (que nas redes sociais se identifica apenas como “Morticia Addams”, nome falso para garantir a sua segurança) queimou a fotografia nas ruas de Teerão, no Irão.
Ora isto não é verdade. O ato, que muitas jovens iranianas estão a replicar nas redes sociais como desafio ao regime do país, foi filmado e fotografado no Canadá, onde a jovem reside, e não no Irão.
Isso mesmo já foi esclarecido pela própria, que numa entrevista ao site The Objective, concedida depois de a fotografia se ter tornado viral, diz ser uma jovem de 23 anos “exilada” no Canadá, tendo sofrido “tortura” no Irão, onde a sua família continua a viver, e passado a considerar-se “feminista radical”.
“Criticam-me por viver fora, como muitos refugiados — assim estou a salvo de uma condenação à morte quase garantida — mas eles contradizem-se muito mais. Vocês que se dizem ativistas dos direitos humanos, por que defendem Khamenei? Por que defendem um dos ditadores mais sanguinários da história (…)?”, lê-se na entrevista.
Dias depois, a própria escreveu na rede social X que recebeu “múltiplas mensagens com ameaças” e que “qualquer dano” de que seja alvo, assim como a sua família que está no Irão, será “responsabilidade da República Islâmica”. Noutras respostas dadas nas redes sociais, mas também a meios como a agência Lusa, a jovem frisa que nunca alegou que tivesse filmado o vídeo em Teerão, tendo essa ideia começado a ser difundida por iniciativa de outros utilizadores.
Uma pesquisa no Google Street View confirma que a imagem foi captada na cidade de Ontario, no Canadá, em Richmond Hill, sendo mais fácil identificar o local porque atrás de “Morticia” aparece o edifício da biblioteca pública da cidade.
Conclusão
A imagem viral mostra realmente uma jovem iraniana e o vídeo é verdadeiro, mas foi captada no Canadá, e não no Irão. A própria protagonista confirmou a informação, sendo que uma pesquisa no Google Street View confirma o local exato em que a fotografia e o vídeo foram captados.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ENGANADOR
No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:
PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.