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(A) :: Política quântica

Política quântica

Se a política quiser ser verdadeira deverá abraçar a complexidade da física. Aceitar que as respostas não são absolutas mas transitórias, flexíveis, múltiplas, que aquilo que hoje salva amanhã asfixia

Nuno Morna
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“Uma política quântica”, dizia-me um amigo, professor de física, como quem atira para cima da mesa um objecto frágil e brilhante e espera que eu finja que sei do que se trata. Estávamos num café que cheirava a manteiga queimada, a açúcar húmido e a promessas de dieta adiadas, e ele mastigava, com um desespero quase metafísico, as últimas fatias de uma torrada que já tinham perdido a coragem, aquela textura de coisa que resiste, e se tinha rendido à boca como se a vida fosse isso: mastigar o que sobra, o que já não presta, e ainda assim insistir. “Uma política quântica, percebes?”, repetia, e os dedos dele desenhavam no ar esquemas invisíveis, como se o ar tivesse quadro, giz, equações, e como se a própria realidade estivesse atrasada na matéria e ele tivesse de a pôr em dia.

Confesso que à primeira audição me soou a disparate. Não um disparate luminoso, daqueles que nos obrigam a parar e a rir e a pensar “há aqui qualquer coisa”, mas um disparate seco, professoral, com cheiro a sala de aula e a orgulho académico. A política, ao contrário do amor, do ódio, ou de uma boa ressaca, é geralmente feita de coisas tangíveis, com arestas: decisões, interesses, poderes, ambições, boletins de voto e fotografias de inauguração. A política é, ou devia ser, o domínio do possível, do eficaz, do concreto, do “isto faz-se assim porque dá votos”, do “isto não se faz porque dá chatices”, do “isto anuncia-se porque fica bem”. Não é, em teoria, o reino do incerto, do indeterminado, do que se altera só porque alguém olhou. E, enquanto ele falava, enquanto eu o ouvia com aquele ar de indulgência que se reserva aos amigos e aos doidos inofensivos, comecei a sentir a suspeita desconfortável de que talvez, sim, talvez ele estivesse a tocar num ponto que todos evitamos, como se fosse uma ferida a céu aberto: a política não é tão sólida quanto finge. É uma encenação de solidez. E nós, cidadãos, espectadores e figurantes ao mesmo tempo, pagamos bilhete para acreditar.

Ele falava com o entusiasmo dos visionários e a teimosia dos loucos, que são às vezes o mesmo, sobre um mundo que já não se governa por linhas rectas, mas por curvas, por oscilações, por saltos, por ligações tão invisíveis quanto reais. E eu olhava para a chávena, para o café escuro, para a espuma que se desfazia como uma coligação mal feita, e pensava que a metáfora já ali estava, antes de qualquer equação. “A física quântica”, dizia ele, “mostra-nos que as partículas estão ligadas umas às outras mesmo quando separadas por distâncias absurdas; que vivem em múltiplos estados ao mesmo tempo; que o simples acto de olhar para elas muda o que são.” E a frase ficava no ar, não como uma explicação, mas como uma provocação. Porque o que ele descrevia, com a linguagem limpa da ciência, eu via todos os dias com a linguagem suja da política: gente ligada a gente sem o admitir, decisões tomadas longe que caem em cima de quem está perto, e esse fenómeno quotidiano, tão banal, tão violento, de uma coisa mudar de natureza só porque foi observada.

Porque não é isso que fazemos, nós, quando olhamos para um político? Não o mudamos com o olhar, com o escrutínio, com a imprensa, com o comentário, com o rumor que corre mais depressa do que a verdade? Não há ali um momento em que ele deixa de ser pessoa e passa a ser símbolo, caricatura, herói, vilão, e já não tem saída? O olhar do público, esse olhar colectivo, é um laboratório brutal. Observamos e alteramos. Aplaudimos e deformamos. Condenamos e cristalizamos. E, no fim, queixamo-nos de que os homens públicos são de plástico, como se fosse possível sobreviver ao microscópio sem perder carne.

“Talvez”, disse ele depois, baixando um pouco a voz, como se estivesse a contar-me um segredo ao ouvido do universo, “talvez a política quântica seja mais humana do que isto que temos.” E eu, que tenho uma relação antiga com o cepticismo e uma relação recente com o cansaço, senti-me irritado, porque a palavra “humana” na boca de alguém pode ser uma armadilha, uma desculpa para tudo. Mas ele insistiu, e eu deixei-o insistir, porque há insistências que nos servem para pensar sem confessar que estamos a pensar.

A vida, no fundo, não é feita de escolhas limpas, de binários, de sim e não, de preto e branco. Quem é que vive assim? Quem é que acorda e decide: “hoje serei bom” como quem escolhe uma camisa? Quem é que se deita e conclui “sou mau” com a serenidade de uma auditoria? Nós não somos só bons ou maus, ricos ou pobres, esquerda ou direita. Somos uma sobreposição infinita de possibilidades, um amontoado de vontades contraditórias, uma colónia de impulsos que raramente se entendem. Somos o homem que ama e odeia ao mesmo tempo, que acredita e desespera, que quer partir, mas fica, que deseja mudar o mundo e, ao mesmo tempo, quer que o mundo não lhe estrague a rotina. Somos, muitas vezes, uma espécie de país interno em crise permanente, com governo provisório e oposição feroz dentro da cabeça.

E então ele atirou para cima da mesa a ideia que parecia heresia e, ao mesmo tempo, parecia óbvia: se a política quisesse ser verdadeira, teria de abraçar essa complexidade. Aceitar que as respostas não são absolutas, mas transitórias, flexíveis, múltiplas, e que aquilo que hoje salva amanhã asfixia. Que um governo pode, como certas partículas, manter políticas contraditórias sem se desintegrar, porque o mundo não é lógico, é humano. Ora, isto dito assim, soa quase a apologia da incoerência, e eu senti vontade de o interromper, de lhe dizer que a incoerência já é abundante e dispensamos teorias que a glorifiquem. Mas logo me ocorreu o contrário: o problema não é haver contradição. O problema é fingir que não há. O problema é vender a contradição como “estratégia”, como “coerência”, como “visão”, e tratar os cidadãos como se fossem alunos lentos a quem se dá um resumo simpático da matéria.

Depois veio o “entrelaçamento”, palavra que ele dizia como se fosse um feitiço. E talvez seja. “Tal como as partículas entrelaçadas”, explicava, “também os homens e os países estão ligados. O que acontece num canto esquecido repercute-se em tudo o resto.” E eu pensei naquele modo tão moderno, tão civilizado, de acreditarmos que há problemas que são “dos outros”, como se a geografia fosse uma cortina estanque. Uma decisão na Europa ecoa na Ásia, a fome em África ressoa nos mercados de Nova Iorque, uma guerra num sítio distante altera o preço do pão no sítio onde eu moro, e depois fingimos surpresa, como se o mundo não fosse um corpo único e nós não fôssemos órgãos a competir pelo mesmo sangue.

Ele foi mais longe, com uma poesia quase indecente para um professor de física: “O amor de um casal em Buenos Aires pode, misteriosamente, salvar a vida de um velho em Tóquio.” É claro que isto, tomado à letra, é um exagero, e eu não me vejo a construir um programa de governo com base em casais apaixonados e velhos resgatados por ondas invisíveis. Mas como metáfora, como forma de dizer “tudo toca tudo”, aquilo tinha uma verdade incómoda. Porque há decisões privadas com efeitos públicos, há pequenos gestos que reorganizam cadeias inteiras de acontecimentos, e há também, o que é mais trágico, pequenas crueldades que, por repetição, se tornam sistema. Quantas vidas não são esmagadas por coisas que ninguém decidiu “em grande”? Quantas injustiças não são a soma de pequenas omissões, pequenas cobardias, pequenos “não é comigo”?

E então, inevitavelmente, ele falou do princípio da incerteza. E aqui, confesso, deixei de resistir. Não porque eu seja particularmente dado à metafísica científica, mas porque a política, como a vida, é feita de incerteza, e nós continuamos a fingir o contrário. Não sabemos se amanhã seremos felizes. Não sabemos se o mundo acabará antes do pequeno-almoço. Não sabemos, muitas vezes, se os que nos governam têm a menor ideia do que estão a fazer, e avançamos, tacteamos, construímos, votamos, discutimos, como quem monta uma casa no meio do nevoeiro e depois se gaba de ter uma “visão estratégica”.

Talvez uma política quântica, se for mais do que um truque de linguagem, comece exactamente aqui: aceitar que o futuro é incerto, que o controlo é uma ilusão, que as leis imutáveis são o mais frágil dos mitos. E, aceitando-o, tornar-se mais sábia e menos arrogante. Mais humilde e menos triunfalista. Mais disposta a mudar de rumo sem tratar a mudança como fraqueza. Porque a política actual tem um vício de macho ferido: nunca admite que errou, só “ajusta”, “reforça”, “recalibra”, como se a realidade fosse um mecanismo e não um drama humano.

E por fim veio a dualidade, essa coisa bela e irritante: uma partícula pode ser, ao mesmo tempo, onda e partícula. E eu pensei nos homens, nas máscaras, nas vidas dobradas. Pensei nos políticos que, aos olhos de uns, são heróis, e aos olhos de outros, tiranos. Pensei nas decisões que, para uns, são salvação, e para outros, catástrofe. Pensei na forma como a verdade, em política, raramente é única, e como cada acção carrega dentro de si o peso das suas contradições, como um fardo invisível que ninguém quer pôr no orçamento.

Mas aqui há um risco, e eu não o escondo: aceitar a multiplicidade não pode ser aceitar o relativismo moral. A política quântica, se existir, não pode ser o pretexto elegante para dizer “tudo depende” e lavar as mãos. Porque há coisas que não dependem assim tanto. A dignidade não é relativa. A corrupção não é uma interpretação. A incompetência não é uma nuance. A miséria não é um ponto de vista. O que esta ideia pode trazer de bom, se o trouxer, é outra coisa: a capacidade de olhar para uma decisão e ver, sem sentimentalismo e sem propaganda, o que ela ganha e o que ela perde, quem levanta e quem esmaga, e assumir esse custo como parte da responsabilidade e não como dano colateral inevitável.

Quando o meu amigo terminou, ficou a olhar para mim como quem espera um julgamento, ou um elogio, ou um gesto mínimo de que não desperdiçou saliva. “E então?”, perguntou, e naquele “e então” havia a ansiedade de quem acredita e teme acreditar, a fragilidade de quem sabe que o mundo é implacável com as ideias. Eu, que nunca fui dado a entusiasmos e tenho alergia a epifanias instantâneas, disse apenas: “És capaz de ter razão.” Disse-o sem pose, quase com relutância, porque às vezes é assim que a honestidade aparece: não como clarão, mas como um aceno pequeno, como um “talvez”, como um “sim, pode ser”.

Porque, no fundo, talvez seja isso que precisamos. Não de slogans novos, não de teorias para impressionar em jantaradas, mas de uma política que reconheça o que somos: caóticos, incertos, entrelaçados, contraditórios. Uma política que saiba, como quem sabe amar, que a vida não se governa com certezas, mas com o cuidado de quem tenta, a cada instante, não deixar cair o frágil equilíbrio das coisas. E talvez, se formos honestos, a pergunta final não seja “isto é quântico?” A pergunta, a sério, é outra, mais simples e mais cruel: quantas vezes ainda vamos fingir que o mundo é simples só para nos poupar ao trabalho de o compreender?