Davos morreu, viva Munique!
O Foro Económico Mundial de Davos terminou, segue-se agora a Conferência de Segurança de Munique: importa sublinhar, contudo, que esta proximidade temporal se não deve entender como prova irrefutável de que a hora de instabilidade que vivemos e que se detetou na Suiça, exigiria este urgente updating numa perspetiva securitária europeia e mundial. Com efeito, estes dois eventos têm vindo a ocorrer anual e autonomamente – Davos desde 1971 e Munique desde 1963 -, e foram ambos adquirindo ao longo dos anos, não obstante a sua informalidade, um grande e crescente prestígio internacional, dada a visibilidade de que naturalmente foram sendo beneficiados em razão da qualidade dos respetivos convidados, e da oportunidade e relevância dos temas selecionados para debate.
De qualquer forma, e porque as fronteiras setoriais se vão esvaindo e mesclando- tal como acontece com as questões internas e internacionais- é verdade que Munique quase que se confunde com Davos, e vice-versa: o encontro na capital do Estado da Baviera surge efetivamente como uma sequência de uma inacabada narrativa sobre os grandes desafios contemporâneos que hoje dominam a agenda política internacional.
Ainda com a mente ocupada pelas palavras proferidas em Davos pelo quase octogenário Donald Trump – idade redonda inevitavelmente trazendo a terreiro o seu detestado predecessor Biden, o «sleepy Joe» -, somos agora chamados a mudar de cenário e a nos lembrarmos do escândalo causado na Alemanha pelo seu Vice Vance há um ano: quem não se recorda da sua inflamada e inesperada intervenção contra, nomeadamente, uma alegada e decadente Europa, ou a aludida ausência de liberdade de expressão na Alemanha? Ou do seu arrogante tom ao proferir essas provocantes acusações?
Juntando os dois discursos, fica evidente que o tempo da implícita harmonia entre os dois lados do Atlântico Norte sofreu um rude golpe, substituindo-se, do lado dos USA, a silenciosa diplomacia – como modelo de superação dos eventuais desacordos entre Aliados – pela pública ostentação das diferenças de perceção sobre o futuro do mútuo relacionamento.
Em razão desta nova postura da administração de Washington – Mar a Lago, resta aos seus interlocutores da velha Europa irem experimentando diariamente a evolução concreta das novas premissas e parâmetros da política externa dos USA, e em simultâneo repensarem a sua maneira de agir em termos bilaterais: mereceu assim a devida atenção a intervenção do primeiro ministro canadiano, com a sua impactante fórmula da mesa e da ementa , mesmo tendo em conta a diferença ( em relação à Europa) da sua justificável agressividade repousar, por um lado, na forte indisposição causada pela alarvidade verbal de Trump ao clamar que o Canadá deveria passar a ser o 51.º Estado dos Estados Unidos da América, e por outro, na realidade geográfica objetiva em que o Canadá se situa a um oceano de distância do teatro de guerra na Ucrânia, e das suas concomitantes consequências. Em qualquer caso, a Europa fará bem em adotar uma atitude menos subserviente e mais pragmática.
É pois chegada a altura para um breve período de nojo e despedida de uma conceção estratégica em que os EUA apostaram fortemente no pós-1945,e que resistiu competentemente a todas as intempéries e animosidades que os declarados inimigos foram instigando ao longo de quase oito décadas. E tudo pareceu ainda mais risonho na etapa do pós-guerra fria, por alguns precipitadamente julgada como o inevitável epílogo de uma vitória do bem sobre o mal, das democracias representativas liberais sobre as ditaduras comunistas e regimes autoritários. Os Estados Unidos da América assumiam então plenamente o seu papel de líder do mundo livre e o otimismo era a buzzword por toda a gente professado. A Europa não escapava obviamente à regra, e acreditou que, com a proteção dos EUA no quadro da comum pertença de muitos dos seus países constituintes à NATO, poderia ser mais aguerrida economicamente e menos comprometida com as suas obrigações estritamente de segurança e defesa. Assim atuando, e fingindo que era normal a perenidade de uma tamanha dependência daquele parceiro exterior todo-poderoso, descurámos a retaguarda.
Os americanos pareciam igualmente acomodados a esta realidade, prolongando esse seu estatuto de superpotência e padrinho, não obstante uma nova tendência em relevar o seu renovado interesse estratégico no respeitante à região indo-pacífica, significando dessa forma uma menor ênfase relativa da Aliança Atlântica na sua política.
Até que chegou o vulcânico Trump – em especial no seu segundo mandato – , e com ele uma aceleração dessa tendência de decidido apagamento de um era de íntimo relacionamento transatlântico, com o presidente norte-americano explicitamente afirmando que o processo de formação da Europa de Bruxelas havia tido como objetivo primeiro o aproveitamento da pujante economia norte-americana e a vontade de a prejudicar.
Nesta Conferência de Fevereiro de 2026, e segundo as informações entretanto divulgadas pela organização, deverá estar novamente presente J D Vance – caso não se agrave a situação interna nos EUA – , e igualmente, embora pela primeira vez, a formação política germânica AfD ( Alternative fur Deutschland) cuja ausência no ano transato foi abertamente criticada pelo jovem vice-presidente: este simples facto alimenta desde já as expetativas e especulações sobre o futuro desenrolar da Conferência, ao que acresce que, do lado dos eventuais intervenientes europeus, alemães e outros- agora avisados pela desagradável experiência de 2025 – se espera uma atitude mais frontal e contestatária: até onde irão os seus desabafos e demandas? Qual o nível da tensão que se fará sentir na ocasião? Depois de Davos, assistiremos ao reforço de uma situação já suficientemente hostil entre os 2 lados do Atlântico? Ou contrariamente a essa visão, registar-se-á um esfriamento da escaldante escalada verbal, reconhecendo-se que, no essencial e afinal, persiste uma ligação que a todos interessa manter?
A extinção pura e simples da Organização do Tratado do Atlântico Norte não estando de forma alguma em risco de acontecer, não surpreenderia que, a prazo, a sua sorte – ou seja, o posicionamento assumido pelos EUA – viesse a refletir o pensamento do recém criado « Board of Peace» onde, entre os convidados, presumivelmente nenhum país declaradamente liberal estará representado. O que então sucederia, é sem dúvida uma pergunta de um bilião de dólares.
Entretanto, a guerra continua em território europeu, e vai ininterruptamente aumentando o número de civis e militares mortos.
A Conferência de Munique de Fevereiro será certamente recordada, tal como o foi o Foro de Davos. Resta tão somente saber-se se deixará saudades. Esperemos que sim.