A mãe não se conforma. “O mesmo sistema que uma vez lhe poupou a vida, agora escolheu a morte em vez do cuidado”. O filho de 26 anos morreu no dia 30 de dezembro através do Sistema Médico de Morte Assistida (MAID, sigla em inglês para Medical Assistance in Dying) do Canadá, apesar de nenhuma das suas doenças ser considerada terminal.
Kiano Vafaeian era parcialmente cego, tinha diabetes tipo I e sofria de depressão mas, garante Margaret Marsilla, estava a “melhorar, tinha planos” mas uma médica “encontrou brechas numa lei” e ajudou o jovem a morrer. “Onde deveria haver cuidado, houve aprovação fria. Onde deveria haver intervenção, houve silêncio”, escreveu a mãe numa das várias publicações que tem feito no Facebook, desde o dia 7 de janeiro, quatro dias depois de receber a notícia da morte do filho.
A 15 de dezembro, Kiano Vafaeian viajou para o México, onde ficou hospedado por duas noites num resort de luxo. Seguiu depois para Vancouver, de onde avisou a família, por mensagem, que iria proceder à morte medicamente assistida no dia seguinte e que a decisão era irreversível. “Ele tinha fotos e vídeos do México e, de repente, está a dizer-nos que está em Vancouver”, disse o padrasto Joseph Caprara aos jornalistas na semana passada numa conferência de imprensa online. Kiano revelou que estava agendado para morrer por MAID a 18 de dezembro — no dia seguinte, frisa o jornal canadiano National Post, citando a mãe. “Não sabíamos onde ele estava… não acreditámos”, recorda Margarete Marsilla, acrescentando que chamaram a polícia. Só no dia 3 de janeiro receberam um telefonema de um escritório de advogados que representava Kiano a informar que o jovem tinha morrido quatro dias antes “através do procedimento de MAID”, disse Caprara. “Senti que tinham matado o meu filho”, contou Margarete.
Não era a primeira vez que o jovem procurava ajuda para morrer. Em setembro de 2022, Margaret (ou melhor, a filha mais nova) descobriu que o filho tinha agendado a morte assistida com um médico em Ontário. Kiano, então com 23 anos, tinha perdido recentemente a visão de um olho, estava desempregado e não tinha planos para o futuro. O caso já tinha, aliás, estado em destaque no documentário “Is it too easy to die in Canada?”.
A mãe divulgou as intenções do filho e identificou o médico que iria proceder à eutanásia nas redes sociais. Perante a pressão pública e um coro de críticas, o médico primeiro adiou o procedimento e depois recusou-se a realizá-lo. Kiano não gostou, criticou a mãe por ter violado o seu direito de escolher quando e como queria morrer. Mas depois disso os dois entenderam-se, garantiu Marsilla aos jornalistas, adiantando que fizeram ambos terapia e que ela lhe providenciou um apartamento mobilado e uma cuidadora. Antes de dezembro Kiano estava a ir ao ginásio e a poupar dinheiro para viajarem juntos.
Porém, Ontário não recusou apenas o pedido de MAID de Kiano. O jovem recebeu um e‑mail a referir que era livre para se candidatar noutras províncias e incluía mesmo um link para essa pesquisa, “o que é muito contraditório e muito perturbador”, disse Caprara, citado pelo National Post. “Ele já tinha sido recusado aqui. Porque é que sugeririam que ele fosse para fora da província?”
https://twitter.com/DreaHumphrey/status/2011312366299091151
A mesma indignação é manifestada por Margarete Marsilla. “Se eu soubesse o que sei agora, que se pode ir de província em província à procura de médicos de MAID, teria vigiado o meu filho mais de perto. Não imaginaria que outras províncias estariam dispostas a atender o meu filho.”
Kiano “não tinha os requisitos necessários para se qualificar para o MAID, francamente, o sistema falhou com ele” devido à sua vulnerabilidade, continuou o padrasto, citado pelo Global News.
Margaret Marsilla assegura que irá processar a médica, Ellen Wiebe que aproveitou uma lacuna legal para aprovar a morte de Kiano “com base na sua saúde mental”, apesar de isso ainda não ser permitido no Canadá.
A doença mental “não é um estado constante”
Não é a primeira vez que Wiebe está no centro da polémica em relação à morte medicamente assistida: já em 2024, um pedido de eutanásia aceite pela médica foi revogado por um juiz da Columbia Britânica e suspendeu a médica de exercer funções durante 30 dias. Wiebe é vista por muitos como altruísta por “salvar” pessoas ao terem uma morte digna e odiada por outros tantos e considerada uma “assassina”. Em 2022 disse aos deputados no Canadá que já tinha realizado MAID a mais de 430 pesssoas, recorda o National Post.
Contactada pelo jornal, Wiebe afirmou que a lei canadiana exige que a pessoa tenha uma condição de saúde grave e incurável que cause sofrimento insuportável. “Nenhum diagnóstico específico torna alguém elegível ou inelegível, essas avaliações são feitas por médicos.”, explicou. “Cada pessoa tem de ser capaz de tomar decisões sobre os seus cuidados médicos”.
A mãe insiste em apontar que a doença mental “não é um estado constante. Quando estás num momento mais em baixo, queres morrer. Quando sais desse momento, queres viver. Essa é a natureza da doença.” Por isso, “como pode alguma vez ser seguro tomar uma decisão irreversível durante um período temporário e tratável em que está em baixo?”, interroga-se Margarete Marsilla no Facebook.
“O meu filho tinha planos. Tinha um futuro. Tinha um bilhete para voltar para casa, em Toronto. Não embarcou nesse avião porque estava num momento baixo — não porque realmente quisesse morrer, mas porque a sua doença falava mais alto do que a esperança naquele momento. Se a eutanásia assistida (MAID) não tivesse estado disponível, o meu filho ainda estaria aqui. Teria voltado para casa. Ter-se-ia estabilizado. Ter-se-ia lembrado da vida que estávamos a construir para ele e do amor que o envolvia. Em vez disso, tomou-se uma decisão permanente num momento que podia ter passado”, continuou a mãe do jovem.
A certidão de óbito de Vafaeian fala em “causas antecedentes” para a eutanásia a cegueira relacionada com a diabetes (Kiano perdera a visão do olho esquerdo) e neuropatia periférica grave (danos nos nervos que podem causar dores intensas e dormência). O que a mãe e o padrasto contestam. Asseguram que nunca se queixou de sofrer dores nervosas graves e que claramente adaptou as suas queixas ao que percebeu serem as condições para ser elegível para a eutanásia.
Margaret Marsilla afirma que a morte do filho é “repugnante em todos os sentidos” dada a facilidade com que o sistema canadiano aprovou o pedido de Kiano. “Não foi uma assistência médica e foi sim, uma falha ética, de responsabilidade e de humanidade. (…) Nenhum pai ou mãe deveria ter de enterrar o seu filho porque um sistema – e um médico – escolheram a morte em vez do cuidado, da ajuda ou do amor.”
O caso de Kiano está a suscitar polémica no Canadá, um dos países com a taxa mais elevada de mortes por eutanásia, menciona o The Telegraph. Em 2024, o país registou 16. 499 mortes medicamente assistidas — de 22.535 pedidos, sendo que 4.017 pessoas morreram por outra causa, 1.327 foram considerados inelegíveis e 692 indivíduos retiraram o seu pedido — de acordo com o relatório anual federal. Ou seja, as mortes por eutanásia representam 5,1% das mortes totais (pouco mais de uma em cada 20 mortes).
No entanto, embora se registe o aumento dos números de ano para ano (de 15.000 em 2023 para 16.499 em 2024, por exemplo) , a taxa de crescimento tem vindo a diminuir, lê-se no mesmo documento, “passando de 36,8 % entre 2019 e 2020 para 6,9 % entre 2023 e 2024”.
Apesar de todas as críticas ao MAID, o Governo canadiano liderado por Mark Carney, prevê alargar o sistema a pessoas com problemas de natureza mental que não têm problemas físicos já em 2027. Estatísticas revelam que a categoria que mais cresce no que toca à morte medicamente assistida é a “outros” e não os casos de pessoas com doenças terminais, o que leva ao aumento das críticas na opinião pública.
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Um passo que Margarete Marsilha quer impedir. A mãe de Kiano defende que se trave o alargamento do MAiD para pessoas cuja única condição é a doença mental. “As pessoas passam por buracos profundos, e leva tempo para saírem deles”, disse ela numa entrevista telefónica ao jornal canadiano Global and Mail. “Durante esse buraco profundo, podem passar pelo processo de candidatura à [MAiD].”
O Canadá é um dos países do Ocidente em que a morte assistida e legal tal como a Austrália, a Bélgica, a Espanha, os Países Baixos, o Luxemburgo e a Suíça, onde a questão continua bastante controversa devido às questões éticas, religiosas e legais.
Em Portugal, foi aprovada em 2023 uma lei que descriminaliza a morte medicamente assistida mas após um longo processo legislativo, com vetos presidenciais e recursos ao Tribunal Constitucional, ainda não está em vigor.
Texto editado por Dulce Neto