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Das mudanças pelo mundo ao encontro com a tapeçaria em Cascais: Ju Bock e a arte de se reconstruir em fios

Do Brasil para Bruxelas, para a Suíça, para os EUA e para Portugal, foi só há pouco mais de dois anos que se reconheceu artista visual. Ao Observador abre as portas da casa e do studio em Cascais.

Sâmia Fiates
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Francisco Romão Pereira
photography

“Diz-me o que vestes, dir-te-ei quem és”. Numa manhã nublada de rescaldo da depressão Ingrid, Ju Bock abriu-nos a porta de casa, no centro de Cascais, num jumpsuit em ganga da italiana Elisabetta Franchi com uma lista de palavras bordadas no bolso da frente, entre elas feminilidade, empoderamento, determinação e evolução. No pescoço, um colar que diz “Gratidão”, e outro com um pingente que forma o mapa do Brasil. É, de relance, o que chama a atenção depois dos nossos olhos serem desviados para a tapeçaria de 2 metros e 90 centímetros de altura pendurada na enorme parede do hall de entrada. “Aqui tem 25 quilos e meio de fio. Foi construída aqui, porque não tenho essa altura em lugar nenhum da casa. Trabalhava com fones de ouvido”. Aos 54 anos anos, foi só há pouco mais de dois que deu os primeiros passos no mundo da arte têxtil — e neste meio tempo já expôs na ArtRio, no Rio de Janeiro, e na MIAD, em Madrid, evento para onde levou esta “Corrientes”. “Significa muito para mim, representa o reconhecimento da minha arte lá fora”. Agora prepara-se para inaugurar, a 5 de fevereiro, uma exposição em nome próprio na Galeria Fema, em Cascais, na qual desafia o público a “habitar” a sua obra.

Casada com um antigo executivo da InBev, cervejeira que resultou da fusão em 2004 entre a belga Interbrew e a brasileira AmBev, e que é atualmente a maior produtora de cerveja do mundo, Ju Bock acostumou-se a levar a própria casa pelo mundo. “Fizemos 17 mudanças em 28 anos”, conta orgulhosa, enquanto nos leva a conhecer a sua sala de estar, repleta de pedaços desta história. Entre os livros de Sheila Hicks a Alexander McQueen e as peças étnicas, está uma escultura da série “Guerreiro”, do escultor austríaco radicado no Brasil Francisco Stockinger. “Comprei esta e alguns anos depois comprei outra peça que depois descobri que pertenceu ao Jorge Amado“, conta Ju Bock, sobre o escritor baiano autor de obras que mais tarde ganharam os ecrãs em forma de telenovelas, como Capitães de Areia, Tieta ou Gabriela.

As duas esculturas vieram de um apartamento que a família teve durante 13 anos em Salvador. “Ainda estou com o cordão umbilical ligado a Salvador. Em vidas passadas eu fui baiana”, diz a artista, com o sotaque marcado de quem vem do Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil. O espaço leva-nos à sala de jantar, onde está exposta uma das obras preferidas da dona da casa. “É a Raízes. É icónica, eu não vendo. É feita com lã vinda do Rio Grande do Sul, produzida e tingida numa fazenda familiar em São Pedro do Sul. As cores são Erva Mate e Carqueja, dois chás típicos do sul, e o castanho é o Pau-Brasil. Esta peça conta muito sobre mim. Mas já tive portugueses a dizerem-me que enxergam o Alentejo“, conta Ju Bock, que diz ter criado a decoração da sala em torno da obra. “Primeiro veio ela, depois vieram as demais cores”. Cores presentes por exemplo na parede oposta, num quadro que ilustra uma natureza densa, de autoria da artista plástica Lelli de Orleans e Bragança, e que está acompanhada no balcão da cerâmica de Rezi de Orleans e Bragança — ambas irmãs, tetranetas de Pedro IV, e membros da família imperial brasileira.

As paredes também têm telas assinadas pela própria Ju Bock, que hoje se considera uma “artista visual”. Licenciada em jornalismo e com um percurso voltado para a comunicação em moda, as idas e vindas da família foram o motivo para a pausa na carreira profissional, que retomou só no início de 2024. O interesse pela tapeçaria intensificou-se na pandemia, quando decidiu aprender através de vídeos no Youtube. Ainda vivia no estado norte-americano do Missouri com o marido e o filho, mas há cerca de quatro anos a família decidiu vincar raízes em Cascais, para ficar mais perto das duas filhas, que vivem em Londres — uma trabalha em marketing, e a outra é curadora assistente no Victoria and Albert Museum. Desde então o lado artista só cresce, participando em exposições e criando peças para projetos de design de interiores — de residências de luxo na Quinta Patino a um escritório de arquitetura em Nova Iorque. Vai em breve lançar um coffe table book com fotografias das suas obras e já pensa em transformar a sua arte em moda.

A tour por entre as obras de arte contemporânea continua, com uma escultura do brasileiro Paulo de Tarso na entrada, e a outra escultura de Francisco Stockinger, posicionada em frente à parede que recebeu aquela que é considerada a primeira peça de Ju Bock. Chama-se “Areia”, e é uma tapeçaria de fios de lã e algodão com um metro e 30 centímetros de altura toda em tons de bege e castanho claro. “Foi por causa dela que tudo aconteceu. O Euclides (Barros, arquiteto brasileiro e dono da deBarros Gallery, na Lapa) viu e pediu uma peça com o dobro do tamanho. Isso foi a 23 de dezembro de 2023. A minha primeira exposição foi em maio de 2024″. As escadas seguem até o atelier, que divide o espaço com uma pequena adega, separada por uma tapeçaria sua, chamada “Deserto”. É ao som de uma bossa nova num volume ambiente, com o aroma de peónias Jo Malone, num sofá de retalhos e cercados por fios e obras como “Mar”, “Eu” e “Caos”, que conversámos com a mulher, mãe e artesã que só há dois anos se reconhece verdadeiramente artista. 

Como foi o seu primeiro contacto com os fios e as lãs?
Foi lá na infância. Acho que eu nem lembro de um momento único, foi tão orgânico, tão natural. Porque chegava o inverno, no Rio Grande do Sul, de onde eu venho, e a minha mãe começava a fazer os nossos tricôs, os nossos blusões. Crescíamos de um ano para o outro e esses blusões eram renovados. Então eu sempre ajudei ela a desmontar a meada para transformar em bola, porque antigamente os fios não vinham em novelos. A minha mãe comprava meadas, elas vinham grandes. Então eu me lembro de ainda pequena, a minha mãe botava a meada no encosto da cadeira e a gente ficava desfazendo aquela meada e fazendo bolas para que ela tricotasse mais tarde.

[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

Ainda tem peças que a sua mãe fez na infância?
Sim, são peças que sobreviveram ao tempo.

E têm um significado emocional.
É daquelas roupas que quase não se usa. Para não danificar. São peças especiais. A minha mãe ainda faz, principalmente o crochê. Ela faz peças maravilhosas, tem um vestido branco lindo que ela fez, mas até hoje ela faz muita, muita coisa utilitária. Eu tenho jogos de crochê americanos lindíssimos que ela faz e eu uso.

E, entretanto, o seu caminho profissional não foi logo relacionado com os teares.
Eu sou jornalista de profissão, sou também guionista. Vim do mundo da moda, trabalhei cinco anos num escritório de assessoria de imprensa para eventos como a São Paulo Fashion Week, e, com o passar do tempo, o fio esteve sempre presente, mas não comercialmente. Era sempre para dentro de casa. E aí na pandemia todo mundo resgatou alguma coisa do seu passado, ou um desejo futuro que queria fazer, e acabou antecipando ou então puxando do passado para o presente. As primeiras aulas que procurei foram no YouTube. Comecei e a primeira peça botei fora, não existe mais. Mas ali eu entendi que a textura era uma coisa fácil de fazer. É bonito ver no tear aquilo crescendo, ganhando volume e isso foi para mim uma virada de página imensa.

Mas antes disso já tinha contacto com a arte?
Sim. Eu fiz artes plásticas também. Estou há 20 anos fora do Brasil, mas mesmo antes de sair do Brasil, eu sempre fazia alguma coisa manualmente, fora o tricô e crochê, que fazia como hobby. Já andei por várias técnicas de artesanato, essa coisa manual sempre foi fácil para mim. Quando eu saí do Brasil e decidimos que eu iria largar a minha profissão para me dedicar à família, porque o Alessandro precisava trabalhar muito e viajar muito, e na época tínhamos as meninas com 11 e 12 anos, eu levei as minhas tintas para a Bélgica e eu sempre tive o meu espaço. Nunca abandonei a arte. Fiz telas, arte francesa, decoupagem. Dei aulas inclusive para brasileiras na Bélgica, na minha garagem, de decoupagem. Então eu sempre fiz isso, sempre me acalmou muito, me tranquilizou. Era uma válvula de escape por uma pressão de um país novo, língua nova, sem família, sem amigos. Então acho que era tipo um psiquiatra, me ajudava muito e me ajuda até hoje. E essa arte eu nunca abandonei, ainda tenho as minhas tintas, mas eu me encontrei mais no fio.

Passando por todos esses percursos de arte, por que o fio?
O fio traz a textura mais rápido do que a tinta e eu consigo manejar a textura melhor do que na tinta. A tinta não te dá muito volume. E eu sempre quis muito volume, mas isso foi um processo até eu entender, por que eu não gostava das obras que eu fazia antes. A minha mãe tem muitas telas minhas porque eu fazia e não gostava e a minha mãe acabava levando. Mas eu entendi que faltava a textura. E não tem a sujeira da tinta. A lã é uma coisa mais limpa, só ficam fios de lã pelo chão. A tinta também tem a questão do tempo. Você precisa pintar rápido porque ela vai secar. Para dar volume precisa de várias camadas…

É impaciente?
Não sou impaciente, mas gosto de ver o processo sendo feito. É por isso que eu gosto da minha tapeçaria. Começo de baixo para cima, gosto de ir deixando ela pronta, e a tinta não me dá isso. A tinta eu tenho que começar do fundo para frente, vindo com as texturas por último. Então eu via a minha peça pronta quando eu trabalhava ela muito tempo. A tapeçaria, hoje, na primeira linha, já tenho a textura. Não chamo de ansiedade, mas a rapidez com que eu consigo ver o trabalho, só o fio me dá isso. Consegui me expressar por meio do fio e isso para mim foi uma virada de página gigante. Conseguir colocar as minhas forças, os desejos de cores, as minhas inspirações, numa peça de fio, não perdendo nunca o ponto, para mim é uma realização. Eu sou apaixonada pelo que eu faço, vibro por cada peça que eu termino.

Qual é a importância do ponto para o seu trabalho?
A ancestralidade da tapeçaria não podemos deixar perder. A tapeçaria vem de muito lá atrás e isso está se perdendo como muitas artes estão sendo perdidas hoje. Vamos falar da tapeçaria de Arraiolos. A base do meu trabalho é o ponto tafetá, eu preciso dele para que a minha textura cresça. E esse ponto é ancestral, é a base da tapeçaria de sempre. Então a gente não pode deixar perder. Eu claramente posso evoluir na minha arte, colocar mais volume, colocar mais leveza, mais eu não vou deixar de usar o ponto em nenhum momento.

Disse que a primeira peça de tapeçaria que fez já não existe. Qual considera, então, a sua primeira peça?
É a “Areia”, foi a primeira que eu fiz aqui.

Como é que foi o processo para esta peça?
Lembro de sair para comprar os fios e não sabia qual cor comprar. Aí o Alessandro, o meu marido, disse: ‘Faz uma clara’. Porque a primeira que eu tinha feito, nos Estados Unidos, tinha bastante bordeaux, vinha um pouquinho para o vinho. Aí eu fiz essa clara. Usei restos da indústria têxtil, um pouco de fio de tecido. Levou um mês para ser feita. Levou até muito tempo para uma peça pequena dessas, porque eu vinha visitando a peça, vinha, olhava, fazia, vinha, olhava, fazia. E aí é outra coisa interessante. A tapeçaria me deu o desfazer. Eu sempre tive um bloqueio muito forte no desfazer das minhas peças de tricô. Eu odiava quando a minha mãe dizia: ‘Você errou esse ponto. Vamos voltar porque você tem que refazer.’ E eu tinha um bloqueio muito grande. Às vezes eu abandonava a peça para não ter que desmontar ela. E a tapeçaria me deu essa leveza de desfazer e fazer de novo. Poucas coisas eu desfiz. Eu não desfiz muitas coisas porque como eu vou indo aos poucos, vou moldando de acordo com o que quero. Mas eu já desfiz peças grandes.

Desfez por erros ou desfez porque não gostou do resultado?
Não era aquilo que eu queria passar. Teve duas peças que eu zerei quase. Você precisa sair um pouco, descolar o teu olho daqui, porque às vezes eu passo dez, doze horas aqui dentro. É aí eu volto e digo assim: ‘Não, não, não, não tá bom, não é isso aí.’ Tento botar uma cor, fica pior. Aí duas eu zerei, desfiz toda e disse: ‘Vamos começar de novo. Respira. Tá tudo bem. Vamos, de novo.’

O desfazer e fazer de novo também pode ser uma metáfora para a sua vida. Como foi a decisão de aos 51 anos embarcar numa nova carreira profissional?
Diferente! No meu caso, completamente diferente, porque eu vim da maternidade. Saí do jornalismo, passei 20 anos cuidando de mim e cuidando da família. E aí eu venho para cá e entro numa crise. O que que é que eu vou fazer agora? Porque o Alessandro se reformou, os filhos estão criados… E eu tinha a tapeçaria em mim. Comecei a fazer como hobby. Depois fui fazer para decorar aquele espaço ali. Então, profissionalizar o hobby foi uma necessidade do ambiente externo… Começaram a vir e a me solicitar. Então eu e o Alessandro sentámos para conversar e definir que isso é um projeto familiar, não é uma decisão minha. E foi quando me vi como uma artista têxtil. Na verdade, eu me coloco como uma artista visual, porque eu faço também telas. E nunca começamos nada do zero, porque temos uma bagagem histórica, cultural e, enfim, infinita. Então decidimos focar nesta profissão e fazer isso a minha história de arte.

Mas era um desejo antigo, que estava presente quando tomou a decisão de interromper a sua profissão antiga?
Tinha o desejo de fazer alguma coisa por mim. Sempre tive, mas não sabia. Faltava alguma coisa em mim, essa inquietude, essa coisa que parecia que não estava completa. Ser uma boa mãe, uma ótima esposa, às vezes não te completa. Na verdade me neutralizam, de certa forma, profissionalmente. Mas não me arrependo. Isso foi uma decisão familiar também. Mas no momento que eu vejo que posso fazer e que isso dá certo, é uma luz que vem, como uma explosão. ‘Por que não começar agora?’ Porque quando eu vim para cá tinha a intenção de começar a fazer um blog como jornalista, para ter a Europa como janela para o público brasileiro. Contratei essa empresa para fazer uma logo pensada já numa coisa mais profissional. E aí vem a tapeçaria e aí a gente senta de novo, limpa o Instagram, e começa a fazer isso profissionalmente. Construir uma marca é difícil, e na arte têxtil é uma coisa mais difícil ainda, porque você está num limbo entre o artesanato e a arte. Tudo é uma questão de posicionamento. E aí a gente fala um pouco também de valores, de valorizar uma arte têxtil. É difícil. É uma coisa que hoje em dia está muito na moda, na arquitetura. Arquitetos que querem ousar sair do ‘mais do mesmo’ vêm para a arte têxtil. Só que as pessoas têm uma dificuldade em aceitar valores diferente da tela. E aí eu fui conversar com a minha filha, que é curadora em Londres, e ela me ajudou a entender. Ela disse: ‘Mãe, muito simples. Todo mundo tem um novelo de lã, um rolinho de barbante, em casa. Todo mundo acha que aquilo é uma coisa simples e muito fácil de ser feita, porque é acessível. Já a tinta a óleo, o pincel, uma canva bem formada, custa caro e nem todo mundo tem.’ E a arte têxtil está ali, no que a avó faz e o que você está fazendo.

Disse que fez 17 mudanças em 28 anos. Porquê?
O meu marido era vice presidente da Ambev — InBev fora do Brasil. E para a evolução dele como empresário, precisava fazer essas mudanças. E aí a gente foi se mudando.

Como foi para si e para a sua família passar por essas mudanças todas?
No começo foi complicado. Na verdade, eu já comecei a me mudar logo que eu casei. Mas a mudança internacional, a primeira, para Bruxelas, foi complicado, principalmente para as meninas. Foi muito choro para sair, mas elas também já estavam numa evolução de escola, porque elas já tinham saído de Encruzilhada do Sul, onde tudo começou. O Alessandro saiu da faculdade e foi contratado na Brahma (marca brasileira de cerveja). Então eu saí de Encruzilhada e fui para Porto Alegre, a capital do Rio Grande do Sul. E depois fui para São Paulo,  e de São Paulo voltei para Porto Alegre. Então as meninas já vinham de uma sequência de troca de escolas na vida delas. Mas a mudança internacional foi uma troca muito mais importante, por causa da língua. Elas sempre estudaram em escola internacional, 100% inglês. Então houve uma rutura aí de cultura, chegar num país que fala outra língua, eu falava só um pouco de francês. Enfim, foi difícil para elas. Mas eu e o meu marido queríamos muito sair do Brasil. A partir do momento que a gente saiu de lá, a gente construiu uma vida fora.

Considera essas mudanças também parte de quem a Ju Bock é como artista?
São camadas da minha história. Em Bruxelas viajámos muito, porque é um país muito central, tínhamos uma facilidade muito grande em viajar de carro. Então há as cores da Holanda, o jeito de pintar, as pinturas holandesas são muito importantes. Com certeza tem influências nas minhas obras. A própria Alemanha tem toda uma tradição no fio, na feitura das lãs também. Eu morei na Suíça, que tem outras camadas, coisas diferentes. Estados Unidos, um país completamente comercial, sem cultura nenhuma no manual, o máximo que conseguíamos era nas galerias de arte. Eu sou feita de camadas.

Tem algum lugar que marcou mais?
Bruxelas. Voltaria a morar lá, com certeza.

Porquê?
É um país central que facilita a movimentação para outros lugares, para ver culturas diferentes, comidas diferentes. Viajamos muito pela gastronomia, eu e o meu marido. E Bruxelas nos favorecia muito por ser próxima a outros países. E a língua, eu amo o francês mais do que o inglês. O meu filho nasceu em Bruxelas. Voltaria para Bruxelas, sem sombra de dúvida.

E o que os trouxe para Portugal?
A proximidade das nossas filhas, porque elas moram em Londres e a gente não queria ficar nos Estados Unidos. O mar, porque eu tenho uma ligação muito forte com o mar. E não foi à toa que eu comprei um apartamento na orla em Salvador, porque também queria ficar próxima ao mar. Não preciso entrar nele, mas ele me acalma. Eu sempre que posso, todos os dias, faço caminhadas na orla. O mar é muito importante para mim. Me dá uma paz. É uma conexão que eu tenho com a natureza.

A vossa casa em Cascais também é muito próxima do mar. Tinham muitos pré requisitos?
Sim! Tinha que ser perto do mar e perto também da vida do centro, que não queríamos ficar dependendo muito de carros. Dá para ir a pé para o mar, dá para descer para o centro a pé. E tinha que atender às vontades também familiares. Queria uma casa que recebesse as minhas filhas, que quando viessem ficassem comigo, não ficassem em hotel. Temos um filho pequeno, então tinha que ter um espaço também para ele. A gente queria piscina. Então as coisas foram se conectando, até que a gente conseguiu essa aqui. Mas ainda quero dar uma ampliada. Quero ver se eu visito o vizinho de trás para fazer uma coisa maior para fora.

Recebem muitos amigos?
Muito. Temos muitos amigos. Amigos que vieram morar aqui também porque eram amigos da companhia, que a gente se conectou pelo mundo e acabou se encontrando aqui. Muitos moram aqui em Cascais, outros moram em Lisboa, outros têm as duas coisas, moram no Brasil e vêm para cá. Pela primeira vez, eu tenho amigos locais. Na Suíça a gente não conseguiu ter amigos, é um povo muito fechado. Na Bélgica também, quase não consegui ter amigos assim que frequentassem a nossa casa. A gente tinha conhecidos na Estados Unidos, eu tinha amigos americanos, mas aqui eu tenho realmente amigos portugueses que vêm na minha casa para tomar um café, sem convite formal.

Será a proximidade entre as culturas brasileira e portuguesa?
Com certeza. E este foi um dos motivos para virmos morar em Portugal. Estávamos com saudade de falar a língua e não sabíamos. Só entendemos quando viemos realmente morar aqui. Porque você se expressa melhor na sua língua, mesmo que domine a outra língua, é diferente. E a receção também é diferente daquilo que você quer passar para a pessoa. Então Portugal nos deu esse conforto, esse abraço de ter coisas similares, inclusive a língua. A gastronomia também.

Quando não está no atelier a trabalhar, o que costuma fazer?
Nem me lembro, faz oito meses que eu estou aqui (risos). Gosto muito de ler. É uma coisa que vem de sempre e os nossos filhos amam ler também. E sempre procuro novos livros, recebo muitas dicas, porque as pessoas também sabem que eu gosto de ler. Amo organizar a minha casa, amo fazer arranjos de flores naturais. A minha casa sempre tem flores naturais. Gosto de de cuidar da casa, fazer algumas coisinhas para o meu filho quando chega da escola. Gosto de sair, jantar com o marido.

Fala em organizar a casa, mas também a decorou.
A casa é toda decorada por mim, com coisas que fazem parte da nossa trajetória como família. Tenho peças do mundo inteiro, lugares que visitámos ou morámos. E eu acho que isso tem que ter. A casa não é uma revista de arquitetura. A casa tem que contar um pouco da tua história.

Sempre decorou as suas casas, em cada uma das mudanças?
Sempre, sempre. Sempre tentei trazer do Brasil coisas que lembrassem de onde a gente veio, porque também isso é muito importante. A gente não pode esquecer da onde a gente vem. Então, assim, tenho muita coisa brasileira, tenho muita coisa dos países que eu vivi ou visitei e que gostei muito. Comprei muita louça, amo uma mesa posta. Acho que tudo aqui conta alguma história. Aquele móvel ali, por exemplo (aponta para uma cristaleira de madeira de demolição), eu trouxe de São Paulo, é de Embú das Artes, está sempre comigo. Não vou me desfazer dessa peça porque eu fui muito feliz em São Paulo, tenho uma história lá. Isso me traz uma conexão de onde eu vim. Então são peças que a gente traz e aí as pessoas dizem: ‘nossa, você se mudou tanto e você sempre levou suas coisas?’. Sempre, sempre me mudei com dois containers porque a nossa história tinha que estar com a gente. Muitos amigos nossos nessa vida de Ambev alugavam casas mobiladas. Nós não somos essas pessoas. A gente precisa ter as nossas coisas, pela reconexão, o aconchego. A nossa casa forma-se com o jeito de compor os móveis e a decoração. Hoje a nossa casa tem bastante de mim. O Alessandro também gosta de arte, mas tem muita obra minha, muitos gostos meus, mas enfim, a gente vai dividindo cada peça, um dá uma opinião aqui, uma ali.

O que tem neste espaço do atelier que a transporta para o mundo da arte?
Sou uma pessoa bem sensível a coisas que vêm de fora. Há coisas que eu recebo como inspirações e que eu preciso para criar. O ambiente precisa ser calmo e a gente tem isso aqui nesse espaço. Eu preciso de cores para me inspirar. Por mais que eu faça uma peça monocromática, mas as cores fazem parte de mim. O cheiro. Eu acho que a minha casa sempre teve perfume, e esse ambiente tem que ter um sensorial de cheiro. E a música ambiente. Então assim, eu preciso de inspiração nas cores, nas texturas, no cheiro e no som. Eu acho que isso tudo, quando está conectado, para mim é um paraíso. Não é à toa que eu passo às vezes 12 horas aqui dentro. Eu não preciso sair daqui. E isso aqui me traz aconchego, me traz calma. É onde eu consigo transportar tudo que eu sou, nas camadas que eu sou para as obras. E é muito engraçado que pessoas que não me conhecem e já viram as minhas obras, escrevem para mim: ‘Eu vi a exposição tal e eu percebo que ali existe uma mulher forte.’

Como é o seu processo de criação? Costuma ter designs e projetos antes de começar uma tapeçaria?
Não tenho design, vou criando a peça linha a linha. Já fiz projetos porque arquitetos precisam de projetos para apresentar para os clientes. Faço, não gosto, mas faço e já fiz. Eu faço num programa digital, fotografámos os fios e botamos para dentro desse programa a cor exata dos fios. E aí eu faço um projeto. Mas deixo bem claro no contrato, que não é isso que vai ser apresentado. É preciso confiar no processo.

Onde vai buscar referências e inspirações?
Viajo muito para ir a exposições. A última que eu fui foi da Sheila Hicks, em Paris. É uma grande inspiração para mim. É uma senhora de 95 anos, ainda trabalha, e ela tem esse despojamento de soltar o fio. Hoje a Sheila Hicks é vista em grandes feiras internacionais, com 500 kg de fio vindo do teto, numa harmonia de cores incrível. A Sheila me dá essa essa visão mais fresca do que está vindo da tapeçaria, mas ela também faz pontos. Então existe uma evolução minha, do começo até hoje. De um despojamento maior, de uma soltura maior de formatos. Eu tenho três peças grandes aqui, com dois metros de comprimento, que eu tenho pontos, mas tenho muito fio solto. Tenho inspirações com o México também, da tapeçaria mexicana. Então uma dessas peças também tem umas bolas mexicanas que eu trouxe junto com uma grande inspiração minha que é o Norberto Nicola, que é brasileiro, já falecido, mas que os filhos cuidam do acervo dele, que são as cordas forradas, uma assinatura do trabalho dele que eu também trouxe em outras peças. São inspirações que me trazem esse frescor para sair um pouco do tear que me dá uma peça mais densa, mais pesada visualmente para colocar em varão. Porque são duas técnicas: a técnica do tear ou a técnica do varão. A técnica do varão eu faço ela já no varão, então eu não consigo fechar uma peça do varão tão bem quanto eu fecho no tear.

Qual técnica gosta mais?
Não sei, acho que eu gosto das duas… Mas gosto do tear. Ele dá bem mais trabalho, demorei três meses e pouco para fazer “Raízes”. Foram três meses e duas semanas trabalhando porque o fio era muito fino, então levei muito mais tempo para subir a peça. Mas o tear me emociona assim. Claro que isso aqui (aponta para uma obra em varão) é muito bom. É um desafio fazer isso aqui, porque o fio está solto, o fio não está estável, ele está mole. Já no tear, ele está todo esticado, ele está como numa harpa inteira esticadinha, e você fica trabalhando. Mas eu gosto do tear.

Quanto tempo demora para uma peça ficar pronta?
Depende de muitas coisas, do tamanho e também da técnica. ‘Mar’ levou dois meses e pouco. A ‘Raízes’ levou três meses e duas semanas. Essa aqui, ‘Caos’ eu fiz durante a noite. Ela aconteceu da meia noite às 6 da manhã.

Foi uma noite de insónia ou foi um desespero?
Eu tirei dez dias no Havai sozinha. Foi a minha primeira viagem sozinha e eu voltei com 14 horas de fuso. Eu tinha uma peça que estava uma parte feita, ia construir caminhos, que eram as cores das terras aonde eu já pisei. E aí eu não tive sono, desci, mas a peça não estava funcionando. Eu tinha descido já era umas oito horas da noite. Acabei desfazendo tudo que eu tinha feito em cor e deixei ela só no fio e comecei do nada, eu só tinha o fio preso. Às 6h15, quando a casa acordou, escutei barulho do Alessandro e subi. E eu disse: ‘Eu quero que você desça. Eu não vou falar nada, não vou te dar spoiler nenhum. Só quero que você desça e olhe a peça.’ E eu tinha acabado de fazer o “Mar”. Então assim, eu vinha de uma tapeçaria completamente tradicional de tear. Aí o Alessandro subiu e disse assim: ‘A tua cabeça não deve estar legal, a tua cabeça deve estar um caos.’ Eu disse: ‘Tá aí. Não tinha nome. Caos!’

Valoriza muito a opinião e as críticas do seu marido?
Hoje eu digo que ele é o meu CEO ou algo assim. Ele é muito importante para mim como apoiador. Ele que fez os teares, é quem fura as minhas molduras. Temos uma mini marcenaria na garagem. E também critica. Ele sempre diz que não é a melhor pessoa para criticar as coisas, mas quando ele fala é pontual.

E leva em consideração?
Levo muito. É uma pessoa que não está todo o tempo aqui dentro, que respeita muito esse meu espaço. Ele vem pouco aqui porque ele sabe que eu preciso. É um trabalho silencioso e sozinho. Mas quando eu peço ele desce aqui para dar uma olhada. E dá a real.

De quem vem a opinião que é mais importante para si?
Acho que da Victória, a minha filha mais velha. Porque ela vem do mundo da moda, trabalha num dos maiores museus do mundo, é curadora lá. Então a visão dela, geral e estética, conta muito para mim.

Ela também assina a curadoria da sua nova exposição.
Ela conseguiu descolar a mãe da artista, fez um texto bem leve, tranquilo. E ela não assina como curadora, porque ela disse que tudo que ela fala não é de curadoria e sim de apoio. Ela disse: ‘Eu assino a sua exposição, mas eu não sou curadora. O curador é muito mais que isso.’ Então ela não quer ser chamada assim, mas é uma grande apoiadora, incentivadora e crítica. Temos uma troca quase diária. Essa peça laranja aqui é completamente escolha de cores dela, porque depois que você vem de uma sequência de criação monocromática, é muito difícil escolher cores. Tem uma peça na exposição, que é a ‘Pulso’, que ela escolheu 100% das cores dos fios e é tão intensa quanto essa. Muito maior. Mas ela ela tem uma visão de cor muito mais macro do que a minha. Escolher cores completamente coloridas é difícil, é difícil de pensar na peça pronta. É um bloqueio que a gente tem e daí é muito mais fácil eu sair de uma colorida para uma outra colorida. É um processo. Mas a Victoria ama cores fortes, então isso me complementa. Às vezes, o que eu não tenho no momento, ela me ajuda.

Quais são as inspirações para esta próxima exposição?
É diferente da minha primeira exposição, que foram peças autobiográficas em que cada uma contava um pouco da minha história. Na ‘Habitar’ o grande protagonista é o fio. Ela não tem uma linha de pensamento. Todas as obras são diferentes. Eu usei o fio no máximo que eu pude tirar dele em todas as obras, então é o grande protagonista dessa exposição.

A matéria prima vem de onde?
Principalmente Portugal, tem alguma coisa da Itália, principalmente essas fibras de lã. Eu encontro com mais facilidade a gama de cores na Itália, mas posso dizer, sem sombra de dúvida, 90% português.

Como foi o processo de criação destas obras?
Foram oito meses trabalhando nessas peças. No momento que a Galeria Fema veio a mim, a gente começou a trabalhar nessa exposição. A gente não tinha fechado um número ainda de peças e aí muitas coisas entraram. Nesse meio tempo, entraram a ArtRio, eu tinha recém saído da Miad de Madrid, entraram encomendas de peças que já tinham sido feitos os contratos com os clientes. Então eu não parei. Na sequência veio a exposição no hotel Corinthia. Foram muitas peças juntas e eu sempre quis que o fio fosse protagonista. Então o ponto de partida era: o que eu posso fazer com o fio? E agora, para essa exposição, são 15 peças inéditas aonde o protagonista é o fio e aonde eu quis aproximar o público do meu mundo. Que habitem a minha obra.

E a moda? É um plano para o futuro fazer com que as pessoas também vistam a sua arte?
Com certeza é um plano B a médio prazo. Quero muito que as pessoas vistam a minha arte, assim como eu quero que as pessoas entrem dentro dela e se conectem um pouquinho com esse mundo que tá aqui. É um projeto para o futuro, que já tem alguns rabiscos, inclusive.