
A frase
Agora quero ver manifestações da esquerda, bando de idiotas, a favor do ditador sanguinário e traficante internacional Nicolás Maduro.
— Utilizador do Facebook, 09 de janeiro de 2026
Circulam nas redes sociais várias publicações que asseguram que a Venezuela libertou mais de 800 presos políticos de uma só vez, alegadamente para cumprir uma exigência do presidente norte-americano Donald Trump. Os posts são sempre acompanhados pelo mesmo vídeo, que mostra várias pessoas emocionadas a abraçarem os seus familiares, sugerindo tratar-se do momento da libertação dos presos e do reencontro com as famílias.

Para contexto, na madrugada do dia 3 de janeiro deste ano, os EUA bombardearam múltiplos pontos estratégicos de Caracas por volta das 2h00 (hora local) e derrubaram Nicolás Maduro, o líder da Venezuela. Maduro e a sua mulher, Cilia Flores, foram detidos pelas tropas de elite norte-americanas e levados para o Centro de Detenção Metropolitano de Brooklyn, no estado norte-americano de Nova Iorque.
Nos dias que se seguiram à queda de Maduro, o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, anunciou que o governo venezuelano iria libertar, de forma unilateral, um “número significativo de prisioneiros e estrangeiros”, num contexto de pressão exercida pelos Estados Unidos. Foi na sequência deste comunicado que começaram a surgir as primeiras publicações com o vídeo em análise.
No entanto, os números confirmados não se aproximam dos 800 referidos nas publicações que circulam nas redes sociais. Segundo a oposição venezuelana e várias organizações não-governamentais, foram libertados pouco mais de uma centena de presos políticos, longe do valor mencionado nos posts.
Quanto ao vídeo, as imagens partilhadas são reais e não geradas por inteligência artificial, contudo, não correspondem aos acontecimentos descritos na publicação. Estas imagens remontam ao verão de 2024 e ao momento da libertação de protestantes detidos na sequência das manifestações contra a vitória de Nicolás Maduro nas eleições que foram amplamente contestadas pela comunidade internacional. De acordo com um relatório de observadores das Nações Unidas, cerca de 2.400 pessoas foram detidas e 25 morreram durante as manifestações. A análise de um frame do vídeo através da ferramenta de pesquisa Google Lens apresenta-nos como resultado a libertação de presos políticos em 2024 e não em 2026.
Assim, o vídeo que agora está a ser amplamente partilhado diz respeito a eventos que ocorreram há mais de um ano e meio, não estando, de todo, relacionados com a libertação de presos políticos depois da queda do regime de Maduro.
Mais ainda: uma rápida pesquisa nos meios de comunicação social mostra que não existem quaisquer registos em vídeo de uma recente libertação de presos políticos em larga escala, algo que, a acontecer, teria tido uma ampla cobertura mediática.
Conclusão
As imagens são reais, mas estão fora de contexto: o vídeo foi, na verdade, gravado em 2024 e mostra a libertação de presos políticos na sequência de protestos contra a eleição de Nicolás Maduro e não mostra a libertação de 800 presos em 2026 para cumprir uma ordem de Donald Trump.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ENGANADOR
No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:
PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.