Uma mancha, uma pinta, um imprevisto no guião de fabrico que à primeira vista atrapalha mas à segunda é uma autêntica bênção. “Na fábrica ficaram malucos connosco. Mas tu queres os defeitos? Eu quero os defeitos, isso é bonito. Mas não vamos fazer desconto? Está tudo bem. É isso que torna a peça especial.”, admira David Catalán, enquanto aponta para o sombreado na pele.
Com o país agasalhado contra a tempestade Ingrid, o sol de inverno aquece Paris no fim de semana. Em pleno Marais, passeios transbordam de transeuntes numa capital que vê a sua população flutuante escalar em peso durante o mês da moda. O balanço local revela que a capital francesa chega a receber mais meio milhão de pessoas, entre público de desfiles, apresentações, showrooms e eventos paralelos, um impacto significativo.
No número 43 da Rue des Tournelles, um pequeno contingente representa a criação nacional. No showroom do Portugal Fashion, acontece mais um ensaio fora de portas desta plataforma. O investimento para o roteiro desta temporada é de cerca de 475 mil euros em quatro mercados: a Paris (com uma marca no calendário de homem e este coletivo de 8 marcas) juntou-se já Milão (com duas marcas na semana de moda de homem, e duas marcas em mulher); Londres (uma marca no calendário feminino), e ainda um evento coletivo esta sexta-feira em em Copenhaga, com curadoria de Marques’Almeida.
Por aqui, estreiam-se ligações com a indústria e o mercado, a partir da cidade para onde todos confluem por estes dias. Uma semana para dar a conhecer as criações dos designers a stylists, buyers e outros protagonistas do setor. Nos charriots alinham-se peças que antecipam o inverno 26/27, e que ficarão à venda a partir de setembro. “Tem sido um dia cheio, com muitos clientes, a maioria asiáticos. Já lá estivemos no mercado asiático pré-pandemia em pequenas boutiques que fecharam. Tínhamos um grande acordo para fechar que ficou pelo caminho e agora queremos retomar o que deixámos parado. Muitas das peças já foram experimentadas por clientes.”, sinaliza Catalán, enquanto nos apresenta as mais recentes novidades, que cruzam sustentabilidade e preocupação comercial.
Uma manta de retalhos da sogra deu o pontapé de partida para a coleção, já mostrada em Milão, onde abundam casacos feitos a partir do desperdício de couro, camisas a partir de sobras, calças e muito denim a partir de dead stock reutilizado. “Gostamos muito de trabalhar com detalhes do couro, para mim estas manchas são o que realmente caracteriza a peça. Também temos texturas, tecidos que fazem lembrar o borboto das mantas antigas, um coating que parece que a peça é de couro, mas é algodão.”. Regressa o designer a essa vencedora ideia que nasce do aparente erro, afinal tão essencial no processo criativo. O denim, um dos imprescindíveis da marca, ganha um aspeto vintage, com acabamento novo, e é aplicado a peças de alfaiataria. Os blusões ganham aplicações de couro e molas laterais para poder ajustar a gosto. Para elevar a fasquia, casacos de caxemira, com silhueta mais clássica e alfinete a rematar, e ainda tricotados feitos em alpaca.

Nome habitual no calendário do Portugal Fashion, David admite que mostrar o trabalho em destinos como Paris ou Milão é determinante para a projeção das marcas. Por este espaço entram e saem nomes que veem, perguntam, experimentam e, na melhor das hipóteses, decidem comprar e levar para as respetivas lojas mundo fora. Aceites as encomendas, a agenda que se segue implica começar a produzir por volta de março e ter tudo pronto até meados do verão – a tempo de as coleções do próximo inverno chegarem aos destinos esperados até setembro, quando se estreiam nas prateleiras.
É de muito novo que se começa a falhar, que é como quem diz a questionar e subverter as regras para vencer no final. “Meu professor queria que eu usasse do jeito certo e eu coloquei ao contrário e ficou tão legal”. As bandoletes metálicas foram a cereja em cima da vitória de Enzo Peres Perederko no último concurso Bloom, e viajaram para França com o jovem de 21 anos natural do Brasil e estabelecido no Porto. Revelaram-se aposta correta mas mesmo que não o fossem, estava tudo certo. “Gosto de errar. Quando a gente acerta muito o resultado não é tão bom. A gente só entende o processo quando a gente erra. Procuramos acertar mas no meio erramos muito e algo pode virar um pilar do nosso trabalho, de forma espontânea.”
No seu canto do showroom não falta o cuidadoso álbum que fixa essa coleção e reflete o gosto pelo material visual. Nos cabides, um conjunto de peças que tem chamado a atenção. Em breve, ver-se-á o resultado concreto destas investidas. “Tenho recebido vários feedbacks. Há pressuposto de algumas encomendas, eles visitam o showroom, depois enviamos as fichas técnicas com os preços, aí sim, vamos ver.”

Camisas e tops revelam desconstruções baseadas em métodos antigos de fazer roupa, como uma peça inspirada numa túnica grega que era um quadrado com cordas na ponta que Enzo traduziu para as opções contemporâneas. Como a sua marca, a E.P. Atel’ye, a irreverência, garante, é uma prioridade, porque afinal acima do conceito encontra-se a atitude. “Imaginar que uma camisa tem várias mangas, colarinhos, é partir do absurdo. Para mim é pensar como uma criança e executar como um profissional.”, confessa, num rasgo de maturidade que tem vindo a crescer depois do triunfo no Bloom. “Moda para mim agora é outra coisa. Desfile é muito bonito mas a gente tem que fazer o produto no fim, é preciso rentabilizar. O meu prazer maior é ver as pessoas a usarem a minha roupa.”
Perederko admite que não relaxa desde esse momento de maior visibilidade mas já está a empenhado na criação da próxima fornada que irá mostrar no Porto. Enquanto conversa connosco, a camisa brilhante que tem vestida evidencia-se sob o blusão de cabedal e dá pistas sobre o que aí vem – para já, fica a garantia de que o cor de rosa, que já pontua a sua fornada de estreia, irá multiplicar-se. Sobre o que procuram as novas gerações, confia num recentrar. “A tendência por tendência tem morrido muito. A busca por identidade é uma tendência por si só, sem ter que forçar, sem ter que ser performático, sem cair em estereótipos. Acredito que o meu público não tem 21 anos, é mais velho, com uma expressão mais madura. Toda a gente quer algo que seja um reflexo de si, trazer uma estética com que as pessoas se identifiquem. Faço roupa a pensar numa persona que criei, mais uma vez atitude. Não gosto de pensar no que vou vestir e para mim a moda é isso, é algo natural que colocamos em cima.”, resume.
Quando se encaixa o erro no processo criativo acaba por se descobrir uma nova forma de trabalhar. Susana Bettencourt já leva mais anos disto e não duvida da virtude. “Cada vez mais as marcas portuguesas trabalham a experimentação, que é tentativa e erro, e no meio do engano vamos descobrir algo que queremos repetir. Isto passa ser o meu default. Estou muito neste questionamento.”, descreve-nos junto às peças que trouxe até Paris. Conhecida pelas malhas coloridas, tem a coleção Erro pronta a entregar se os buyers estiverem interessados, e ainda outros avanços já a pensar em 26/27. Sempre na certeza de que o conjunto de jacquards, crochets e riscas em degradé exigem um aturado esquema de tempo, uma linguagem que, mais do que nunca, é essencial traduzir para o grande público.

“Ando a tentar que se perceba que o processo é a peça, tentar pôr cá para fora o que é o nosso processo, até nas redes tento mostrar cada vez o que e como fazemos, as horas todas de atelier que temos.”. Não por acaso, no chão dispersam-se folhas de papel com o descritivo e contabilidade desse trabalho exaustivo, para que quem chega perceba quando tempo demora a conceber cada peça. Fora de plano está mudar de rumo, mesmo que os tempos e as modas sejam desafiantes o suficiente para questionar o percurso. “Escolhi não ceder à pressão. Não responder aos básicos e às cores seguras que o mercado procura, porque em tempos de guerra e crise é o que as pessoas procuram. Mas é aí que tenho que remar contra o pressuposto. Mais do que nunca precisamos de cor, alegria. E procurarmos um caminho só nosso, com elementos de design que dão consistência.”
Bettencourt garante que quando conquista um cliente ele permanece consigo, e é graças a essa fidelidade que tem ultrapassado todas as crises. A altura pode ser custosa, admite, para considera-se uma afortunada. O ónus das taxas mudou a relação com os clientes norte-americanos mas do Canadá têm chegado boas reações. A ele, entre os principais clientes, junta-se ainda o mercado nórdico. “Já sabem que se procuram algo assim, é aqui que encontram.”, confia Susana, em jeito de remate desta presença no showroom, que tenta projetar a marca nacional como um todo mas também, já agora, apontar rumos para as diferentes identidades. “Ainda somos conhecidos pelo made in Portugal e não tanto pelo design. Estes eventos acabam por ser importantes para as pessoas colarem uma cara ao processo e que pessoas de outras cultura se cruzem com a nossa marca.

Por vezes nem é o designer que sai do lugar, mas os seus desenhos, vestidos por embaixadoras que falam por mil passagens por showrooms. “A Carminho tem uma visibilidade internacional maravilhosa. Há pessoas que entram em contacto comigo porque a viram no Brasil ou nos EUA e perguntam se tenho loja. É um orgulho gigante estar associada a uma pessoa que representa Portugal como representa e que se sente confortável com as minhas roupas.”. Falamos com Maria Carlos Baptista, outrora bailarina, agora dedicada à criação de moda, que tem na fadista uma representação ideal da sua cliente tipo, uma “mulher mais madura, ligada às artes, com uma sensibilidade diferente, aquilo envolve-a.” E que fique claro que a voz portuguesa vestiu recentemente Dior de forma pontual, porque a relação com Maria Carlos é para manter, inspirada por duetos artísticos como o que uniu Yohji Yamamoto e a dançarina Pina Bausch, mas sem se pôr em bicos de pés. O tempo é de reflexão, de reencontrar o caminho dos staples, de tentar perceber quais são as bases mais sólidas que definem a sua marca, que consciente ou inconscientemente vai repetindo. “Chamei à coleção Repertório, como na dança, pensando no que poderão ser eventualmente um dia os clássicos da minha marca, criando uma amálgama do que já criei até hoje.”

Contra a novidade permanente, a aposta é no conforto com ar elevado, o mesmo que permite funcionar como armadura e que oferece um maior reconhecimento visual da marca por não estar sempre em mudanças. Durante estes seis anos de atividade, confessa, se não fosse já claro, que nunca sentiu que fizesse sentido correr atrás de tendências, preferindo apostar em peças melhores, com materiais mais duráveis, boa aparência.
“Ter um blazer grande e ter uma proteção mais masculina até me faz sentir mais feminina, porque me faz sentir mais segura”, reforça sobre a estética e o fator conforto. Quanto aos materiais, até nas lãs e fazendas há um esforço por produzir sempre em Portugal, aproveitando o melhor da Covilhã. O resultado está à vista. “Aqui aparece gente muito diversa, mais os encontros com buyers, acabei de falar com uma pessoa de LA que me esteve a dar os parabéns. Estar nestas semanas em capitais da Moda é fundamental para chegar a mais gente.”
A nível nacional, a próxima edição do Portugal Fashion já está agendada para os primeiros dias de julho. Quanto ao orçamento, adianta-nos a gestão do projeto, tem a sua dimensão dependente das oportunidades de financiamento que a ANJE conseguir angariar, pelo que não existe ainda um número em concreto. Entre o talento emergente a marcar presença em Paris, conseguimos espreitar em primeira mão algumas das peças que se irão mostrar a norte daqui a seis meses.

“A coleção que apresentámos no showroom será também a que levaremos ao desfile na próxima edição do Portugal Fashion. Esta estratégia permite-nos comunicar “Buy Now” e reforça a importância de uma presença internacional, algo que apenas desfiles nacionais não conseguem alcançar. Para nós, a criatividade só ganha vida se houver venda; sem ela, não há continuidade, não há evolução, não há marca. E é este equilíbrio entre sonho e realidade que define a nossa luta diária , entre projetar e concretizar.”, partilham José Vieira (pela Arieiv) e João Pereira (da Lo Siento), que aqui mostram a sua parceria. “Para nós, enquanto dupla criativa, esta viagem foi mais do que apresentar peças: foi um exercício de aprendizagem, de olhar para dentro do nosso processo e perceber onde podemos evoluir. Cada visita, cada comentário, cada olhar dos buyers é uma oportunidade de crescimento, e saímos de Paris com novas ideias e energia para transformar a próxima coleção.”, acrescentam, já a pensar nos próximos passos criativos.
Mais veteranos ou estreantes absolutos neste circuito, no fervilhante Marais o talento que costuma apresentar a norte do país cruzou-se com parte do elenco powered by Semana da Moda de Lisboa, como Joana Duarte, ou BÉHEN, DuarteHajime e ainda as malhas de João Viana, aka Veehana.


Umas ruas mais adiante, é já em pista própria que correm os Ernest W. Baker. Na Beranger, um dia depois do desfile na margem do Sena, a dupla Inês Amorim e Reid Baker guiam-nos pelo seu showroom e confirmam que o formato ajuda a alimentar o buzz – para já, conquistaram mais uma loja em Itália, para juntar ao portfólio de mais de 20 presenças em lojas internacionais – já agora, vale a pena estarem atentos a badalados conteúdos pop das plataformas de streaming e não só (é possível que descubram peças EwB mas deixemos essas boas novas para outras núpcias).
Exposto neste primeiro andar está o essencial do guarda-roupa masculino que vimos desfilar um dia antes em pleno Sena, resultado da uma longa maratona de quilómetros a correr fábricas de norte a sul. Por aqui revela-se o tecido xadrez da quase centenária Albano Morgado, as luvas da Feralex, e ainda confeção que chega de Gaia, Santo Tirso, Gondomar e São João da Madeira, entre joalharia e calçado. Ah, e ainda dois exemplares das malhas tricotadas por uma veterana de 87 anos.

Pé ante pé, ainda na Semana de Moda Masculina de Paris, Willy Chavarria pediu uma “muito chique, mas também muito comercial” e Luís Onofre fez a vontade ao designer norte-americano, estreando-se com o seu calçado feminino no calendário do evento. A coleção que caminhou na Paris Judo Arena, onde estiveram nomes como Julia Fox, Romeo Beckham, Paloma Elsesser e Alek Wek, foi desenhada pela equipa criativa de Chavarria e produzida em Portugal em parceria com a APICCAPS, com Onofre a assumir um papel preponderante no desenvolvimento dos modelos, incluindo o Fúria. A presença portuguesa no desfile estendeu-se ainda à Mariano Shoes, que regressou ao certame com modelos masculinos desenvolvidos propositadamente para a apresentação. Segundo a APPICAPS, a indústria portuguesa do calçado exporta mais de 90% da sua produção e colabora regularmente com designers e marcas líderes em todo o mundo.
Projeto da ANJE – Associação Nacional de Jovens Empresários, o Portugal Fashion conta com o apoio dos seus parceiros estratégicos e é cofinanciado pelo SIAC – Apoio a Ações Coletivas Internacionalização do Portugal 2030, no âmbito do Compete 2030 – Programa Inovação e Transição Digital, com fundos provenientes da União Europeia, através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional.
O Observador viajou a convite do Portugal Fashion