(c) 2023 am|dev

(A) :: Tanta terra abandonada

Tanta terra abandonada

A ideia de que a agricultura é atrasada está completamente ultrapassada. O que ela não tem é uma estratégia nacional coerente que ligue ciência, produção, transformação e mercado.

João Miguel Miranda
text

Portugal habituou-se a olhar para a agricultura como um setor do passado. Algo respeitável, quase folclórico, mas pouco relevante para o futuro económico do país. Enquanto isso, apostámos tudo no turismo, nos serviços e na ideia confortável de que “lá fora” é que se produz a sério. Temos território fértil, produtores resilientes, ciência a crescer e acesso privilegiado ao mercado europeu e, mesmo assim, uma agricultura que continua, muitas vezes, a funcionar a custo próprio. Não por falta de talento, mas por falta de visão.

Hoje, a agricultura representa cerca de 2% do PIB nacional. Para alguns, este número prova que o setor já não é central. Para mim, mostra o desperdício de potencial. Num país com clima diverso, solos produtivos, tradição agrícola e capacidade exportadora, a agricultura devia ser um pilar estratégico. Em vez disso, é tratada como um setor que se vai “gerindo”, com programas avulsos, medidas reativas e discursos repetidos. Grande parte dos avanços recentes não veio do Estado. Veio de produtores que arriscaram, de cooperativas que se reinventaram, de empresários que apostaram na certificação, na qualidade e nos mercados externos. Fizeram-no apesar do Estado, não por causa dele.

A maioria das explorações agrícolas portuguesas é pequena. Muitas têm menos de cinco hectares. Isto não é, por si só, um problema. O problema é tentar competir num mercado global altamente concentrado, com pouca escala, pouco capital e fraca capacidade de negociação. Enquanto noutros países a cooperação, a logística partilhada e a integração em cadeias de valor são regra, em Portugal ainda funciona, demasiadas vezes, o “cada um por si”.

A isto soma-se um problema estrutural ainda mais grave, que é o envelhecimento do setor. Menos de 7% dos agricultores portugueses têm menos de 40 anos. Algo que devia ser encarado como um sinal de alarme nacional. Sem renovação geracional, não há novos modelos de negócio. E a culpa deste problema não passa pelo afastamento dos mais jovens à agricultura, mas pelo facto de a entrada na agricultura continuar a ser caro, burocrático, inseguro e mal acompanhado. Quem quer começar enfrenta dificuldades no acesso à terra, ao crédito, à formação e ao apoio técnico. Perante este cenário, muitos optam por outras áreas ou pela emigração.

Nas últimas décadas, Portugal fez do turismo o seu grande motor económico. E fê-lo bem. Mas transformou-o numa muleta. Quando tudo corre bem, funciona. Quando surgem crises, pandemias ou instabilidade internacional, percebemos a fragilidade do modelo. A agricultura, pelo contrário, é um setor de longo prazo. Produz alimento, exporta, fixa população, protege o território, contribui para a soberania alimentar e cria valor sustentável. Ignorá-la como eixo estratégico é um erro económico e político.

A ideia de que a agricultura é atrasada está completamente ultrapassada. Hoje, o setor mais competitivo usa sensores, dados, inteligência artificial, drones, rega de precisão, biotecnologia e plataformas digitais. Produz com menos água, menos químicos e mais eficiência. Portugal tem bons exemplos nesta área. Tem agricultura biológica forte, centros de investigação competentes, empresas tecnológicas emergentes e produtores altamente qualificados. O que não tem é uma estratégia nacional coerente que ligue ciência, produção, transformação e mercado. Em vez disso, tem políticas fragmentadas, tutelas antiquadas, processos lentos e falta de continuidade.

O futuro da agricultura portuguesa não está em vender toneladas baratas. Está em vender qualidade, identidade, sustentabilidade e confiança. Está em transformar produtos em marcas, territórios em reputação e explorações em empresas modernas. Vinho, azeite, frutas, produtos transformados, denominações de origem, produção biológica, cadeias curtas e exportação qualificada.

A agricultura portuguesa precisa de ambição. Precisa de deixar de ser vista como herança do passado e passar a ser tratada como investimento no futuro. Enquanto continuarmos a geri-la em modo defensivo, continuará a sobreviver, mas nunca a liderar. E isso, num país com tantos recursos por aproveitar, é talvez o nosso maior desperdício.