O livro A Ciência Descobre, a Engenharia Cria (Gradiva, 2026) define a engenharia como uma instituição humana, em alternativa à visão tradicional enraizada no cálculo, na técnica ou na arte de criar coisas.
A engenharia é descrita como uma instituição humana porque, em primeiro lugar, no núcleo da engenharia estão pessoas que partilham, através de redes de colaboração, um corpo de conhecimento técnico-científico intergeracional assente em especialidades, normas, práticas e ética.
Em segundo lugar, este conhecimento é regulado por ordens profissionais e estruturado tanto por formulações empíricas quanto por sistemas educativos formais, como as universidades, com o objetivo de responder a necessidades humanas, como a habitação, a mobilidade, a comunicação, a energia e a segurança.
Em terceiro lugar, a engenharia funciona com base numa crença coletiva de que o conhecimento técnico-científico é aplicado de forma racional. Esta relação de confiança pública transmite uma sensação de segurança, mesmo quando as pessoas não compreendem os detalhes técnicos das soluções práticas, seja no atravessamento de pontes, na utilização dos edifícios ou na interação com tecnologias digitais. A engenharia define padrões mínimos de segurança e estabelece critérios de responsabilidade a quem pode projetar, construir e inspecionar. Sem reconhecimento coletivo, a engenharia não teria autoridade e perderia eficácia na criação de soluções. Não obstante, é conduzida por seres humanos, pelo que é suscetível ao erro.
Por fim, a engenharia evolui com a sociedade e as suas soluções práticas evoluem com a Natureza. Com o desafio de ajudar a encontrar o ponto certo entre a estagnação económica e o excesso na utilização de recursos, a engenharia adapta-se a novos valores sociais e padrões éticos (segurança, sustentabilidade, igualdade e inclusão), a novos desafios técnicos (alterações climáticas, envelhecimento das infraestruturas e inteligência artificial) e a novos enquadramentos políticos e de decisão (gestão de orçamentos, incerteza e risco).
Com a esperança de que a engenharia é eterna, tal como o ser humano, mas que as soluções de engenharia são finitas, tal como cada um de nós, podemos dizer que as soluções evoluem (numa perspetiva simplista) de acordo com o princípio da seleção natural de Darwin. Enquanto “seres vivos” com capacidade de integração, regeneração e transformação, ao longo do tempo, as soluções práticas obsoletas são atualizadas ou substituídas por outras, estética e tecnologicamente mais avançadas, mais funcionais, mais seguras, tendo sempre presente o compromisso com as pessoas e com a Natureza.
Em suma, a engenharia tem uma ação sobre a Natureza, legitimada pelas pessoas, na aplicação do melhor conhecimento técnico-científico disponível, para converter ideias em soluções práticas, de forma criativa e com bom senso para responder às necessidades da sociedade.
Se aceitarmos que a engenharia é uma instituição humana, esta poderá não estar sozinha neste mundo. E quais são essas outras instituições?
Antes de responder a esta questão, é conveniente relembrar a definição de “instituição humana”. Alguns pensadores, como Yuval Noah Harari, definem uma instituição humana como um sistema organizado de regras e práticas partilhadas que guiam o comportamento das pessoas e estruturam a sociedade. Neste alinhamento, embora respondam a dimensões distintas de experiência coletiva, a ciência e a religião também podem ser entendidas como instituições humanas.
Desde o Renascimento, a ciência gera conhecimento sobre o mundo por meio do método científico, procura estabelecer relações funcionais no universo e apoia o progresso tecnológico (especialmente com a Revolução Industrial). A ciência é uma instituição humana porque resulta de práticas coletivas organizadas e assentes em métodos partilhados, regras de validação e confiança intergeracional. Esta forma de atuar tem permitido produzir conhecimento sobre o mundo para além da experiência individual.
A religião, desde há milhares de anos, procura dar sentido à existência humana e molda comportamentos individuais e coletivos por meio da doutrina e de textos sagrados fundamentados em valores morais e éticos. Aliás, pela força organizadora das suas práticas, a religião merece ser reconhecida como uma das instituições humanas mais antigas presentes no quotidiano das sociedades.
A ciência, a religião e a engenharia são, em boa verdade, diferentes formas de as pessoas compreenderem o mundo e de orientarem as sociedades, por um lado. Mas por outro lado, estas três instituições humanas devem ser entendidas como instituições vivas, construídas por e para pessoas, que se moldam pelas escolhas das comunidades que as praticam. Funcionam independentemente do sistema político e do nível de desenvolvimento económico dos países, embora possam ser influenciadas pela cultura e pela subjetividade humana.
Embora assumam domínios de atuação distintos, como instituições socialmente construídas, baseiam-se numa confiança coletiva na sua legitimidade e utilidade, pelo que só existem enquanto forem reconhecidas, praticadas e transmitidas pelas pessoas que as sustentam. Sem confiança pública, não há ciência que explique, religião que oriente ou engenharia que crie. Se um dia o ser humano deixar de acreditar em cientistas, padres e engenheiros, a ciência, a religião e a engenharia deixarão de existir.