Eram exatamente 20:55 quando me sentei no comboio a caminho de casa depois das aulas, naquele horário em que Lisboa parece suspensa entre o cansaço e a rotina. A carruagem estava cheia, iluminada por uma luz branca que denunciava o fim do dia. Sentei-me no primeiro lugar vago que encontrei, tirei os fones para descansar os ouvidos e, assim que o fiz, bati com o cotovelo em alguém. Pedi desculpa rapidamente, numa voz quase sussurrada, como quem tenta respeitar a bolha silenciosa à minha volta. Foi nesse momento tão banal que reparei nas pessoas que me rodeavam – como se, de repente, todas tivessem ficado nítidas.
À minha frente, um rapaz encostado à janela lia um livro com tal concentração que parecia estar a viajar para um lugar muito mais interessante do que aquele em que estávamos. A cada virar de página, ele franzia levemente a testa. Tinha aquela expressão de quem está fora dali, mas ainda assim preso pelo barulho das carruagens, como se dividisse a atenção entre dois mundos.
À minha esquerda, uma senhora mais velha dormia com a cabeça inclinada para o lado, o casaco enrolado nos braços e uma respiração pesada. Dormia com aquele tipo de sono que só aparece quando se tem um dia demasiado longo, como se ali, naquele banco desconfortável, alguém finalmente lhe concedesse uns minutos de descanso sem pedir nada em troca.
Mais à frente, duas amigas conversavam baixinho, sem grande filtro, como se estivessem a viver dentro de uma bolha só delas. Riam-se de qualquer coisa que me escapou, mas fazia todo o sentido para elas. Era uma daquelas risadas cúmplices, discretas, que acontecem quando duas pessoas partilham histórias que os outros nunca vão conhecer.
E eu, ali no meu canto, tinha acabado de me aperceber de algo tão óbvio que até parece mentira: nenhum daqueles desconhecidos era apenas um figurante no meu dia. Eram protagonistas nas suas próprias vidas. Senti-me, por um instante, arrancada da minha própria bolha. Foi como se, de repente, conseguisse respirar melhor.
É exatamente aqui que entra o conceito de sonder – essa palavra bonita que descreve um pensamento que nos apanha desprevenidos. Sonder é perceber, de forma tão simples como profunda, que todas as pessoas à nossa volta têm vidas tão complexas quanto a nossa. É apenas isto: a consciência de que cada pessoa é um universo inteiro que nós nunca vamos conhecer.
Quando pensamos nisso, tudo ganha outra dimensão. O rapaz com o livro deixou de ser apenas um passageiro distraído, a senhora a dormir era mais do que cansaço visível e as risadas das duas amigas carregavam algo que ia além daquele momento. Cada um trazia consigo histórias, memórias, preocupações e sonhos que nunca chegarei a conhecer.
É aqui que o sonder se torna tão poderoso: lembra-nos que ninguém é simples, ninguém é previsível, ninguém é um figurante no filme da nossa vida. Cada desconhecido carrega dentro de si um mundo inteiro que não vemos. E nós, que tantas vezes nos achamos o centro da narrativa, somos apenas passageiros que passam rapidamente pela história dos outros. Isto acaba por ser uma sensação agridoce: por um lado, é humilhante perceber que somos apenas o centro da nossa própria existência. Por outro, é libertador saber que isso basta.
“Próxima paragem: Coina”, anunciou a voz metálica da carruagem, quase rompendo o fio dos meus pensamentos. Levantei-me devagar, agarrei na minha mala e preparei-me para sair. Antes de pôr o pé fora do comboio, olhei para trás uma última vez. Tudo continuava igual e eu ia desaparecer daquele cenário sem deixar rasto. Ninguém se apercebeu de que eu estive ali, e isso não me deixou triste. Pelo contrário: deixou-me estranhamente leve. Percebi que fazemos isto todos os dias – cruzamo-nos com inúmeras vidas complexas e seguimos caminho sem nunca conhecer os detalhes. E está tudo bem assim.