“Que alegria me ia dar. A maior do mundo. Não quero saber se me vão prender. Alegrar-me-ia e também se levassem Marrero [primeiro-ministro de Cuba] ficava feliz. O povo está a morrer de fome.” Estas declarações foram recolhidas em Havana pelo jornal Cubanet (da oposição e não controlado pelo regime) uma semana depois de o Presidente venezuelano ter sido detido. A questão era simples: como reagiria se o líder do regime cubano, Miguel Díaz-Canel, fosse detido nas mesmas circunstâncias do que Nicolás Maduro? A maioria dos intervenientes entrevistados deram respostas evasivas — “não sei” foi a mais ouvida. Mas houve quem quebrasse essa neutralidade, não temesse as consequências e dissesse o que realmente pensava.
Depois da operação militar na Venezuela, muitas das atenções nas Caraíbas viraram-se agora para Cuba. A ilha a apenas 140 quilómetros dos Estados Unidos da América (EUA) foi durante décadas uma pedra no sapato para os líderes norte-americanos. Contudo, o regime comunista cubano resistiu a várias tentativas de ser derrubado e manteve praticamente a mesma estrutura desde os tempos da Guerra Fria, mesmo tendo perdido vários aliados após a queda do Muro de Berlim.
https://www.youtube.com/watch?v=F8FZfGjtXqU&t=24s
Na Casa Branca, ainda assim, o inquilino em 2026 é um líder imprevisível e que não receia usar a força militar para atingir os objetivos geopolíticos a que se propõe. O Presidente norte-americano, Donald Trump, já assumiu que Cuba o incomoda e já enviou vários avisos aos líderes do Partido Comunista, após o que aconteceu na Venezuela. Mas, na sua administração, há alguém que abomina ainda mais o regime cubano: o secretário de Estado e Conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, o filho de pais cubanos de Miami que singrou na vida sem nunca esquecer as origens.
“É bem notório que Marco Rubio quer ser o libertador de Cuba”, confirma, em declarações ao Observador, James E. Mahon Jr., professor de Ciência Política na Williams College. Não é de estranhar que, na Casa Branca, o secretário de Estado tenha influenciado Donald Trump a adotar uma postura mais dura contra o regime cubano.
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Mais recentemente, avançou o jornal Politico, o também Conselheiro de Segurança Nacional fez pressão para o Presidente norte-americano dar luz verde a um bloqueio total às importações de petróleo para a ilha das Caraíbas. Esta quinta-feira, através de uma ordem executiva, confirmou-se: Cuba poderá entrar em colapso energético nas próximas semanas. A medida está prestes a ser aplicada, mas ainda não é bem claro a quem se destina — a ordem executiva apenas estipula que é dirigida a países que “vendam indiretamente ou providenciem qualquer petróleo a Cuba”. E terá um forte impacto.
Quando Nicolás Maduro foi capturado e os Estados Unidos se apoderaram do futuro do setor petrolífero venezuelano, o regime cubano perdeu um aliado fundamental. E não apenas no plano geopolítico, mas também no plano económico. Durante anos, a Venezuela foi o principal fornecedor de petróleo de Cuba. Desde 3 de janeiro, isso mudou significativamente. E, se agora deixar de receber petróleo de qualquer país — por força desse eventual bloqueio norte‑americano — a população da ilha, a viver já numa profunda crise económica desde os tempos da pandemia de Covid-19, enfrentaria ainda mais dificuldades.

Para tentar mudar o Governo por dentro, os Estados Unidos apostaram na estratégia de asfixiar totalmente a economia cubana, que, aliás, já é alvo de um embargo pelos Estados Unidos desde os anos 60. Segundo o Wall Street Journal, esta estratégia da presidência Trump visa concretizar um objetivo: derrubar o regime de Cuba liderado por Miguel Díaz-Canel. E existe até um calendário: os EUA desejam ver o fim do comunismo em Havana até ao final de 2026.
A mudança de regime que Trump talvez queira e que Rubio quer mesmo
“Soa-me bem.” Nas redes sociais, Donald Trump reagia a um tweet que falava sobre a possibilidade de o secretário de Estado ser o próximo Presidente de Cuba. Seria, no fundo, um concretizar de um sonho de criança de Marco Rubio, já norte-americano, mas criado em Miami, num ambiente profundamente antirrevolucionário e com um avô que fugiu da revolução. Na sua biografia, lembrou que dizia aos pais que gostava de derrubar o regime de Fidel Castro e tornar-se o primeiro Presidente de uma “Cuba livre” do comunismo.
Ao Observador, Philip Brenner, professor emérito na School of International Service na American University, faz precisamente uma distinção fundamental para descortinar a política externa norte-americana no que toca a Cuba: “Não há qualquer dúvida de que o secretário de Estado Marco Rubio quer uma mudança de regime em Cuba o mais cedo possível. É menos claro o que o Presidente Trump quer“, afirma o especialista. É certo que o chefe de Estado norte-americano já fez vários avisos ao Governo em Havana, mas não é bem claro quais são os seus objetivos.
https://twitter.com/EricLDaugh/status/2010327406826115371
A retórica de Marco Rubio é também ameaçadora. Numa entrevista um dia depois de Nicolás Maduro ter sido capturado, o secretário de Estado deixou uma ameaça no ar: “Se eu vivesse em Havana e estivesse no Governo, estaria preocupado”. À NBC News, não especificou os próximos passos, mas deixou bem claro que os atuais dirigentes norte-americanos “não são grandes fãs do regime cubano”. Ainda menos fãs ficaram ao terem conhecimento que havia guardas cubanos a “proteger Maduro”.
Caso a mudança de regime em Havana vá para a frente, terá muito provavelmente um forte cunho de Marco Rubio. Ao comentar a notícia do Wall Street Journal sobre os planos da administração Trump para derrubar o Governo comunista cubano até ao final de 2026, o Departamento de Estado emitiu um comunicado a justificar que era do interesse da segurança nacional dos Estados Unidos que Cuba fosse “totalmente liderada por um governo democrático que se recusa a servir de base para os serviços militares e para conceder informações confidenciais aos nossos adversários”.
A Casa Branca parece estar alinhada com este objetivo. O documento que especifica a Estratégia de Segurança Nacional norte-americana refere que o hemisfério ocidental é a principal zona de influência dos Estados Unidos. É o regresso da Doutrina Monroe, adaptada em 2026 para Doutrina Donroe. Fonte da presidência contou ao Wall Street Journal que a perceção que reina na administração é que os governantes cubanos “são marxistas incompetentes que destruíram o país”: “Tiveram um revés significativo com o fim do regime de Maduro que estavam a sustentar”.
Se a animosidade de Marco Rubio em relação ao regime cubano parece ser uma questão pessoal com laivos geopolíticos, para o atual chefe de Estado também poderá ter a ver com o legado que deixa na presidência neste segundo mandato. De acordo com uma fonte ouvida pelo Wall Street Journal, caso o principal inimigo no ‘quintal norte-americano’ seja derrotado, esse feito será colocado nos livros de História — Donald Trump conseguirá fazer o que, por exemplo, John F. Kennedy nunca conseguiu, num ato que lhe concederia prestígio.
É “100%” possível derrubar o regime cubano em 2026, acredita Casa Branca. Energia é o “mata-leão”
Independentemente de qual é a motivação e se vão colocados em prática até ao final deste ano, vários planos estão a ser traçados pela Casa Branca para depor o regime em Havana. A Venezuela liderada agora pela chavista Delcy Rodríguez é visto como sucesso para a administração Trump: o regime foi derrubado, o país não entrou em convulsão, existe uma Presidente interina colaborante (apesar de se ter queixado este domingo que estava “farta” de receber ordens de Washington) e os Estados Unidos têm vários planos para explorar o petróleo venezuelano.
O fim da liderança de Nicolás Maduro provocou réplicas em Havana, principalmente devido à dependência face ao petróleo venezuelano. A Casa Branca está consciente disso — e pretende explorar essa vantagem tática para derrubar o regime cubano. Por isso, está vai levar avante um bloqueio total às importações de petróleo — uma situação que vai sufocar a população cubana. “A energia é o mata leão para matar o regime”, caracterizou ao Politico uma fonte conhecedora dos planos da Casa Branca; a mesma que garantiu que a queda do Governo em Havana era “100% um evento” que ia acontecer em 2026 aos olhos da administração norte-americana.
Esta terça-feira, o Presidente norte-americano também declarou que o regime cubano “está quase a cair”. “Cuba é uma nação que está muito perto do colapso”, afirmou Donald Trump, justificando que a captura de Nicolás Maduro e o fim de compra de petróleo venezuelano vão ter certamente um impacto. O governo de Miguel Díaz-Canel “obtinha o seu dinheiro da Venezuela, obtinha o petróleo da Venezuela, mas já não consegue ter isso”.

Em 2026, Cuba vive uma situação económica bastante precária, já que atravessa a pior crise em décadas. Até o regime o admite e reconhece que o panorama é bastante negativo. Há apagões, falta de comida nos supermercados e aumento de mendicidade. Um estudo do Observatório Cubano dos Direitos Humanos, publicado em 2024, mostra que 89% dos cubanos vivem em situação de pobreza extrema. Uma ministra acabou mesmo demitida por dizer que os sem-abrigo nas ruas cubanas eram “falsos”.
Neste contexto, um bloqueio às importações de petróleo terá efeitos catastróficos para a já débil economia da ilha das Caraíbas. Sem petróleo, Cuba ficaria com a economia totalmente paralisada, ao mesmo tempo que os aliados de Havana em Moscovo e Pequim desafiariam diretamente Washington. Na Casa Branca, de acordo com o Wall Street Journal, as estimativas são que o país poderia ficar sem petróleo dentro de poucas semanas.
Sem a Venezuela de Nicolás Maduro a auxiliar, os dirigentes cubanos optaram pelo petróleo do Governo mexicano, liderado pela progressista Claudia Sheinbaum. Os mexicanos têm vindo a vender petróleo a Cuba nas últimas semanas. Porém, temendo uma retaliação norte-americana que poderia pôr em causa futuras negociações para um acordo de comércio com Washington e as ameaças de uma ação militar contra os cartéis de droga, a imprensa mexicana relatava esta segunda-feira que o país já suspendeu as exportações de petróleo para Cuba.

Esta terça-feira, a Presidente do México confirmou efetivamente que o país deixou de vender petróleo a Cuba. A líder mexicana explicou que a empresa petrolífera estatal — a Pemex — “toma decisões no âmbito da relação contratual que mantém com Cuba”. “Suspender é uma decisão soberana e é tomada quando necessário”, frisou Claudia Sheinbaum.
Entre os aliados de Cuba, a Rússia também já expressou preocupação com o possível bloqueio norte-americano. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse, esta segunda-feira, que as informações eram “preocupantes”: “Sabemos que os nossos camaradas cubanos estão determinados a defender os seus interesses e a defender a sua independência”, destacou, assegurando que Moscovo “valoriza muito as relações bilaterais especiais” que mantém com o regime cubano.
Sem as importações do petróleo mexicano e definitivamente sem o petróleo venezuelano, Cuba encontra-se praticamente num colapso energético. A única solução parece ser recorrer a aliados como a Rússia ou o Irão, mas os dois países estão geograficamente muito longe e logisticamente não teriam capacidade para o fazer no curto prazo. Ao Observador, Philip Brenner explica a tática norte-americana: “A atual estratégia dos EUA parece ter como objetivo aumentar a miséria do povo cubano com a esperança que isso conduza a uma rutura na liderança do país”.
Num colapso energético em que nem as elites do Partido Comunista ou as Forças Armadas teriam acesso a petróleo, os Estados Unidos pretendem que sejam criadas todas as condições para causar uma revolta interna dentro do regime, segundo Philip Brenner. Os norte-americanos “desejam que isso leve alguns membros do Partido Comunista e generais a desafiar abertamente o regime e que todos os sigam”, expõe o docente universitário.
Além da energia, há mais duas frentes a serem estudadas pela Casa Branca para que o regime de Cuba colapse. Uma delas tem como alvo, de acordo com o Wall Street Journal, as missões médicas cubanas no estrangeiro, agindo mais concretamente em relação às remessas enviadas para território cubano, que estimulam a economia da ilha. Os Estados Unidos estão a estudar emitir proibições de vistos dirigidas às autoridades cubanas e estrangeiras acusadas de facilitar este tipo de programas.
A outra frente visa os aliados dos Estados Unidos, incluindo os europeus. Alguns Estados-membros da NATO como o Canadá e Espanha ainda mantêm laços comerciais robustos com Cuba. Neste sentido, a administração Trump pondera aplicar tarifas a países que continuem a fazer comércio com a ilha das Caraíbas. “Penso que temos de garantir que os nossos supostos amigos não continuam a apoiar o regime”, atirou, em declarações ao Politico, o congressista republicano Carlos Giménez (nascido em Havana).

Os planos desenhados pela Casa Branca estão em constante mutação. Mas a presidência norte-americana e vários membros do Partido Republicano com ligações a Cuba aparentam não ter quaisquer reservas em colocar Cuba numa situação de colapso energético. “Nenhum cêntimo, nem petróleo. Nada deve ir para Cuba”, declarou o senador republicano Rick Scott numa entrevista.
O medo da Casa Branca e o problema da estratégia do colapso económico
Nenhuma das estratégias é perfeita e há sempre riscos. Em particular, existe uma preocupação para a administração norte-americana se houver um colapso energético, constata Philip Brenner. “Alguns dos conselheiros de Trump, e talvez o próprio Trump, estão preocupados [com a possibilidade de que] Cuba se torne um Estado falhado e que se possa haver um fluxo massivo de imigrantes cubanos a tentar entrar nos Estados Unidos”, denuncia. Uma crise nas fronteiras seria altamente impopular para a base eleitoral do chefe de Estado e isso estará a ser levado em conta.
Em declarações ao jornal Miami Herald, John Kavulich, presidente do Conselho Económico Comercial entre Estados Unidos e Cuba, explica que se se “colocar demasiada pressão em Cuba e se apertar bem o cerco, cria-se um Haiti que fala espanhol“. Dito doutro modo, a ilha das Caraíbas corre o risco de se transformar no tal Estado falhado se as instituições não derem minimamente resposta aos problemas económicos da população.

Não é ainda claro como a Casa Branca vai agir em relação a Cuba. Tudo indica que vai seguir o caminho da pressão económica (aproveitando a conjuntura desfavorável), juntamente com uma retórica dura, para tentar que a linha dura do regime decida ceder e introduzir reformas que agradem a Washington.
Diretamente, uma intervenção militar ao estilo da Venezuela nunca foi admitida pela Casa Branca. É certo que Donald Trump já atirou, numa entrevista a um podcast, que “não há muito mais pressão” que os EUA possam “exercer para além de entrar lá e explodir com tudo”. Mas essa ameaça ficou-se por aí e nunca teve continuidade, ainda que os navios de guerra e os equipamentos bélicos mobilizados para o mar das Caraíbas por causa da Venezuela continuem a ser um forte aviso a Havana.
Ao Observador, Philip Brenner conjetura também que pode haver um meio termo. Perante a pressão económica, Cuba — como já fez no passado — pode começar a flexibilizar e aceitar algumas reformas. E Donald Trump poderá também recuar: “Por causa do Prémio Nobel da Paz, Trump poderá até estar disposto a negociar um acordo com Cuba, no qual os Estados Unidos terminariam com os seus esforços para promover uma mudança de regime, em troca do fim dos laços militares entre Cuba, a China e a Rússia“.

Seria uma solução negociada, mas o núcleo duro do regime cubano não estará disposto a aceitá-la. Miguel Díaz-Canel já assegurou que “não há possibilidade de rendição ou capitulação, nem qualquer tipo de entendimento baseado na coerção ou na intimidação”. O chefe de Estado cubano salientou que Havana estará “sempre disposta a dialogar e a melhorar as relações” com os Estados Unidos, mas apenas “em termos de igualdade e com base no respeito mútuo”. “Tem sido assim há mais de seis décadas e a história não será diferente agora“, declarou.
Perante a ameaça que paira sobre Cuba, Miguel Díaz-Canel tem avisado que o país está pronto para uma guerra contra os Estados Unidos. Ainda este sábado, enquanto comandante-chefe das Forças Armadas Revolucionárias, o Presidente cubano assistiu a um treino de militares. A ilha das Caraíbas estará mesmo a preparar-se para ativar um “estado de guerra” para combater “toda a ofensiva hegemónica que está a desenvolver o Governo dos Estados Unidos”.
Um regime que se mantém coeso e leal — e em que não parece haver uma Delcy Rodríguez
Na noite em que Nicolás Maduro foi capturado pelas tropas de elite norte-americanas Delta Force em Caracas, a segurança do Presidente venezuelano estava a cargo de vários militares cubanos. No rescaldo da operação militar norte-americana, 32 cubanos acabaram por morrer — e o regime de Havana considerou-os “mártires” e multiplicou-se em homenagens.

Esta é uma prova de que, apesar de ser um país pequeno com cerca de 11 milhões de habitantes, as Forças Armadas Revolucionárias estão habituadas a missões de risco. Juntamente com o Ministério do Interior, a poderosa instituição que controla as secretas, Cuba tem um poderio militar acima da média para o seu tamanho. Isso deveu-se em parte à forma como foi implementado o regime comunista: era uma exceção política na região, cercada de inimigos, que precisava constantemente de se defender.
O que sempre sustentou o regime foram as poderosas Forças Armadas Revolucionárias. O poder real emana dos militares para as restantes instituições: os generais são aqueles que verdadeiramente mandam no país. Por exemplo, o primeiro-ministro Manuel Marrero vem precisamente das Forças Armadas. As consequências dessa estrutura são um forte respeito pela hierarquia e uma excelente capacidade de organização, que permitem desmembrar qualquer tipo de oposição interna e externa. Como tinha dito ao Observador em julho de 2025 o analista político William LeoGrande, a “segurança estatal tem sido muito eficaz em silenciar os dissidentes e em instigar os ativistas da oposição a abandonar a ilha”.
A eficácia das Forças Armadas e das secretas tem sido fundamental para manter o regime cubano de pé, mesmo tendo perdido grande parte dos aliados com o fim da Guerra Fria. Derrubar esse sistema coeso, que já dura desde 1959, não será nada fácil para os Estados Unidos. Na Venezuela, os norte-americanos também não terminaram de vez com o regime chavista: preferiram uma situação intermédia em que colaboram com a Presidente interina.
https://observador.pt/especiais/mendigos-falsos-cuba-vive-a-pior-crise-economica-em-decadas/
O problema em Cuba é que a importância da ideologia instituída nas Forças Armadas cria pouco espaço para traidores ou informadores que se sujeitem a uma eventual submissão aos Estados Unidos, como faz Delcy Rodríguez na Venezuela. Alías, de acordo com o Guardian, a agora Presidente interina venezuelana garantiu a Washington que colaboraria se Nicolás Maduro fosse capturado antes da operação militar.
Se os Estados Unidos bombardearem Cuba, o regime não cai do dia para a noite. Mesmo que Miguel Díaz-Canel fosse detido, as Forças Armadas dificilmente aceitariam ordens de Washington. Para além de controlarem instituições políticas, os militares são os responsáveis pelo Grupo de Administração Empresarial (GAESA) — um poderoso conglomerado de negócios que gere várias indústrias vitais para a economia, desde o turismo à banca do país. “A GAESA tem muitas reservas de dinheiro” fora do território cubano que poderiam ser usadas “em caso de invasão”, afirma James E. Mahon Jr.
Como tal, para derrubar o regime, numa fase inicial teria de haver alguém que conciliasse os diferentes setores da sociedade cubana. Na Venezuela, Delcy Rodríguez fez isso. Em Cuba, há várias dúvidas sobre quem poderá ser. Ao Miami Herald, Ric Herrero, diretor-executivo da organização Cuba Study Group, assinalou que a única pessoa com o perfil da Presidente interino é Raúl Castro — o irmão de Fidel ainda vivo, de 94 anos, que já ocupou o posto no passado.

“Delcy é alguém de dentro do regime, uma dirigente sénior. Ela foi vice-presidente, mas tem uma influência significativa dentro do partido, na burocracia e junto dos militares. É alguém que consegue manter todos os setores alinhados e todas as diferentes fações a desempenhar diferentes papéis conforme o combinado”, prossegue Ric Herrero, acrescentando que a única pessoa que “consegue fazer” isso em Cuba era alguém com “o apelido Castro”.
Contrariamente à Venezuela, também não existem movimentos de oposição bem organizados em Cuba para executar uma mudança de regime.”O regime cubano sobreviveu a várias dificuldades nos últimos 65 anos. Por muitos anos teve um forte apoio do povo cubano que tinha fé desde a revolução cubana. Essa fé em grande medida desapareceu”, analisa Philip Brenner. Ainda assim, os dissidentes são poucos. Por causa disso, o analista preconiza que o regime “vai durar”, uma vez que a mobilização é fraca ou inexistente.
“Pode até haver protestos ocasionais, mas não são sustentados. Para além disso, os oponentes tendem a sair de Cuba em vez de ficar e desafiar o Governo. Depois, a credibilidade de muitos opositores que ficaram em Cuba ficou comprometida pelas verbas que receberam dos Estados Unidos”, continua Philip Brenner. Na Venezuela, a oposição (mesmo que tenha ficado de fora de uma solução governativa por agora) está organizada em redor da figura carismática e mobilizadora de María Corina Machado, a opositora que até ganhou o Prémio Nobel da Paz em 2025.

Apesar de ter sido rejeitada pela administração Trump a curto prazo, os Estados Unidos não escondem que pretendem contar com María Corina Machado para umas futuras eleições, quando forem convocadas. Ora, em Cuba não existe uma figura agregadora como a líder da oposição venezuelana. Philip Brenner vê alguns setores organizados em Miami, mas essa solução seria extremamente impopular entre os cubanos. “Mesmo os cubanos que são muito críticos do atual regime não querem substitui-lo com cubanos que vêm de Miami ou com um regime controlados pelos Estados Unidos”, reforça o especialista.
Com um forte apoio de Marco Rubio, a presidência norte-americana pretende acabar com um regime que quase sempre lhe fez frente. O feito de Donald Trump ficaria para os livros de História, ganhando talvez ainda mais prestígio do que na Venezuela. No entanto, isolados há décadas, o Partido Comunista cubano e as Forças Armadas Revolucionárias mantêm a coesão e a lealdade. Terminar com isso será uma tarefa bastante complexa, mas os EUA não dão sinais de desistir de controlar o hemisfério que veem já como seu.