O ensino profissional continua a ser encarado como uma alternativa menor, destinada a alunos com menor desempenho académico. Esta perceção, profundamente enraizada na sociedade portuguesa, ignora o potencial transformador desta via de ensino e compromete a resposta nacional à escassez de mão de obra qualificada. A minha trajetória pessoal é prova disso.
No final do 9.º ano, tive de escolher entre o ensino regular e o ensino profissional. Apesar de sempre ter ambicionado tornar-me engenheiro, procurava uma formação que me proporcionasse competências práticas e contacto direto com o terreno. Foi durante uma visita à feira “Qualifica” que conheci um centro de formação em Mecatrónica-Automóvel. A minha preferência para a mecânica, eletricidade e eletrónica, aliada à motivação transmitida pelos representantes, convenceu-me a candidatar-me ao curso de Técnico de Mecatrónica-Automóvel, apesar de ter sido desencorajado por professores e psicólogos escolares, que consideravam o ensino profissional inadequado para o meu perfil.
Este preconceito não se verifica apenas nas escolas. Infelizmente, muitos pais preferem que os seus filhos evitem o ensino profissional por receio do ambiente escolar associado a algumas instituições. Esta perceção contribui para a desvalorização injusta desta via.
No meu caso, a pressão para seguir o ensino regular levou-me a optar por essa via, embora o tenha frequentado apenas por um curto período. Ainda assim, mantive a minha candidatura ao ensino profissional e abandonei o ensino regular após ser admitido. Esta decisão revelou-se determinante.
O curso profissional revelou-se exigente e enriquecedor. Com uma carga horária intensa, férias reduzidas e uma forte componente prática, preparei-me para os desafios reais do mundo laboral. Realizei estágios numa das empresas aliadas ao centro de formação, onde fui posteriormente contratado. Além disso, o curso exigia aprovação em exames finais rigorosos, teóricos e práticos, cuja reprovação em qualquer um destes exames implicava a não obtenção do certificado de habilitações. Esta exigência técnica e prática demonstrava claramente que o ensino profissional não era uma via simplificada, mas sim uma formação robusta e exigente.
Mesmo durante a crise económica, nunca enfrentei desemprego. A formação prática permitiu destacar-me num mercado saturado, onde muitos licenciados se viam obrigados a emigrar em busca de oportunidades.
Mais tarde, frequentei um Curso de Especialização Tecnológica (CET) em Tecnologia Mecatrónica. Esta formação, com forte componente prática, revelou-se essencial para a minha futura licenciatura. Foi neste curso que tive o primeiro contacto com programação, o que me levou a escolher Engenharia Eletrónica e de Automação. O CET deu-me equivalência a unidades curriculares, demonstrando que o ensino profissional pode ser uma base sólida para o ensino superior.
Tanto a licenciatura como o CET foram concluídos em regime pós-laboral, conciliando trabalho e estudo. Essa exigência adicional ajudou-me a consolidar conhecimentos e a definir com maior clareza o meu percurso profissional.
Ao fim de quase dez anos no setor automóvel aceitei um novo desafio no setor ferroviário. Já perto do fim da licenciatura, recebi uma proposta para integrar uma empresa especializada em soluções de software crítico, onde viria a desempenhar funções como engenheiro de testes. A minha experiência prática revelou-se decisiva: durante a entrevista foi valorizada a minha capacidade de análise e resolução de problemas, competências essenciais na área de testes de software.
A minha trajetória é apenas uma entre milhares que demonstram o valor do ensino profissional.
Apesar do desgaste acumulado, decidi prosseguir os estudos e acabei por ingressar no Mestrado em Engenharia de Sistemas Computacionais Críticos.
O percurso até ao ensino superior foi marcado por dificuldades, especialmente na área da matemática. A formação matemática no ensino profissional não prepara adequadamente os alunos para os exames nacionais, o que me obrigou a recorrer a explicações para colmatar lacunas de três anos. Esta realidade explica, em parte, a preferência por grande parte dos jovens pelo ensino regular, que até há pouco tempo oferecia melhores condições de acesso ao ensino superior. Felizmente, essa situação tem vindo a ser corrigida, embora ainda subsistam críticas infundadas por parte de defensores do ensino regular.
É injusto afirmar que os alunos do ensino profissional têm um percurso facilitado. Estes enfrentam exigências elevadas, estágios prolongados e avaliações rigorosas. A carga horária e o esforço exigido são, em muitos casos, superiores aos do ensino regular. A avaliação deve ser ajustada à natureza da formação, valorizando o conhecimento prático e técnico adquirido.
Com a crescente escassez de mão de obra qualificada em Portugal, é imperativo que os sucessivos governos reconheçam o valor estratégico do ensino profissional. Algumas medidas que poderiam ser implementadas incluem:
Integração de disciplinas fundamentais como Matemática A nos cursos profissionais.
Reforço da ligação entre escolas profissionais e instituições de ensino superior.
Incentivos à valorização dos cursos profissionais nas escolas e nos meios de comunicação.
Estágios com qualidade e remuneração justa, evitando a exploração de mão de obra gratuita.
O ensino profissional não é uma alternativa menor. É uma via legítima, exigente e transformadora, que prepara os jovens para os desafios reais do mercado de trabalho e lhes abre portas para o ensino superior. A minha história é apenas uma entre muitas que provam que esta escolha pode ser o início de uma carreira de sucesso. Está na hora de Portugal reconhecer e investir nesta via como uma solução para os desafios económicos e sociais do presente e do futuro.