Guilherme Fonseca escreve piadas para viver. Entre programas de televisão, podcasts humorísticos e espectáculos de stand-up, já fez rir muitos portugueses, mas os 20 anos dedicados ao humor não chegaram para saciar a “curiosidade” cómica. Regressa aos palcos do país com um novo solo, Amigável — que estreia no dia 26 de março, no Conservatório de Música de Coimbra — mas não antes de pisar um palco que conhece muito melhor, o do Lisboa Comedy Club, onde recebe o Observador para uma entrevista.
A sala do Comedy Club está vazia de pessoas e de gargalhadas, que na noite anterior, como em todas, ecoaram dentro das quatro paredes forradas a tijolo terracota. A cortina que dá as boas-vindas aos visitantes recebe agora um habitué. Guilherme Fonseca conhece bem os bastidores da comédia, mas não tem medo dos palcos, como já provou pelo menos três vezes, nos espectáculos a solo Pessoa, Morrer Estúpido e Não Faz Sentido, e em grupo, com os coletivos Roda Bota Fora e O Sindicato, ou como convidado de colegas humoristas (abriu para Louis CK, em 2019).
Guilherme nunca deixou de escrever, como atestam as dezenas de blocos de notas que colecionou durante a vida. Leva os seus textos a palco, mas também à televisão, onde colabora com Ricardo Araújo Pereira e Joana Marques (para mencionar dois), no programa Isto É Gozar com Quem Trabalha. Apesar de participar em três podcasts semanais — um deles, Terapia de Casal, no Observador, com Rita da Nova — não prevê ficar sem palavras: a 26 de março de 2025 lançou Má Ideia, “um diário em podcast do processo de preparação” do próximo solo, agendado para o mesmo dia de 2026. Amigável estreia-se em Coimbra e promete “fazer rir” — afinal é para isso que serve a comédia. Se possível, até ter 90 anos.
Amigável estreia dia 26 de março. O solo já está pronto?
Os bits já estão fechados. Ainda estou a limar alguns pormenores, há uma piada aqui que eu ainda não consegui que funcione, esta vai ter que cair… No outro dia experimentei uma coisa de improviso numa piada e ponho lá… Ou seja, o texto, mesmo quando o solo estrear, vai mais ou menos crescendo e fechando por si. A primeira data em Coimbra não vai ser igual à última data em Lisboa, pronto.
E como é que se prepara o guião de um espectáculo de stand-up?
Há exatamente 42 semanas eu tinha zero texto. Zero. O que fiz foi pegar em notas do telefone de ideias cómicas que tinha, de coisas que podiam dar texto, escrever e testar. Experimento escrever dez minutos sobre garrafas de água. Quando estou confiante de que aquilo já tem pernas para andar, escrevo sobre canetas durante mais dez minutos. E por aí em diante, vou juntando peças ao lego e construindo o puzzle que vai ser o solo. Testo cada bit de dez minutos até estar fechado, o que no fim podem ser cinco minutos ou oito ou zero, se não tiver corrido bem. Depois vou agregando esses pedaços de texto até fazerem os 70 minutos que eu quero.
Testar significa dizer o texto em comedy clubs? E depois pega no que funciona e faz corte e colagem?
Exatamente, é uma manta de retalhos, vou chamar-lhe assim. Vou colando quadradinhos à manta, até a manta tapar desde os pés até à cabeça, ou seja, até ter o tamanho de um solo. O meu objetivo é testar material, no mínimo, duas vezes por semana. E quando eu estiver quase a estrear, vou tentar três, quatro vezes, para estar o mais preparado possível em termos de energia e de ritmo para entrar no solo, e depois só fazer o solo e desaparecer dos comedy clubs.
Mas testar é mesmo em todo o lado. Eu testei desde em associações culturais para doze pessoas, até a um espectáculo que o [Diogo] Batáguas fez no Tivoli para 1200. Ou seja, é um bocadinho de tudo. Testar é em todos os sítios onde eu consigo ter palco e onde eu consigo ver, ok, eu experimentei esta piada assim, ela não funcionou bem, então deixa-me experimentar pôr esta punchline assim, ou trocar a ordem destas palavras.
Na descrição do espectáculo, o Guilherme é comparado a um “labrador”, “simpático” e “brincalhão”. Mas o que significa ser amigável em palco?
Há dois lados na escolha do nome do espectáculo. A versão mais óbvia tem a ver com a minha persona cómica em palco. Depois há um texto específico que vou fazer no solo e que dá uma segunda camada ao termo amigável — não vou dar spoiler.
É muito complicado para os humoristas que começam a fazer stand-up comedy definir a sua persona no palco. Alguns, até com anos de experiência, não sabem. A maior parte são uma versão exagerada de si próprio. Costumo dizer que, quando faço stand-up, não sou o Guilherme, mas uma espécie de Guilherme em esteróides. Sou a minha personalidade exagerada e caricaturada, vou dizer assim. Não gosto de conflito, procuro a aprovação de estranhos e tento ser simpático, não quero incomodar em nenhuma vertente da minha vida. Portanto, quando estou em palco, sou um labrador, quero agradar aquelas pessoas mesmo quando estou a roer o sapato delas. Mesmo quando estou a ser ácido, provocador, ou a dar uma opinião que vai contra a norma e com a qual as pessoas não concordam, a minha persona em palco é sempre amigável.
Já criticou o humor que se baseia em crowd work. Mas ser amigável não implica também interagir com o público?
Ficou a impressão, por causa do meu podcast, de que eu não gosto de crowd work, não é isso que eu quero dizer.
Não gosta de espectáculos que se baseiam em crowd work.
Exatamente. Há vários tipos de crowd work e há vários humoristas que já fizeram solos só de crowd work, desde o Todd Barry ao Matt Rife. O meu problema é a maneira como é feito em bares e em noites de comédia, o chamado crowd work de censos, quando o humorista sobe ao palco e pergunta “Como é que te chamas? Que idade é que tens? O que é que tu fazes? Apresenta-me as pessoas da tua mesa”. Tenho um problema com isso. As pessoas que pagam um bilhete e que se sentam para ver uma noite de stand-up comedy não têm a obrigação de ser o material do humorista. Não tenho problema nenhum com humoristas que falam com o público. Tenho um problema com humoristas que precisam que o público lhes dê qualquer coisa com graça para fazerem piadas. Não é obrigação do público fazer texto pelo humorista ou ter graça pelo humorista. Até porque, a certa altura, a maneira como o crowd work é feito em muitos bares de stand-up comedy, hoje em dia, afasta mais o público do que o aproxima. As pessoas têm medo de se sentar nas filas da frente, têm medo de se sentar nas mesas que estão ao pé do palco, ficam em pânico se o espectáculo tem crowd work — e com razão.
Começou o podcast Má Ideia com a finalidade de mostrar ao público o processo de preparação do solo. A premissa foi a frase atribuída a Jimmy Carr, Matt Rife ou, em última instância, Jerry Seinfeld: “Se escrever um minuto de boa comédia por semana, dentro de um ano tem cinquenta minutos de piadas”, isto é, um espectáculo. Correu como previsto ou foi “má ideia”?
Posso dizer que funcionou. Estou contente com o meu trabalho e com o meu processo até chegar a este ponto, em que tenho 70/65 minutos de comédia, que escrevi e que testei no tempo que durou o Má Ideia. O que é que não antevi e que foi um problema? É que agora estou a fechar os bits e a fechar o texto e as piadas, mas não posso falar delas no podcast. Ou seja, as pessoas acompanharam o processo e, se tudo correu bem, ficaram com vontade de ver o espectáculo, mas, no ponto em que estou da preparação — que é de minúcia da punchline e de trocar aquela palavra por esta e de fechar o texto — , quero falar, por exemplo, da ordem dos bits do meu espectáculo e não posso dizer sobre o que são porque não quero estragar a experiência das pessoas. Eventualmente, quando lançar o solo no YouTube, vou fazer uma análise e dizer “Estão a ouvir esta piada? Olhem aqui o áudio que eu gravei em outubro de 2024 ou 2025, a diferença que está”. Isso pode ser interessante para quem gosta de acompanhar o processo.

Já disse que o Má Ideia é uma coisa muito nerd, foi esse o feedback que recebeu dos ouvintes?
Não. Há humoristas que ouvem o podcast, às vezes até para me dizerem coisas que fazem de maneira completamente diferente, o que é giro, porque cada um tem o seu processo. Mas surpreendem-me sempre as pessoas que não têm nada a ver com comédia, são só fãs, e que adoram, porque eu acho, de facto, que o podcast é uma nerdice gigante. Estou em estúdio com convidados e o que me interessa é saber como é que a cabeça do Ricardo Araújo Pereira, da Joana [Marques] e do Vítor Sá chega a uma piada, qual é o processo deles. Às vezes, vejo documentários sobre o chef Y que abriu um restaurante, apesar de eu não cozinhar nem perceber nada de cozinha — só gosto de comer — , mas interessa-me ver o chef a testar um prato, aquilo que não funciona, depois ele prova, e falta sal ou limão… Não percebo nada daquilo, mas esse lado de processo, pelos vistos, interessa às pessoas, e ainda bem.
Em que é que o podcast ajudou? E o que mais mudou no processo de preparação do solo?
Talvez, em parte, a pressão que eu pus em mim próprio…
Já tinha uma data agendada há muito tempo.
Exato, porque uma coisa é dizer “ando a testar texto, até tenho uma hora, mas acho que ainda não estou pronto para fazer um solo”. Outra é, em março de 2025, ter uma sala marcada para março de 2026, anunciar isso no podcast e comprometer-me. Esse nível de “agora não podes falhar porque as pessoas estão à espera que o faças, há um produtor que já marcou uma sala e vai ter de acontecer”, essa pressão foi o que teve de diferente o processo de preparação do solo.
Parece que todos os dias surgem podcasts diferentes, nomeadamente de comédia. Porquê o sucesso deste formato?
Por vários motivos. Um deles é a possibilidade de ouvir podcasts de forma “passiva”, posso estar a lavar a louça, a correr, a conduzir, e não tens de te sentar para ver um programa de televisão. Acho que isso cria uma intimidade maior com quem está a falar do outro lado. Além disso, há, de facto, muita liberdade para dizer o que se entende sem ter compromissos patronais ou comerciais. Muita gente nunca tinha ouvido o Bruno Nogueira falar daquela maneira até ter o podcast [Isso Não Se Diz]. Mesmo que gostassem muito do trabalho dele ou que ele fosse divertido e livre noutros projetos, a forma como se fala no podcast cria essa aproximação ao público. “Este gajo costuma ser tão divertido, vai falar sobre este tema que eu já ouvi noutros programas, de política ou de sociedade. Agora quero conhecer o ponto de vista deste humorista — porque também me quero rir com este tema.” Essa procura por um ângulo original também aproxima o público dos podcasts de humor.
É preciso consumir comédia para fazer comédia?
Confesso que me faz mesmo muita confusão quando humoristas de stand-up não estão a par do que se faz na comédia. É como um músico: para fazer música, tem de ouvir música? A resposta é óbvia. Mas na comédia ainda há muitos que dizem “não, quando estou a preparar um solo não vejo nada, não quero ver porque pode contaminar o meu trabalho”. Não consigo compreender esse ponto de vista. Preciso de saber o que é que se faz, o que é que tem graça, o que é que as pessoas estão a ver ou a ouvir. Até para perceber o rumo que a comédia está a tomar, porque a comédia tem modas, artisticamente pode ser feita de maneiras muito diferentes e ao mesmo tempo. É importante estar a par do mercado.
Ouvi há pouco tempo uma frase que adorei: “You can’t tell a joke alone”. Não se pode dizer uma piada sozinha. É sempre preciso o público para uma piada existir. Escrever comédia sem estar a par do que as pessoas dizem em palco ou daquilo que faz rir o público, é não saber o que está a acontecer na comédia. Quando os humoristas passam a falar só de viagens de avião, hotéis e safaris com a família, é o ponto final, é quando morreu a comédia e já não há nada para dizer.
A comédia relaciona-se melhor com algum tipo de classe social?
Se tudo correr bem, a comédia é transversal. Uma boa piada do Ricardo [Araújo Pereira], para dar o exemplo de um humorista transversal, vai fazer rir a pessoa mais rica e a pessoa mais pobre. Mas há muitos humoristas que, quando ficam ricos e famosos, perdem o contacto com o que as pessoas querem ouvir e com aquilo a que acham graça nos comedy clubs. A comédia tem a ver com reconhecimento. Porque não me interessa se a pessoa em causa tem um milhão de euros na conta, interessa-me se o que ela está a dizer me faz rir como pessoa que não tem um milhão de euros na conta.
Uma das convidadas do podcast foi a sua mulher, Rita da Nova. Em Não Faz Sentido fez um bit sobre ela. Em Amigável, a Rita também foi uma inspiração? Qual é o grau de envolvimento dela no stand-up que faz?
É totalmente involuntário. Quando a Rita tem presença na minha comédia, é porque escrevi sobre ser casado com ela e ela vê depois. Tenho um texto para este solo novo que é sobre uma coisa que acontece no nosso casamento, que escrevi e testei durante imenso tempo e que, por acaso, a Rita foi ver. Ela não fazia ideia e eu não a avisei. Depois no fim perguntei-lhe: “Achaste graça àquilo?”. E ela: “Achei sim, o texto está engraçado”. Não testo piadas com ela, não a chateio com ângulos, nem peço permissão para falar sobre ela, até porque tenho noção dos limites da intimidade. Sei que existe uma linha que não gostava que ultrapassassem comigo e que não ultrapasso com os outros. A Rita vai ver 80% do meu solo pela primeira vez quando se sentar a vê-lo, como o resto do público.
Começou a fazer stand-up há 20 anos, já trabalhou em rádio e televisão, nomeadamente na escrita dos programas Tabu e Isto É Gozar com Quem Trabalha. Como é que escreve piadas como profissão e se não esgota o potencial cómico?
Penso muito nisso e é uma das coisas que me fascina também nas pessoas de quem sou fã. Aquilo que leva os humoristas a escrever uma piada sobre X ou Y é a curiosidade. Tenho genuína curiosidade de perceber como é que as coisas funcionam, gosto de desmontá-las, brincar com elas e depois apresentar às pessoas o resultado final. Como disse na conversa com a Joana Marques, é como fazer um cinzeiro de barro para o dia do pai, chegar ao pé dele e dizer “fiz isto para ti, o que é que achas?”. Este momento em que estendo o cinzeiro de barro é o que acontece quando subo a palco, pego no microfone e faço stand-up. Quando testo oito, dez minutos, estou a dizer às pessoas “acho graça a isto que escrevi em casa, isto é giro” e isso vem tudo da curiosidade. Enquanto tiver curiosidade de saber como é que as coisas funcionam ou porque é que provocam reações em mim, não vou deixar de ter uma visão cómica.

Ou seja, a vontade de fazer piadas não vem de um desejo de fazer as outras pessoas rir?
Não, de todo. Não me sinto um missionário que tem de fazer rir as pessoas porque a vida delas é triste. Não é nada o meu objetivo. A vontade vem de uma necessidade de reconhecimento do meu trabalho.
Fabrica-se uma piada e o riso é a recompensa?
Sem dúvida. Tenho um acordo com o público, que é: eu subo àquele palco, pego no microfone e digo as coisas que escrevi em casa e que acho que têm graça. A responsabilidade do público é dizer-me se tem graça ou não — stand-up comedy é isso. Não o faço por pulsão de missionário da sociedade ou pelas pessoas. Faço-o por mim, porque escrevi estas coisas e quero saber o que é que as pessoas acham delas. Há um lado muito egocêntrico e egoísta no stand-up.
O que mudou na comédia em Portugal desde que começou?
Tanta coisa. Era um mundo completamente diferente. O primeiro grupo de comédia ao qual me juntei, quando tinha 18, 19 anos, chamava-se O Sindicato… algumas pessoas são famosas ainda hoje. Posso dizer os nomes: o Carlos Moura, o Pedro Miguel Ribeiro, o António Raminhos. Eram pessoas que queriam criar um circuito de comédia em Lisboa, porque não havia. Nas nossas primeiras atuações em bares, precisávamos de explicar que o que fazíamos não era contar anedotas.
Hoje em dia, o Ricardo esgotou duas MEO Arena com stand-up comedy, a Joana 15 Coliseus. Há 4 ou 5 humoristas a esgotar o Campo Pequeno. Já há nichos e subgrupos de comediantes que fazem meta-humor, porque as pessoas têm referências, têm uma educação cómica, podem ir à Netflix ver especiais americanos. Quando comecei a fazer stand-up, tinha de sacar os especiais da HBO, porque não havia nada.
Lembro-me de comprar um bilhete para ir ver o [Pedro] Tochas ao Trindade, um espectáculo chamado Lado B, e o Maiores de 18, que foi o primeiro stand-up comedy que vi ao vivo. E o Tochas fazia a comédia que havia lá fora, que ele via no [Festival] Fringe, em Edimburgo. A evolução que houve, com humoristas a serem caras de campanha, a esgotarem salas, a terem os podcasts mais ouvidos e serem procurados para rubricas de rádio… é a diferença do dia para a noite. A comédia, hoje, está ao nível da música ou maior, em termos de dinheiro que se faz e da projeção que tem.
Mas o que é que explica isso? Numa altura em que os cinemas têm cada vez menos audiência, em que até os festivais de verão são ameaçados por uma crise, porque é que se verifica o fenómeno contrário na comédia? Qual é o atrativo?
Autenticidade. As pessoas estão cansadas de olhar para ecrãs e de ver coisas editadas, às vezes com inteligência artificial, momentos que parecem genuínos nos programas de televisão, mas que são encenados. Querem sentar-se num bar e ver um humorista a subir a palco e enganar-se, ou reagir a uma resposta torta do público. Além de que a comédia é muito fácil de comercializar, por ser agradável e divertida, por fazer rir…
Mas também é acessível, não? É uma forma de arte mais acessível do que outras.
É muito mais barata. Se eu tivesse uma banda, tinha de me preocupar com quatro pessoas, materiais, instrumentos, colunas e não sei o quê. A comédia? Só preciso de um banquinho e de um microfone. Pronto, e de duas garrafas de água. Com isso, consigo fazer rir 20 mil pessoas na MEO Arena. A comédia é a maneira mais direta e simples de por o texto de alguém em contacto com o público.
Num dos episódios do podcast, refletiu sobre a importância da estética num espectáculo de comédia. Porquê esta tradição de simplicidade no stand-up? Não há nada no palco além de um banco e de um microfone, despreza-se a cenografia, mas não pode a estética enriquecer o espectáculo? O stand-up está assim tão afastado de outras artes performativas, onde o aspeto visual é mais valorizado?
O stand-up clássico é, de facto, o mais simples possível. “Eu só quero um microfone”, é o que o Louis C.K. faz, por exemplo. É o clássico de stand-up comedy inestético, simples, direto e cru. É, por exemplo, a razão pela qual o Ricardo só anda de T-shirt preta ou de fato. Porque ele não quer que o mais pequeno dos detalhes distraia as pessoas do que vai dizer. Concordo com isso. Agora, não estou a dizer que não há espaço para explorar outras coisas artisticamente dentro do mundo da stand-up comedy. É inegável que o Bo Burnham faz stand-up. E o Bo Burnham toca piano, faz rap, tem piadas com edição de vídeo, etc. Não sou contra coisas estéticas na comédia. Até acho que, em muitos casos, isso ajuda alguns humoristas a passar a mensagem que querem passar. Mas a base da comédia é o que o humorista está a dizer, sempre. Ou antes, o que ele escreveu.
E onde é que se define a fronteira entre um comediante de stand-up e um ator?
Não sei bem se há uma separação sequer. Porque quanto mais autêntica for a maneira como entrego o texto, de modo a simular que é a primeira vez que estou a contar aquilo, melhor o texto corre. O texto precisa de entusiasmo, se não, o público não vai rir. Portanto, tecnicamente, tenho de fazer um semi-trabalho de ator.

Ter piada é algo que se aprende?
Que pergunta tão difícil… Há muitos anos, o Woody Allen deu uma entrevista em que estava a ser super maldisposto e seco. A entrevistadora disse-lhe: “O senhor não está a ter graça nenhuma, o senhor é humorista, porque é que não tem graça?”. E ele olhou para ela e disse: “Não me estão a pagar para ter graça”. Há, de facto, pessoas que são naturalmente engraçadas. Nunca quis ser o centro das atenções ou o palhacinho da turma, nunca tive vontade de que olhassem para mim e se rissem do que eu estava a dizer. Mas isso nunca me impediu de ser humorista e de dizer coisas com graça em palco. E demorei muitos anos a perceber isso sobre mim próprio.
Como é trabalhar com uma equipa de humoristas altamente reconhecidos no Isto É Gozar com Quem Trabalha? Riem-se muito? É aborrecido ou prejudicial ser identificado como “o tipo que trabalha com o Ricardo Araújo Pereira e com a Joana Marques”?
Muita gente que me apresenta diz: “Ele trabalha no programa do Ricardo Araújo Pereira”. Mas é normal porque todos sabem quem é o Ricardo. Se eu fosse o cozinheiro do Cristiano Ronaldo, também diriam: “Ah, é ele que faz os bifes de peru do Cristiano Ronaldo”. É só um ponto de ligação com um nome famoso e que as pessoas reconhecem. Portanto, isso não me chateia, até porque como guionista, como pessoa que trabalha no humor, isso é currículo, não é? Na verdade, os humoristas não têm bem CV, mas se esse boca a boca e se as pessoas com quem trabalhei servirem para melhorar a minha marca, para mim é ótimo. Quem me vir em palco não vai pensar “ele não está a ter graça nenhuma, mas ele trabalha com o Ricardo, portanto é bom”. Quando estou no palco tenho que fazer rir de qualquer maneira, é indiferente com quem é que trabalho.
Sobre se nos divertimos: muito, porque um dos objetivos do Ricardo, quando começou a montar a equipa à volta dos três velhos [Ricardo, Miguel Góis e José Diogo Quintela], foi não só juntar pessoas que tivessem graça e que acompanhassem política, mas também que pensassem sobre comédia da mesma maneira. Rapidamente nos tornámos amigos, trabalho com um grupo de amigos. Não há nada melhor do que isso.
Qual é a diferença de escrever sozinho ou em equipa?
É bastante. Porque, em última instância, eu só sei se o meu stand-up comedy tem graça quando subo a palco e o digo. Quando estamos todos a trabalhar, aquilo é colaborativo, porque às vezes eu digo uma coisa que não tem graça ou que não chega bem a uma punchline, mas depois o Zé Diogo [Quintela] acrescenta qualquer coisa por cima e o Manuel [Cardoso] remata: “Pois, mas o que tem graça é isto que o Zé Diogo disse com aquela premissa do Guilherme”. Ou seja, são oito cabeças a funcionar para uma punchline, o produto final tem uma curadoria muito grande, que resulta da intervenção de todos. Sozinho, vou escrevendo em função do feedback que recebo do público. Nesse aspeto é completamente diferente.
De que modo o Ricardo Araújo Pereira influenciou a sua visão do humor e a forma como produz comédia?
De várias maneiras. Eu era um puto quando os Gato Fedorento se tornaram num fenómeno e foi muito divertido para mim na altura rir-me com coisas tão diferentes e novas. Lembro-me que as primeiras vezes em que vi coisas dos Gato Fedorento foi em chain mails [e-mails em cadeia]. Olha este link tão giro, envia para o próximo. Aos anos que isto foi, nem havia YouTube… Foram a minha maior influência cómica, numa altura em que percebi “estas coisas têm graça, isto é giro, como é que eles fazem isto?”.
Atualmente, não há maior referência ao nível de cuidado com a escrita, mas principalmente de exigência na escrita, do que o Ricardo. O Ricardo tem uma maneira de escarafunchar obsessivamente uma piada, para garantir que é o mais engraçada possível, que eu nunca tinha visto e como nunca tinha sido comigo próprio. A minha comédia não seria tão cirúrgica se não fosse o Ricardo.
Sobre o humor político do Dave Chappelle, o Guilherme disse que “a comédia não tem de passar uma mensagem, tem de fazer rir”. Fazer comédia é só fazer rir?
Sim. Sem dúvida nenhuma. Comédia que não faz rir não é comédia, portanto a comédia tem de fazer rir. Se a opinião que eu estou a dar em palco para fazer rir é a minha ou é contrária à minha, que eu digo por provocação ou por graça, acho que isso deve ser irrelevante para o público. Não me interessa se o que o Dave Chappelle diz é a opinião dele ou não. Isso é o que eu espero dos políticos, que me digam exatamente em que é que acreditam para eu votar neles ou não. Na maior parte das vezes até tem mais graça uma coisa que é oposta àquilo que eu acho, que é fora da norma. Sai da linha do politicamente correto, do que é seguro, e se encontrar um ângulo novo, faz-me rir.
Mas ao fazer comédia com atualidade, política ou personalidades concretas, não há a possibilidade, mesmo que involuntária, de passar uma mensagem?
Duvido muito disso, concordo com o Ricardo quando ele diz que as pessoas atribuem à comédia uma responsabilidade que eu não vejo a comédia ter. Por exemplo, ideologicamente não convidamos o André Ventura para o nosso programa. Isso poderia passar uma mensagem ao eleitor, ao André Ventura, à direção de programas da SIC, a quem quer que seja. O André Ventura está com piores resultados por causa disso? Começámos o programa em 2019, entretanto ele foi eleito e agora tem 60 deputados. A comédia é muito mais irrelevante do que as pessoas acreditam que é. A comédia serve para fazer rir. Quem procura mensagens ou procura objetivo políticos e ideológicos na comédia, está a procurar no sítio errado.
Quem são os novos comediantes que merecem atenção?
Há vários humoristas que ainda não estão no patamar de reconhecimento e que já poderiam estar, com a qualidade que têm. O Joa Vítor, que é da mesma agência que eu, faz uma rubrica na Antena 3 e é hilariante, acho que é uma das apostas para o futuro da comédia. A mesma coisa em relação ao Carlos Contente. A maneira como prepara o seu podcast, como se fosse stand-up comedy, com bits e punchlines, é um trabalho que nenhum humorista fazia, com muita graça e qualidade. O João Miguel Costa é um humorista do Norte, que agora mora em Lisboa, engraçadíssimo e obcecado com o texto, da mesma maneira que eu. Gosto muito dele, ambos pensamos punchline a punchline da mesma maneira. Ficam estes três exemplos, porque, se não, eu podia estar aqui o dia todo a dizer nomes.
A vocação do Guilherme parece ser a escrita, já publicou três livros e é guionista de profissão, ambos no âmbito da comédia. No entanto, começou por estudar cinema na ESTC. Gostava de regressar ao cinema ou à escrita de ficção?
Gostava, porque acho que há pouquíssimo cinema de comédia neste momento. Há muito mais dramedies, está muito na moda agora, filmes que têm piadas pelo meio, mas fazem chorar. Há pouquíssimas comédias que são feitas, criadas, escritas, pensadas e produzidas só para fazer rir. Não dá para viver do cinema em Portugal, é praticamente inexistente, mas tenho saudades de escrever ficção, é a minha educação, a minha base.
O que é que podemos esperar a seguir do Amigável?
O meu objetivo a partir de agora, que criei este monstro, que me auto impus este mito de Sísifo, é continuar a fazer isto para o resto da vida. É ano sim, ano não, ter uma hora nova de material para fazer stand-up comedy, porque o prazer que me dá — este exercício constante de construção, de acumular piadas e depois montar um solo — , também me dá vontade de fazer isto para sempre. Gostava de ter 90 anos e ter um solo marcado no Tivoli ou no Campo Pequeno ou no Villaret, não me interessa. Quero continuar a fazer solos, porque, na minha visão, um solo de stand-up comedy é uma espécie de fotografia dos últimos dois anos de um humorista e quero continuar a deixar essas radiografias da minha vida. Portanto, a seguir ao Amigável podem esperar outro.
O Observador agradece ao Lisboa Comedy Club por disponibilizar o espaço para a entrevista e fotografias.