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(A) :: A geração paralisada 

A geração paralisada 

Criámos uma geração a quem dissemos que tudo devia fazer sentido e agora estranhamos que hesite quando o mundo oferece sobretudo incertezas.

Inês Costa Maia
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Há cada vez mais jovens adultos que chegam ao meu consultório paralisados. Não estão “perdidos” no sentido clássico da palavra, mas estão à espera. Uma espera que, depois de ouvir atentamente a história que trazem ao espaço de terapia, se revela frequentemente como uma expectativa de que a vida comece quando o seu mundo fizer sentido.

O problema que cada vez se torna mais evidente é que o sentido foi elevado a critério absoluto e ao derradeiro objetivo a atingir. Durante décadas dissemos a uma geração inteira (e incluo a minha nesta afirmação) que não bastava trabalhar, era sim preciso realizar-se. Que o emprego tinha de ser uma extensão da identidade, uma fonte de prazer, propósito, reconhecimento e, claro, de estabilidade financeira. A famosa expressão: “faz o que gostas e nunca trabalharás um dia na vida”. Hoje vemos as consequências práticas dessa promessa utópica. Muitos destes jovens sentem dificuldade em sequer considerar como hipótese empregos aceitáveis, quer do ponto de vista financeiro como de carga horária, porque há um receio de que a natureza do trabalho não seja condizente com o que se quer “fazer da vida”. Nestas situações, muitas vezes, estes jovens não têm um projeto alternativo concreto ou definido mas, mesmo assim, qualquer escolha parece definitiva demais, insuficientemente significativa e quase como uma traição a si próprios. Trabalhar em algo “apenas aceitável” é vivido como um fracasso da identidade, transformando o dia-a-dia numa espécie de casting permanente para um papel principal que nunca chega.

O paradoxo exposto acima é que quanto mais se exige que o trabalho dê sentido à vida, mais difícil se torna começar a viver. Noutras gerações, há vinte ou trinta anos, o trabalho era sobretudo um meio, enquanto hoje é apresentado como fim. Quando esse fim se revela insuficiente, prefere-se a intermitência, uma espécie de adolescência prolongada pelo excesso de idealização, que tem sido imortalizada no “diagnóstico” da psicologia pop que é a síndrome de Peter Pan. É claro que estes fenómenos não surgem num vácuo e que o contexto económico é objetivamente adverso e algo desesperançoso com precariedade, habitação inacessível e salários desfasados das qualificações. Agora, quando estas realidades não geram resistência ou adaptação, mas sim imobilidade e uma sensação de que não vale a pena começar se a vida não será como foi imaginada poderemos entrar numa dinâmica muito nociva.

Há uma especificidade portuguesa nestes contextos que, em comparação com países como a Alemanha, é difícil ignorar que é o papel da almofada familiar. Em Portugal, os pais não apenas ajudam como amparam. Pagam rendas, despesas, mestrados adicionais, viagens de autodescoberta e sustêm quedas, atrasos e desistências. Fazem-no por amor e também por medo. Medo de que os filhos sofram, de que “fiquem para trás”, de que o mundo seja demasiado duro e que os filhos desabem sob o seu peso. O que parte de boas intenções pode, contudo, ter consequências menos favoráveis. Quando todas as quedas são amortecidas, assumir riscos perde a sua urgência e uma decisão pode ser eternamente adiada. Talvez porque o custo de não escolher seja (pelo menos em teoria) baixo e a escolha é vivida como uma experiência que tem de ser perfeita.

Na Alemanha, e não obstante diferentes realidades incluindo a económica, sair mais cedo de casa, aceitar trabalhos transitórios e construir um percurso a partir do imperfeito é mais aceite. Os sistemas familiares e sociais têm uma ênfase maior na autonomia, enquanto que o português é mais paternalista, “empurra-se” menos. Enquanto há virtudes deste sistema, também há o reverso da medalha.

No meio destas realidades, talvez o desconforto maior não seja o dos jovens, mas o da nossa sociedade. Criámos uma geração a quem dissemos que tudo devia fazer sentido e agora estranhamos que hesite quando o mundo oferece sobretudo incertezas, compromissos, imperfeições e escolhas menos inspiradoras. Queremos jovens independentes, mas não toleramos vê-los desconfortáveis e exigimos resiliência, mas não conseguimos suportar vê-los a “esfolar os joelhos” quando tropeçam.

Talvez esteja na altura de aceitar uma ideia profundamente antipática, a de que o sentido não precede a ação, mas constrói-se a partir dela, mesmo quando é imperfeita. E se esperarmos sentir-nos prontos para começar, arriscamo-nos a nunca começar de todo. Porque, na vida adulta, adiar não é um ato neutro, é em si mesmo, uma forma de escolha.