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(A) :: Porque é que o scroll infinito das redes sociais é tão viciante?

Porque é que o scroll infinito das redes sociais é tão viciante?

O dedo desliza e o tempo desaparece. O scroll sem fim das redes sociais explora gatilhos psicológicos que tornam difícil parar — mesmo quando queremos. A ciência explica.

Sofia Teixeira
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Pegamos no telemóvel para tirar uma dúvida na internet, mas essa dúvida leva a outra, um link leva ao seguinte e, quando damos por isso, passaram trinta minutos e estamos a ler coisas que já pouco têm a ver com a pergunta inicial.

Mas é nas redes sociais que o tempo se torna verdadeiramente um poço sem fundo. O clássico “só cinco minutos” resvala rapidamente para muito mais, enquanto se passa de publicação em publicação e de vídeo em vídeo, num processo que podia continuar para sempre — precisamente porque a possibilidade de continuar a deslizar para baixo não tem fim.

Ao contrário, por exemplo, das pesquisas no Google, em que, quando se chega ao fim de uma página de resultados, é necessário avançar para outra para continuar a ver informação, nas redes sociais nunca se chega ao fim da página. Novo conteúdo vai sendo carregado automaticamente à medida que se desce no ecrã: mais vídeos, fotos e publicações surgem em fluxo contínuo, mantendo-nos a consumir conteúdos durante mais tempo.

“O scroll infinito ativa vários gatilhos psicológicos ao mesmo tempo: recompensas imprevisíveis — às vezes aparece algo interessante, às vezes não — que libertam dopamina; ausência de sinais de paragem, porque não há ‘fim’ natural, o que dificulta sair; e validação social, com likes, novidades, comparação”, explica Joaquim Fialho, professor do Instituto Superior de Gestão e investigador do Centro Lusíada de Investigação em Serviço Social e Intervenção Social (CLISSIS).

Além disso, as redes sociais personalizam o feed com base no comportamento prévio, o que significa que o conteúdo que nos aparece é cada vez mais ajustado às nossas preferências, sendo difícil de ignorar e fácil de consumir. “Ao analisar gostos, tempo de visualização, cliques e interações, o algoritmo aprende o que mais capta a nossa atenção e passa a oferecer conteúdos cada vez mais alinhados com interesses, emoções e crenças pessoais”, diz Joaquim Fialho, coordenador do projeto “Scroll. Logo existo! : os comportamentos aditivos no uso da internet e das redes sociais” que estudou as práticas de uso dos ecrãs e os comportamentos aditivos.

“A exposição contínua a estímulos curtos e variados treina o cérebro a alternar rapidamente o foco, tornando mais difícil manter a concentração em tarefas longas ou profundas”, diz o investigador universitário Joaquim Fialho. Mesmo quando achamos que estamos a aprender alguma coisa, esse pode não ser o caso, porque este tipo de consumo tem um impacto negativo na memorização. 

O scroll infinito em conjunto com a personalização do feed, cria um ciclo de reforço: “Quanto mais consumimos, mais preciso se torna o feed; quanto mais preciso o feed, maior a probabilidade de continuarmos a consumir. O cérebro interpreta esta relevância como sinal de recompensa, gerando a sensação de que ‘vale a pena continuar um pouco mais’.”

Além disso, o nosso cérebro gosta de poupar energia e esta personalização oferece isso: não precisamos de procurar o que nos interessa, o feed oferece-o automaticamente. “Esta facilidade torna o consumo quase inconsciente, aproximando-o de um comportamento habitual. Ao mesmo tempo, o feed mistura conteúdos muito apelativos com outros menos interessantes, explorando a lógica da recompensa variável: nunca sabemos quando surgirá o próximo post ‘bom’, o que nos incentiva a continuar a deslizar.” A personalização cria também, refere o investigador, uma sensação de familiaridade e validação.

Mesmo quando temos consciência do que está a acontecer e acabamos irritados por ter perdido tanto tempo agarrados ao ecrã, estes mecanismos tornam a experiência tão viciante que a decisão de parar é difícil. “Deixa de ser uma escolha consciente e passa a ser um comportamento automático, sustentado pela combinação de relevância, hábito e recompensa psicológica.”

Tudo isto nos dá algum prazer imediato, mas tem um custo. Desde logo, gera uma sensação de perda de controlo do tempo, que acaba por gerar culpa e frustração. Mas até isso leva a mais consumo, em lugar de o evitar. “Esse conflito entre prazer momentâneo e arrependimento reforça o consumo compulsivo.”

Vários estudos sugerem também que o uso prolongado e persistente do scroll infinito pode afetar a atenção e até a memória. A diminuição da capacidade de atenção é o mais conhecido. “A exposição contínua a estímulos curtos e variados treina o cérebro a alternar rapidamente o foco, tornando mais difícil manter a concentração em tarefas longas ou profundas.” Pode haver um impacto emocional associado à comparação — com uma diminuição da autoestima e própria “alternância entre conteúdos positivos e negativos contribui para a instabilidade emocional, mantendo o utilizador num estado de alerta constante”, aumentando a ansiedade.

Mesmo quando achamos que estamos a aprender alguma coisa, esse pode não ser o caso, porque este tipo de consumo tem um impacto negativo na memorização.  “O consumo rápido e superficial de informação favorece o processamento raso, dificultando a consolidação de conteúdos na memória de longo prazo. Lemos muito, mas retemos pouco.”

Apesar de o scroll infinito e os algoritmos serem desenhados para gerar continuidade na utilização e um tempo de permanência prolongado, os utilizadores podem adotar estratégias para evitar cair nessa armadilha. “Uma das práticas mais eficazes é definir limites claros de uso, como horários específicos para aceder às redes sociais ou tempos máximos diários, ajudando a transformar um comportamento automático numa escolha consciente”, diz Joaquim Fialho.

Por outro lado, podem ser tomadas decisões que ajudem precisamente a interromper a dinâmica de fluxo contínuo: “ desativar a reprodução automática, remover notificações não essenciais ou usar a versão web em vez da app cria pequenos atritos que facilitam a decisão de parar. Estes ‘pontos de fricção’ devolvem controlo ao utilizador.” O objetivo, lembra o investigador, não é eliminar o uso, mas criar uma relação equilibrada, “em que a tecnologia serve o utilizador, e não o contrário”.