A principal inovação do judaísmo do período pós-exílico foi a afirmação progressiva de um monoteísmo ético: a crença num Deus único e transcendente, que exige uma conduta moral fundada na responsabilidade da comunidade e na lei de Moisés, ao contrário das religiões pagãs da Antiguidade, marcadas pelo culto a várias entidades divinas associadas a superstições ou forças da natureza. A prática judaica passou a estar ancorada no seguimento fiel da Bíblia hebraica, que estabelecia deveres abrangendo muitos aspetos da vida comunitária, como o sacrifício de animais ou a observância do shabat.
Pela sua natureza não-proselitista – fortemente ligada a um povo e a uma identidade étnico-religiosa -, o judaísmo nunca se tornou uma religião amplamente difundida. Para tal contribuíram também as perseguições históricas ao povo judeu, que reforçaram a prioridade de preservar a identidade, tradição e continuidade da comunidade, mais do que de expandir o número de fiéis.
O cristianismo nasceu como um movimento religioso monoteísta no seio do judaísmo, centrado em Jesus de Nazaré, que os seus seguidores reconheceram como o Messias e filho de Deus, marcando desde cedo uma rutura irreconciliável com o judaísmo. Mais tarde, no Concílio de Niceia, a Igreja afirmou mesmo a identidade divina de Cristo (“consubstancial ao Pai”), colocando pela primeira vez um ser humano no centro da doutrina religiosa. Ao contrário do judaísmo, que atribuía primazia ao cumprimento da Torá, a religião cristã focava-se na relação interior do crente com Deus, na oração e na fé em Jesus Cristo, sem impor rituais ou deveres comunitários através de um código jurídico-religioso, algo revolucionário na época.
Apesar das perseguições iniciais, o cristianismo difundiu-se pelo Império Romano através da ação de discípulos e apóstolos. Em 312, o imperador Constantino converteu-se e concedeu liberdade de culto aos cristãos. Pouco depois, o cristianismo tornou-se a religião oficial do império, expandindo-se gradualmente pela Europa e, séculos mais tarde, pelas Américas.
Apesar de ‘al-Lah’ (“o Deus”) ser o mesmo Deus de judeus e cristãos, muitos árabes sentiam uma certa inferioridade espiritual face a essas religiões, que frequentemente os viam como povos bárbaros sem uma revelação divina. Em 610 tudo muda, com o aparecimento de um anjo a Maomé no monte Hira. A palavra de Deus chegara e ficaria inscrita para a posteridade em língua árabe. Assim nasceu o Corão, que ao contrário da Torá, recitada uma só vez no monte Sinai, resulta de revelações transmitidas oralmente ao longo de 23 anos. Pela primeira vez, surge uma religião com um carácter profundamente normativo e disciplinado, que transforma a fé num modo de vida quotidiano, estruturado em práticas regulares, como cinco orações diárias. Embora o judaísmo já previsse práticas obrigatórias no âmbito da lei religiosa, o islão distinguiu-se pela afirmação de uma lei de vocação universal, dirigida a toda a humanidade, e não apenas a um povo ou comunidade específicos.
Com a migração de Maomé e dos seus seguidores para Medina, inicia-se o estabelecimento do islão como projeto político e militar. Esta comunidade expandiu-se rapidamente sob a forma de califado e, aproveitando o declínio dos impérios bizantino e persa, transformou-se, em menos de 100 anos, num império que se estendia da da Ásia Central à Península Ibérica. Ao contrário do cristianismo, marcado desde a sua origem por séculos de repressão e pela trágica crucificação de Jesus, o islão conheceu, ainda durante a vida de Maomé, uma trajetória de vitórias militares e rápida consolidação política. Esse sucesso sem precedentes foi amplamente interpretado como um sinal divino, contribuindo para a conversão de novos fiéis e para a formação de uma comunidade global de crentes coesa e fervorosa.
Com o passar dos séculos, duas destas religiões reformaram-se profundamente. O judaísmo conheceu o seu momento iluminista com o movimento Haskalá, seguido, no século XIX, pelo surgimento do judaísmo reformista na Alemanha. Os judeus não-ortodoxos passaram a encarar a Torá como uma herança cultural e espiritual, relativizando as exigências da pureza ritual e entendendo a prática religiosa como uma escolha individual. O cristianismo, por sua vez, abriu-se ao mundo contemporâneo com o Concílio Vaticano II. A Igreja Católica abandonou o latim como língua da liturgia, reconheceu o valor da ciência e da cultura moderna e afirmou explicitamente a liberdade religiosa, incluindo o direito de não ser forçado a crer ou a praticar uma religião.
Não existe um concílio global que represente a totalidade do judaísmo ou do islão. Ainda assim, o primeiro modernizou-se através de movimentos voluntários e descentralizados, sem uma decisão institucional única. O islão, eterna “união do espiritual e do temporal” (Ernest Renan), aguarda ainda um processo efetivo de laicização. Parece incontornável que tal transformação tenha de vir de dentro, dada a memória traumática do colonialismo e das imposições externas sobre os povos muçulmanos. Até lá, o islão continuará a ser uma religião fortemente ortopráxica, fundada em deveres externos rigorosos e, como tal, em tensão permanente com as sociedades livres e democráticas ocidentais.
A polivalência do islão é também o seu maior obstáculo à evolução: reformá-lo não é apenas uma batalha teológica difícil – uma vez que o Corão é, para os muçulmanos, a palavra literal e não-reinterpretável de Deus -, mas também uma batalha jurídico-política e socio-cultural em várias frentes. Ou seja, poderia exigir uma revisão simultânea da constituição, da sharia e lei civil (incluindo direito familiar, sucessório, penal e o estatuto jurídico de mulheres e não crentes) em diversos países, bem como reverter práticas sociais já profundamente enraizadas em comunidades muçulmanas. Mas há esperança. A laicidade nasceu em França como arma de guerra contra a Igreja Católica; hoje, religião e Estado convivem de forma pacífica, mesmo numa França que tende para um laicismo assertivo. Exemplos históricos como a Turquia de Atatürk e o Irão de Reza Khan demonstram que o Estado pode impor uma “privatização” da religião mesmo contra redes poderosas de ulemas e mulás, enquanto correntes místicas como o sufismo provam ser possível uma prática interiorizada e espiritual do islão. Não se trata de esperar por um messias, mas a história mostra que reformas desta natureza começam com dissidentes. Ao islão, talvez ainda lhe falte o seu Lutero…