Nunca passou um dia inteiro a fazer praia. Aos 75 anos, Bernardo Reino é a cara do Gigi, o emblemático restaurante da Praia da Quinta do Lago, em Almancil, batizado com a sua alcunha, que há 40 anos se mantém como um ponto de referência para uma bela refeição de peixe ou marisco com o mar no horizonte. Uma vida na praia, mas sem nunca se dedicar a longos banhos de sol, Gigi quer ficar por lá até partir — não gosta da palavra morrer — porque é à mesa do seu restaurante que gosta de estar. Adepto e grande defensor da cozinha portuguesa, não segue modas, tendo inovado apenas o suficiente para manter a essência do restaurante ao longo destas quatro décadas ao ponto de o cliente entrar e dizer: “Isto é o Gigi”.
Foi esse Gigi que o fez migrar de Lisboa para o Algarve a meio da década de 1980. Aos 35 anos trocou o fato e a gravata pelos calções, o próprio o diz, numa idade de grandes decisões que o levaram até à Quinta do Lago. Transmontano de criação, na época vivia em Sintra e tinha uma promissora carreira no ramo dos seguros, a área onde deu os primeiros passos profissionalmente. Paralelamente, tinha ainda uma loja de vinhos no Bairro Alto, a única bebida que toma hoje em dia depois de ter deixado o gin que lhe mereceu a alcunha: “Foi um amigo meu que disse que eu tinha a mania do gin e ficou Gigi”, recorda, em conversa com o Observador. A primeira vez que pôs pé no atual restaurante foi enquanto cliente quando o espaço era ainda apenas o pavilhão da praia, idealizado pouco depois de André Jordan ter projetado a Quinta do Lago, nos anos 70, e andavam por lá uns músicos chilenos a fazer ceviche. Foi então convidado por Manecas Moceleck, que assumiu a gestão do Beach Pavilion em 1995, para colaborar até chegar o convite final: ficar Bernardo Reino com o pavilhão da praia, depois batizado de Gigi.

Se as últimas quatro décadas foram passadas de calção à beira da praia, os últimos quatro anos já foram feitos mais para norte, 20 metros para trás da localização original. Em 2022, o Gigi abriu portas renovado depois de sete meses de remodelação que levaram Bernardo Reino a despedir-se do espaço antigo para cumprir com o Plano de Ordenamento da Orla Costeira (POOC) Vilamoura – Vila Real de Santo António, gerido pela APA – Associação Portuguesa do Ambiente. A duna primária da praia foi deixada para trás mas Gigi, afirma, olha sempre para a frente, sem deixar que o sentimento de nostalgia o impeça de continuar a manter vivo o negócio de décadas.
As memórias de então ficam todas guardadas nesta memória coletiva das tantas pessoas que por lá passaram. Seja pela localização privilegiada, o bom ambiente que os dias quentes trazem — de dezembro a março o Gigi vai de férias —, ou o marisco e peixe grelhado servido desde sempre àquela mesa — mas tem de ser sem espinhas porque “os estrangeiros não sabem arranjar” —, o emblemático restaurante foi e continua a ser um sucesso entre portugueses e estrangeiros. Aquela casa de madeira nas dunas recebeu mais personalidades do que aquelas que alguma vez se possa imaginar, desde os clientes habituais Mário Soares e Marcelo Rebelo de Sousa a George Michael, passando pelo Príncipe Ernesto Augusto de Hanôver, que passou por lá com Carolina do Mónaco. Com 40 anos de história, assistiu à entrada de Portugal na CEE, com uma fotografia do governador civil Cabrita Neto de calças arregaçadas dentro de água, à compra da nova casa de Ayrton Senna, tricampeão mundial de Fórmula 1, na Quinta do Lago, e à fidelização de tantos clientes que, agora na quarta geração, continuam a visitar o Gigi. Para os 40 anos, não há grandes festas. Em vez disso, a promessa de um livro de histórias de receitas e de receitas com histórias. Escrito pelo próprio Gigi, é parte do legado que quer deixar.

Chama-se Bernardo Reino mas toda a gente o trata por Gigi. De onde surgiu esta alcunha?
Foi em miúdo. Foi um amigo meu que disse que eu tinha a mania do gin e não sei quê e ficou Gigi. Mas curiosamente não bebo gin hoje em dia. Bebo gin em Inglaterra só. Mas foi mistura de Playboy com gin.
E ficou?
E ficou.
E porquê dar o mesmo nome ao restaurante?
Porque gosto de nomes com vogais que ficam mais na tola. Se eu tivesse um nome de consoante, quem é que me diz aquilo? Só um alemão é que transmite a outro alemão. Gosto de nomes com vogais e curtos. E ficou.
Este ano o Gigi (restaurante) assinala 40 anos. Como é que têm sido estas quatro décadas de serviço?
Sempre a manter, a tentar manter. Eu tenho pessoal com 37 anos de casa e, aliás, o novo presidente [da Quinta do Lago] chegou lá e disse: “Bem, você deve ser o único caso no mundo. Ter empregados tanto tempo?”. Hoje em dia infelizmente o mundo está diferente mas eu tento manter. Por várias razões, uma delas é a fidelização àquela maneira de trabalhar. Mas todos os anos faço um discurso de princípio, faço aquele discurso de “vamos vencer mais um ano”, não falo em doenças, que eu tive uma doença que era grave até mas a vida toca-se para a frente. Termino sempre o briefing com uma frase: “Vamos fazer uma coisa, qual é a frase mais horrorosa que um restaurante pode ouvir?”. E eles já sabem: “Senhor Gigi, já há 37 anos que ouvimos: ‘É bom mas já não é a mesma coisa’”. Essa é a pior frase.
Para além dos funcionários de há 37 anos, o que é que se mantém igual desde o início?
Portanto, na parte de equipa mudou o estilo, têm muita mania de mudar as decorações e as pessoas estão cansadas. Ainda por cima quem trabalha com pessoas do mundo inteiro, eles recomendam e de um ano para o outro a pessoa vem cá e “ah mudaram isto” porque agora há moda… agora a moda é a tendência, ou o conceito. E recomendam a uma pessoa e a pessoa chega cá e aquilo está completamente diferente e eu não defendo isso. Então tento manter. Já conheci seis administradores da Quinta do Lago, agora são irlandeses, são os meus landlord, renovam o restaurante mas querem fazer as coisas de maneira a que o cliente entre e diga: “Isto é o Gigi”. Tenho sorte.
O Gigi não é de modas, mas lançou algumas?
Não sou de modas, não sou de modas. Mas inovei um pouco. Quando cheguei ao Algarve não havia frapés. Quando ia de férias para o Algarve ia para o lado de Portimão, já era amigo da Olaria de Porches, e levei a loiça tradicional de Porches. Eles até criaram um peixe para mim, de uma figura que espero que ainda esteja cá, mas que já está reformada, que era a Ana Bôto. Era ela que pintava os peixes do Gigi, tanto que até me fez uma coisa lá para casa. Até me tentam comprar travessas. Portanto, inovei na loiça, adaptei-me ao mercado, por exemplo, o mercado do peixe. Hoje em dia já não há o peixe que havia, os linguados que havia no Algarve, aquela coisa toda, tentei trazer um peixe à posta, que é super agradável porque dá para mais partilha e não tem espinhas. Nunca tive peixe com muita espinha porque os estrangeiros não sabem arranjar. Não tive sardinhas, apesar de adorar sardinhas.
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Tem tido inovações mas nunca passou ao “é bom mas já não é a mesma coisa”.
Quem diz são os meus clientes há muitos anos. Mas tento facilitar um pouquinho. Tem esses peixes que eu gosto muito mas não é aqueles peixes do Algarve, o massacote, a sardinha, que são carregados de espinha. Ninguém come aquilo, só os portugueses, que me veem lá a comer cabeças. Já tive um cliente japonês, mais velho, que era sogro de inglês e tinha sido combatente durante a Segunda Guerra Mundial e não morreu por milagre que ele estava na parte kamikaze. Até foi ele que me escreveu aquelas coisas nas camisolas: “Grande pai, grande avô”, mas como aquilo é a língua antiga japonesa, em Manchú, aquilo eram símbolos à moda dos chineses. Mas o homem chegava lá, por exemplo, pedia três cabeças, e depois não entendia como é que não se comem cabeças, que é a parte melhor. Se visses como é que ele comia três cabeças quando eram mais pequenas, ele estava umas três horas a trabalhar naquilo, depois tinha assim um prato pequenino com as espinhas todas. Aquela calma do samurai. Meticuloso.
Com um restaurante com 40 anos de vida, imagino que tenha muitas mais histórias.
Tenho uma que na época foi a que me impressionou mais, com um casal belga que foi passar lá a lua de mel. Na altura estava na moda o kitesurf, já não era o surf, mas em lua de mel provavelmente não há tempo para fazer kitesurf. Mas gostaram tanto de ali estar, ainda era mais paraíso, que para prolongar a lua de mel venderam o material para ficar mais uma semana. Tive de ligar na altura para amigos meus para ver se queriam o material. E ajudei a vendê-lo. Talvez seja uma das histórias dos primeiros anos.
Muitas celebridades passaram por lá, desde a música à política. Quem é que gostava de receber que ainda não recebeu no Gigi?
Não sei, eles mudam. Não sei. Tem muita gente, mas eu não digo nomes, tenho lá uma figura que hoje em dia já está retirada, é irlandês, e foi uma figura espetacular e foi o alto comissário de agricultura da Europa. É uma figura fantástica de educação e de tudo. Recebi o Robert Mitterrand, recebi o Mário Soares. Mas isso era uma coisa que… não gosto… às vezes diziam me assim: “Está ali o não sei quantos, que está com uns calções tão beras”. Está normal, está na praia. Talvez a coisa mais entusiasta que eu tive foi uma fotografia que eu descobri agora. Caiu uma secretária lá em casa, estiveram-me a arrumar papéis e apareceu uma revista alemã do ano em que nós entrámos para a comunidade europeia. E eu nunca mais encontrei essa fotografia. Vejam bem que nós estamos tão desiludidos com a Europa, que a Europa já não é o que era, mas é uma fotografia do governador Cabrita Neto e ele foi lá à praia e estava lá uma revista alemã que ia fazer uma reportagem sobre a Quinta do Lago e o Gigi. E o governador apresentou-se com o seu fato de político, um fato convencional, meias até ao joelho, cinzento escuro, sapatos de atacador, tudo. E eu disse: “Oh governador, uma entrada para a Europa, para a Comunidade Europeia, tem de tirar uma fotografia na praia”. “Epah, oh Gigi!”, respondeu. Tudo convencional, fato, gravata. E eu disse: “Tem lá um quarto em baixo, tem toalhas, tem tudo, lava os pés e segue. Não tem problema nenhum.”
E foi assim? De fato para a praia?
Foi essa a conversa. Era uma emoção, nós íamos entrar para a Europa. Mal ele sabia que ia levar com 70 leis europeias. E ele foi para a praia de fato, para dentro de água com as calças arregaçadas e a bandeira na mão. Ficou melhor de fato, é uma fotografia mais icónica.
Como é que sente que a Quinta do Lago tem vindo a mudar ao longo dos anos?
Eu sou suspeito e não sou cão de dar dentadas no sítio que me dá… Mas vou dizer duas coisas. Passou 50 anos desde a fundação, desde o André Jordan, foi com quem eu fiz o primeiro contrato, e como dizia o Luis Buñuel, em relação aos dry martinis no Plaza em Nova Iorque: “O Noilly Prat tem de passar no dry martini como o Espírito Santo passou pela Virgem Maria, não estragou nada”. Nestes 50 anos não se estragou, é evidente que se adaptou aos tempos mais modernos de mais gente, mas não se estragou, e os últimos donos, que são os irlandeses, têm mantido e desenvolveram muito a parte desportiva, por causa do rugby. Tem um campus de treinos, desde o ténis até o rugby. Desenvolveram uma parte desportiva e uma parte de crianças.


E, em termos de comunidade, sente que se mantém unida?
Sim, completamente. Aliás, hoje em dia não há desemprego. Tem desde segurança, jardineiros, cozinheiros, tudo. Da parte dos estrangeiros, residentes, portanto, vamos chamar mesmo milionários, que têm casas lá, aproveitam muito os portugueses que se reformam nas terras deles e que eles trazem para cá. Trazem para a Quinta e são reformados mas não querem deixar de trabalhar. Tem um detalhe engraçadíssimo, que eu acho, é que quando se pensa em casas de milionários toda a gente imagina piscinas, saunas, ginásios, Ferraris, mas qualquer daqueles jardins muito bem tratados tem uma horta, que é o costume dos portugueses.
O Gigi também tem uma?
Tenho sim. Com cebolinho e mais umas coisas. E, por acaso, às vezes está um bocado abandonada quando a minha filha não está lá. Mas mesmo no outro dia, faltava-me uma coisa e fui lá e lá estava o cebolinho. Numa das receitas que eu tinha lá em baixo. E a salsa.
Qual foi o pedido mais inusitado que já lhe fizeram?
Às vezes fazem pedidos, não sei, fazem pedidos para se exibirem, talvez. Houve um que me pediu: “Quero mexilhões com batatas fritas”. Eu não tenho batatas fritas, nunca tive uma fritadeira. Tenho a batata cozida, mexilhões com batata cozida. Eu acho que não se estava a exibir para mim, estava a exibir para a senhora, tinha essa mania de impressionar a senhora. “Em Paris tem mexilhões com batatas fritas”. Eu disse que não tenho. “Ah mas isso é impossível. Aqui onde eu estou? Aqui no Gigi não tem batata frita?”. No final já estava cansado e disse-lhe: “Não tem porque as batatas fritas não ligam bem com o molho à marinheira dos mexilhões. As batatas fritas ligam bem em Bruxelas, os mexilhões são feitos com natas e creme, são feitos com creme de leite e em Paris também, mas principalmente em Bruxelas que é tradição creme de leite e batatas fritas. Agora, molhos marinheiros com batatas fritas não ligam. Como não há bitoques de mexilhões, não tenho batatas fritas”. Disse tudo na base da graça. Mas há esses pedidos assim. São pedidos às vezes de exibicionistas, ou é para o restaurante, mas é mais com quem eles vêm. Às vezes é uma namorada nova.
O cliente acabou por comer o quê?
Comeu os mexilhões e depois eu ensinei-o e até lhe assei umas batatas na grelha.
Lembra-se se gostou?
Ele disse que gostou.
Passados 40 anos à beira mar, ouvi dizer que nunca passou um dia inteiro a fazer praia. É verdade?
Eu não sou crocodilo nem jacaré. Eu tenho 75 de vida, mas tive 70 anos de praia. Estive depois 40 anos com praticamente 12 meses no ano [de praia]. Eu estava aqui, fechava aqui e ia para o Brasil. Tinha coisas no Brasil, portanto estive em Búzios e no Rio, portanto tive 40 anos de praia intensa, mas nunca estive na praia o dia inteiro. Provavelmente, se estivesse na praia o dia inteiro eu teria algum cancro de pele, com tanta praia que levava. Portanto, sempre fui de ir à praia, dar um mergulho, dar um toque, fazer um bocadinho de caminhada e depois voltar. E ainda estive até a trabalhar na Tailândia. Em 1990 fui lá montar um restaurante de peixe, que eles eram meus clientes e sócios do Orient-Express, e mesmo lá não fazia praia. Portanto, acho que é um bocadinho aborrecido. Estar ali de óculos escuros.
Antes o restaurante estava ainda mais perto da praia. Porque é que teve de recuar 20 metros?
Não sei. Todos os dias há uma lei. Qualquer dia tem uma lei que não se pode andar de chapéu de chuva na rua.
Não lhe custou despedir-se do espaço antigo?
Eu parto e olho sempre para a frente. Eu vivi muitos anos em Sintra, adoro Sintra, fiz uma casa emblemática lá, que até foi vendida aos pais de um ator fantástico, o Pepe Rapazote. Mas eu vivi em Sintra e trabalhava em seguros e quando cheguei aos 35 anos, ano de grandes decisões, troquei o fato e gravata pelos calções, porque sempre tive uma paixão… lá está, a tal coisa da paixão. Quando uma pessoa deixa de ter paixão para as coisas, muda para uma coisa que tenha. Gosto muito de Sintra, mas não tenho aquela nostalgia de “saudades que eu tenho de Sintra”. Não tenho. Se for lá, gosto e lembro-me dos bons momentos, os meus filhos nasceram lá, foram batizados lá na igreja de São Martinho. Se não for, eu olho para a frente. Tem que ser.
Então não sente essa nostalgia?
Não tenho, já não tenho. E depois encontrei na Quinta do Lago… eu vivo há 40 anos numa comunidade estrangeira, europeia, muitos já partiram lá para cima, mas eram sobreviventes de guerra, tanto do lado de cá como do lado de lá alemão, e que ali nunca mais falaram de guerra e jogavam golf uns com os outros, e vivo numa comunidade em que não se fala de doenças, não se criticam pessoas. E não têm nostalgias do “ah, que saudades que eu tenho”. Não se fala nessas coisas. Quando encontra um inglês num elevador ou num sítio onde não há nada para dizer, falam do tempo. The weather.

Como se sente ao ter um restaurante tão conhecido no país no que diz respeito a marisco e a peixe?
Talvez tenha sido a fama que veio de lá para cá até. Lá de fora para cá. Eu lá em baixo já vou na quarta geração. É incrível. Já há netos que levam filhos ao colo. Tive lá também, por exemplo, um que já tem filhos. Um neto de um primeiro residente que já morreu. São belgas, não vou dizer o nome. Fez questão de fazer o pedido de casamento no Gigi à noite, fechado só para ele, com champanhe, com tudo. E eu não abro à noite. Mas queria a brigada toda. Podiam ser duas pessoas, podia ser eu e a dona Leonor, como chama a minha mulher, mas ele fez questão de ter os empregados todos que gostava deste miúdo. Todo pagos. E depois fez o pedido.
E costuma ter pedidos desses assim para ocasiões especiais?
Não, tive esse, assim dessa maneira, tive esse. Depois tive o príncipe, que foi o príncipe Khalid, da Arábia Saudita, que é a terceira geração. Moram em Los Angeles e veio com a princesa, mas que já com filhos. Vêm do outro lado do mundo, por exemplo. E eu tinha, milagrosamente, uma fotografia do pai lá com o André Jordan. O pai que era príncipe saudita, da família real. Eu tinha essa fotografia, mostrei. E a princesa, a princesa que me roubou uma empregada, veja bem.
Roubou como?
Ela era estudante e estava a trabalhar lá nas férias. A princesa convenceu o pai, o pai pagou os estudos da minha empregada. Pagou tudo, a estadia em Londres para ela ir com a princesa. E ela acabou o curso em Londres. A princesa tirou o curso dela e a minha empregada a tirar o curso paga pelo príncipe. Eu mostrei o vídeo ao pai, que ficou tão emocionado que voltou este ano. Quase em lágrimas. Ver um saudita e um português a chorar é bom. Voltou este ano, o KhalidAl-Faisal, essa é das últimas histórias.
Como é que vão assinalar o 40.º aniversário do Gigi?
Vou assinalar com a festa do final do ano em que a bandeira é o peixe e fazer a minha festa de aniversário, que é um bocado festa de aniversário e festa do restaurante. Temos sempre um torneio de golf.
E este takeover anual ao JNcQUOI Avenida? O que é que o Gigi traz de cada vez que vem aqui à capital?
Quando abriu o JNcQUOI em Lisboa eu era amigo dos donos e sempre acompanhei a carreira deles e depois comecei a vir aqui como cliente nas minhas férias, porque eu fecho de dezembro a março, e nessa altura encontrei um filho, entre aspas, o chef António Bóia. E tudo tem a ver com a cozinha portuguesa, que eu gosto muito, gosto muito de quem defende Portugal. Portanto, vocês estarem a transformar Portugal na Tailândia, no Japão, principalmente em Lisboa… Você come ramen e come comida do mundo inteiro e não tem um bacalhau à Gomes de Sá. Enfim, e na altura o chef perguntou-me se eu não queria vir aqui cozinhar com ele. E desde então que trago os pratos que as pessoas mais falam, dos meus clientes lá em baixo, a tomatada, o robalo com molho siciliano, mas é tudo coisas muito simples. A cozinha sempre foi simples, na minha opinião. E há umas pessoas que gostam de complicar aquilo, que é para dar um ar assim um bocadinho pretensioso. Como aqui se faz simples e lá faz simples, é essa a razão.
Há algum prato do Gigi com o qual não consiga viver sem?
Eu como a comida do staff. Mas gosto muito de peixe. Para mim o forno é o segredo do restaurante. Eu não tenho na praia porque o forno ainda dava mais calor. E a comida de forno de peixe é uma comida de inverno. O peixe português de inverno é o forno e o peixe português de verão é a grelha.
O Gigi vai estar sempre associado ao restaurante mas gostava de ser reconhecido por alguma outra coisa ou feito?
Não sei. Eu já tenho um editor, não vou dizer também o nome, mas ele é meu amigo da vossa área, e andava quase a brigar comigo para eu escrever um livro de memórias com receitas e eu estou a escrever agora. Tenho muita coisa solta. Muito lembrete solto. Mas vou deixar esse livro, que não é um livro de receitas. Acho que os livros de receitas já foram todos escritos. Esse editor é um grande cozinheiro de cozinha portuguesa e defensor. Mas este é um livro de histórias com receitas. E receitas com histórias.
Quando é que prevê que esteja pronto para ser lançado?
Talvez para o ano. Eu tenho 75 anos e tenho adiado. Mas eu gostava de trabalhar até partir, não gosto da palavra morrer. Eu tenho uma frase francesa, que digo muito, que é: “Gosto de estar sempre na mesa do meu restaurante”.