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(A) :: José começou no karaté, passou pelo triatlo e meteu na Cabeça que ia aos Jogos de Inverno. Agora, a trabalhar em Oslo, sonha com mais

José começou no karaté, passou pelo triatlo e meteu na Cabeça que ia aos Jogos de Inverno. Agora, a trabalhar em Oslo, sonha com mais

Elite dos desportos de inverno concentra-se em Itália, nos Jogos Olímpicos de Inverno. Portugal volta a ter três atletas, entre os quais José Cabeça, e quer melhorar os resultados de Pequim-2022.

Tiago Gama Alexandre
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São heróis sem capa e guerreiros sem espada. Quando grande parte da humanidade pensa em recolher e em abrigar-se, eles desafiam a meteorologia e aventuram-se em longas missões no exterior. Trocam o quente e o conforto do sofá pelo gelo e pela neve das montanhas mais altas do mundo. Escolhem as temperaturas negativas em detrimento do calor de uma lareira. Tudo por um bem maior: a missão de se desafiarem a si mesmos e de enfrentarem os melhores do mundo. Afinal, qualquer um deles figura entre os melhores do planeta, categoria que está, naturalmente, destinada aos predestinados que passam quatro anos da sua vida a lutar por registos e marcas que permitam o apuramento para os Jogos Olímpicos. Chegar à maior competição desportiva do mundo já é, para muitos, uma vitória, mesmo que a medalha pareça longe.

Nos últimos meses do ano, o calor e o sol do verão tendem a desaparecer no que ao hemisfério norte diz respeito. Se é nesta altura que grande parte das modalidades desportivas tendem a entrar na fase decisiva, o mesmo não se pode dizer dos desportos de inverno, que têm o seu início quando os termómetros atingem os números mais baixos e as montanhas se revestem de um enorme manto branco. É nessa condição que, a partir do próximo dia 4 de fevereiro, os melhores atletas de desportos de inverno vão estar em Itália a competir na 25.ª edição dos Jogos Olímpicos de Inverno. As provas vão decorrer até ao dia 22 do mesmo mês, seguindo-se a competição destinada aos desportistas paralímpicos (de 4 a 15 de março).

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Os locais, a disciplinas e onde ver: Milão-Cortina recebe os Jogos de Inverno de 2026

Depois de uma passagem pelo continente asiático, com Pequim a acolher a edição de 2022 dos Jogos Olímpicos de Inverno, a competição organizada pelo Comité Olímpico Internacional (COI) regressa à Europa, com Milão e Cortina d’Ampezzo, no nordeste de Itália, a receberem a 25.ª edição da competição desportiva mais importante do planeta. À semelhança do que se sucede com os desportos de verão, os Jogos de Inverno acontecem a cada quatro anos, embora só tenham aparecido em 1924, depois de a primeira edição ter sido cancelada devido à I Guerra Mundial. Esta é a quarta vez que os Jogos Olímpicos viajam até território transalpino, depois de 1956 (Inverno, em Cortina d’Ampezzo), 1960 (Verão, em Roma) e 2006 (Inverno, em Turim). Para 2028 está reservada a edição de Inverno da Juventude, em Dolomiti Valtellina. Em termos paralímpicos, Itália recebeu as edições de 1960 (Verão, em Roma) e 2006 (Inverno, em Turim).

Apesar de a cerimónia de abertura estar marcada para o dia 6 de fevereiro (sexta-feira), as competições desportivas arrancam dois dias antes, no dia 4, com curling, hóquei no gelo e snowboard a abrirem as hostilidades. Esta é a edição de estreia do esqui alpino e também é a primeira sob a presidência de Kirsty Coventry, que foi eleita para o cargo máximo do COI no ano passado. Assim, o programa olímpico conta com 16 disciplinas, mais uma face a 2022: biatlo, bobsleigh, combinado nórdico, curling, esqui alpino, esqui de fundo, esqui freestyle, esqui de montanha, hóquei no gelo, luge, patinagem artística, patinagem de velocidade, patinagem de velocidade em pista curta, salto de esqui, skeleton e snowboard. No total, são 116 os eventos de medalhas (mais sete face a Pequim), que terminam no dia 22 (domingo), com a final masculina de hóquei no gelo. Nesse dia está também aprazada, como habitual, a cerimónia de encerramento.

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Com foco na igualdade de género, uma das bandeiras do mandato de Thomas Bach, antigo presidente do COI, para este ciclo olímpico, a edição de 2026 dos Jogos Olímpicos de Inverno conta com a maior representação feminina de sempre, que passou de 40%, em 2022, para 47%, em 2026. Assim, são 1.362 as mulheres que vão competir em Itália, às quais se juntam 1.538 atletas masculinos, com a quota a passar para os 2.900 desportistas (mais oito) oriundos de 93 Comités Olímpicos Nacionais e Neutros, como é o caso dos atletas russos e bielorrussos. Em estreia estão Benim, Guiné-Bissau e Emirados Árabes Unidos. No que concerne ao desporto feminino, o COI adicionou mais quatro eventos em relação a Pequim-2022, passando o total para 50.

Para esta edição, o COI implementou mais uma novidade e permitiu que os eventos sejam realizados em distâncias superiores a 160 quilómetros entre si. Assim, a cerimónia de abertura terá lugar no mítico San Siro, o estádio de AC Milan e Inter Milão, com o encerramento a acontecer na Arena de Verona. No total foram criados 25 locais de eventos, distribuídos por quatro localidades no norte de Itália. Ao todo, estas Olímpiadas decorrerão numa área estimada de 220 mil quilómetros quadrados, perfilando-se como as maiores de sempre da história olímpica. De forma inédita, a transmissão em Portugal poderá ser acompanhada através de dois canais televisivos: Eurosport e RTP. Para além da tradicional transmissão assegurada pelos canais televisivos dos operadores, os Jogos Olímpicos de Inverno têm cobertura streaming via HBO Max e canais RTP Desporto, disponíveis na RTP Play.

Milão

  • Estádio Olímpico de Milão (San Siro, Cerimónia de Abertura) – 75.817 espectadores
  • PalaItalia Santa Giulia (hóquei no gelo) – 11.800
  • Fiera Milano (centro de média, hóquei no gelo e patinagem de velocidade) – 5.800/7.500
  • Milano Forum (patinagem artística e patinagem de velocidade em pista curta) – 11.500
  • Vila Olímpica
  • Catedral de Milão (praça das medalhas)

Cortina d’Ampezzo

  • Pista Olímpica de Tofane (esqui alpino) – 7.000
  • Estádio Olímpico de Cortina d’Ampezzo (curling) – 3.000
  • Südtirol Arena (biatlo) – 19.000
  • Cortina Sliding Centre Eugenio Monti (bobsleigh, luge e skeleton) – 5.500
  • Vilas Olímpicas de Cortina e Anterselva

Valtellina

  • Stelvio (esqui alpino e esqui de montanha) – 7.000
  • Livigno (snowboard e esqui freestyle) – 2.000/8.400
  • Vilas Olímpicas de Bormio e Livigno

Val di Fiemme

  • Giuseppe Dal Ben Arena (saltos de esqui e combinado nórdico) – 5.000
  • Fabio Canàl Center (esqui de fundo e combinado nórdico) – 15.000
  • Vila Olímpica de Predazzo

Verona

  • Arena Olímpica de Verona (cerimónia de encerramento) – 15.000

José Cabeça, o designer que chega aos Jogos com apenas dois meses de treinos

Nasceu em Évora, tem 29 anos e é uma das aspirações portuguesas a conseguir um bom resultado em Milão-Cortina. A frase pode parecer paradoxal, principalmente na fase inicial, mas não é. José Cabeça repete em Itália a participação de estreia que teve em Pequim-2022, mas numa fase bastante diferente da sua vida. Afinal, há quatro anos, tinha chegado aos Jogos Olímpicos com apenas dois meses de treino na neve. “A primeira vez que esquiei na vida foi a 4 de janeiro de 2020, dois anos antes dos Jogos Olímpicos. Estive dois meses em França a iniciar a prática de esqui de fundo, sem qualquer tipo de ajuda técnica. Era só tentativa e erro e visualização de vídeos do YouTube. Depois estive apenas os dois meses antes dos Jogos com um treinador, que me acompanhou, e a evolução foi drástica. A minha qualificação foi feita com dois meses de neve e duas provas em neve — a Taça Europeia e o Mundial, no início de 2021. Depois passei pelas cinco provas necessárias para finalizar a qualificação olímpica. Foi um percurso muito rápido e que não permitiu fazer mais do que fiz”, começou por dizer o esquiador em entrevista ao Observador.

“Jogos de 2022? O que mais recordo é a dificuldade que foi aprender a esquiar. Quando meto uma coisa na cabeça, tenho de a fazer, por isso gosto de dar a conhecer quais são os meus objetivos antes de eles começarem. Disse a toda a gente que conhecia que ia aos Jogos Olímpicos em 2022 neste desporto, sem o ter começado, sequer. Lembro-me da primeira vez que esquiei, pensei ‘Porque é que me vim meter nisto?’. Na altura era um triatleta bastante razoável. Podia ter ficado quieto a fazer o meu desporto, mas acho que foi muito positivo para mim, porque mostrou-me que, se eu acreditar em alguma coisa, é possível alcançá-la, por muito difícil que seja. Ter ido aos Jogos Olímpicos foi das melhores experiências da minha vida. Foi um sonho tornado realidade. Parecia uma criança numa loja de doces ilimitados. É essa a descrição que o meu treinador utiliza”, explicou Cabeça que, antes de chegar ao esqui de fundo, praticou diversos desportos, chegando longe no triatlo.

“A minha ligação com o desporto começou quando tinha cerca de cinco anos, quando comecei a praticar karaté na minha cidade natal. Depois disso começou a crescer o amor por realizar desporto constantemente. Com o passar dos anos comecei a desenvolver-me, na natação, no triatlo e, no presente, no esqui de fundo. Foi um amor à primeira vista. Sempre fui uma criança muito ativa e tinha o sonho de ir aos Jogos Olímpicos desde os seis anos. A minha vida foi sempre atrás do sonho de conseguir ser bom no desporto, mesmo não sabendo em qual desporto. O karaté, inicialmente, deu-me a capacidade de trabalho e o foco num objetivo. Aprendi que, com trabalho, tudo se consegue. A natação e o triatlo foram o mais importante em termos de desenvolvimento físico e das capacidades respiratória e muscular. A prática da natação, desde os 12 anos, ajudou-me a atingir o nível físico necessário para, neste momento, competir ao mais alto nível. No triatlo competi num nível bastante elevado e isso só aconteceu por causa do trabalho realizado durante um longo período de tempo, sempre com o foco num objetivo futuro. Isso devo-o a todos os desportos que fiz antes e que me ajudaram a chegar ao esqui de fundo e conseguir atingir uma técnica e um nível muito mais elevados”, assumiu o atleta olímpico.

Para estes Jogos, José Cabeça revelou que um bom resultado é “cortar a tabela a metade”, tendo em conta que foi 88.º (de 99 participantes) há quatro anos, depois de se ter qualificado em 98.º. “Nos últimos quatro anos tenho treinado como um atleta profissional e continuado o trabalho que foi iniciado em dezembro de 2021 com os meus treinadores. A evolução que aconteceu foi incrível. Não é possível evoluir mais rápido do que eu evoluí. Ainda não é tempo suficiente para evoluir para representar Portugal como quero – ganhar uma medalha –, mas vou ter um resultado muito mais elevado do que tive nos últimos Jogos. Conheço muitos atletas de outros países que estão impressionados com o meu desenvolvimento. Tem sido tudo à base de trabalho árduo e de foco na técnica e no treino. Estes Jogos vão ser totalmente diferentes. Vou, pela primeira vez, com um nível elevado, que era o meu principal objetivo. É mais um passo na minha carreira que, se tudo correr bem, vai continuar por mais uns largos anos. Como esquiador nunca estive melhor, nem perto deste nível. Foi uma grande diferença face ao triatlo, em que é bom ser leve e que é um desporto de repetição”, acrescentou.

"Conheço muitos atletas de outros países que estão impressionados com o meu desenvolvimento. Tem sido tudo à base de trabalho árduo e de foco na técnica e no treino. Estes Jogos vão ser totalmente diferentes. Vou, pela primeira vez, com um nível elevado, que era o meu principal objetivo. É mais um passo na minha carreira que, se tudo correr bem, vai continuar por mais uns largos anos. Como esquiador nunca estive melhor, nem perto deste nível"
José Cabeça, esquiador olímpico, em entrevista ao Observador

“O esqui de fundo é dos desportos mais técnicos que existe e em que tudo pode mudar. O tipo de neve muda a técnica com que esquiamos. Em termos de capacidade que tenho de superar a dificuldade, quer do material quer do tipo de neve, nunca estive perto deste nível. Comparando com o Mundial do ano passado, acho que vou mostrar que estou a um nível muito mais elevado. Em termos de expectativas, foi mais fácil em 2022 do que vai ser agora. Em 2022 fiz tudo o que podia e era impossível fazer mais em dois meses. Para estes Jogos há muito trabalho, alguns sacrifícios, trabalho árduo e muito investimento”, referiu.

“Se não estiver perto do que acho na minha cabeça, é tudo menos motivador. Depois deste resultado, vai ser bastante difícil melhorá-lo, embora eu tencione melhorá-lo nos próximos Jogos [risos]. Espero colocar a fasquia bastante elevada. Acho que vou estar um bocadinho mais nervoso desta vez, pois sabia que, em 2022, não havia muito mais a fazer. A seguir ao esqui? Ainda está bastante longe. Quando terminar a carreira de esquiador profissional, tenciono voltar ao triatlo na longa distância, por um ou dois anos. Acho que o triatlo ficou um bocadinho parado a meio e acredito que ainda consigo chegar a um nível elevado na longa distância. Provavelmente o único desporto que vou fazer, fora desses, é jogar golfe. E está bom [risos]”, assumiu ainda o eborense.

Por ser oriundo de um país, e de uma região, pouco característicos no que à neve diz respeito, José Cabeça viu-se obrigado a sair de Portugal para partir em busca do sonho de se profissionalizar na modalidade. “O meu início na modalidade veio de eu estar a ver os Jogos Olímpicos de 2018 na televisão e de achar que tinha bastante conexão com o triatlo, onde eu era atleta. Vi o quão difícil era, em termos físicos, de terminar uma prova de esqui de fundo e isso apaixonou-me um pouco e deu-me o bichinho de tentar. Quando tentei, o objetivo foi simples: chegar do zero aos Jogos Olímpicos. Isso é mais acessível sendo português, porque se eu fosse norueguês e tivesse visto esqui pela primeira vez aos 24 anos, não teria ido aos Jogos Olímpicos. Nem agora, depois de cinco anos de trabalho, estou no nível deles. É algo que demora bastante tempo e em que é preciso muito trabalho, foco e muito treino. Vi que tinha a capacidade física necessária vindo do triatlo e tentei ver o que é que conseguia. Fui para França para começar a esquiar. Para eu tentar ser bom esquiador em Portugal, tinha de haver um trabalho feito de muitos anos e uma base de clube e formas de ensinar a vertente de verão”, realçou Cabeça.

“Neste momento vivo em Oslo e posso dizer que estou a olhar pela janela para a pista de esqui e há cerca de 100 atletas de todas as idades, desde os cinco até aos 30 anos, a esquiar e a treinar, quer biatlo quer esqui de fundo. É um nível totalmente diferente e é por isso que eles são os melhores do mundo. Provavelmente serão os vencedores de todas as provas do esqui de fundo em Milão-Cortina. Não posso dizer que estou em pé de igualdade com eles. Comecei a esquiar quase aos 24 anos e alguns deles até começam a esquiar antes de conseguirem andar. Não vejo isso como uma desculpa porque tenho todas as possibilidades de treinar ao mais alto nível. Tento melhorar o máximo em termos técnicos para atingir o nível dos atletas de Noruega, Suécia, Suíça e Finlândia. Quero provar que, mesmo vindo de um sítio sem neve, é possível chegar ao topo se o trabalho for bem feito. Não depende de onde nascemos, depende do que queremos fazer e do que estamos dispostos a fazer para tornar isso realidade. O que eu escolho fazer entre os 23 e os 29 anos depende de mim, não depende deles. Provavelmente, nestes cinco anos, evoluí mais do que todos os atletas que treinam nesta pista. Sem tempo e trabalho não se chega a lado nenhum”, disse o esquiador, que contou ainda que trabalhar com dois treinadores: um de esqui (Ragnar Bragvin) e um de triatlo (Arild Tveiten).

“Ambos cooperam para me tentar desenvolver da melhor forma como atleta, o que é incrível. O Arild foi o treinador que criou todo o triatlo na Noruega e era o treinador do Kristian Blummenfelt quando ele se sagrou campeão olímpico de triatlo, em 2021. Estamos a falar de um nível bastante elevado no desporto. Apenas o Ragnar vai-me acompanhar em Itália, porque o Arild tem um cargo importante na federação de natação, que está a tentar reformular. Para além disso, Portugal só pode levar um treinador por atleta. Rotina? É simples, o mais aborrecido que pode haver. Acordo, faço o pequeno-almoço, como, vou treinar, acabo de treinar, como, durmo a sesta, acordo, como, vou treinar, acabo de treinar, como e durmo. É assim todos os dias, sem exceções”, contou José Cabeça ao Observador.

“Portugal? Infelizmente não passo tanto tempo como gostaria. Este ano [2025] estive em Portugal cerca de duas vezes e não mais de dois meses. É complicado… Em Portugal é difícil de treinar e não é seguro treinar na estrada. Treinar em zonas industriais é bom até um certo nível. É como um nadador só ter uma piscina de 12 metros. Também estou no Dubai, que foi onde arranjei poder económico para investir nisto. Se não fosse o meu patrocinador do Dubai, era impossível atingir este nível, pois a Noruega é tudo menos barata [risos]”, explicou José Cabeça, acrescentando que a mudança para os Emirados Árabes Unidos, “a meio de 2020”, foi fulcral para ter chegado aos Jogos Olímpicos.

"Acho que o que estou a fazer é tentar provar a todas as crianças e mesmo adultos que têm um sonho que, embora seja difícil e por vezes pareça impossível, basta acreditar e trabalhar todos os dias. No final vai ser possível. O meu objetivo é chegar ao nível mais alto do desporto para provar que é possível, mesmo em idades mais avançadas. Se acreditarmos em nós é muito mais fácil porque é contagioso"
José Cabeça, esquiador olímpico, em entrevista ao Observador

“Arranjei os meios monetários necessários para conseguir fazer aquilo que fiz. O esqui de fundo é um desporto muito caro, em que é necessário muito material. Para além disso, se eu quero aprender com os melhores, os treinadores são caros, não são baratos. Tenho ainda a bolsa olímpica do COI e tenho apoio da FDI. Se não fosse atleta? Podia ser treinador ou designer, que é algo que faço nas minhas horas vagas e gosto bastante. Fui eu que desenhei, em cooperação com a Federação, o equipamento que os atletas portugueses vão utilizar nas provas dos Jogos Olímpicos de Inverno. Não há muito tempo fora da vida de atleta. Adoro a vida de atleta, mas nem sempre é fácil. Por exemplo, não vejo a minha família desde agosto e só os vou poder ver depois dos Jogos. Não tive Natal nem Passagem de Ano porque tenho que ter a certeza que estou saudável para atingir o melhor nível nos Jogos e representar Portugal da melhor forma. Diria que poder desenhar e fazer alguns designs é algo que gosto de fazer e me dá prazer fora do sofrimento do treino [risos]”, completou.

Por fim, José Cabeça deixou uma mensagens aos jovens que, como ele, sonham atingir o patamar mais elevado de um desporto periférico em Portugal. “Não interessa de onde vimos, interessa é o quanto queremos. Não interessa se temos poder económico ou as possibilidades de realizar o desporto que queremos no sítio em que estamos. Há sempre formas de trabalhar para melhorar. Acho que o que estou a fazer é tentar provar a todas as crianças e mesmo adultos que têm um sonho que, embora seja difícil e por vezes pareça impossível, basta acreditar e trabalhar todos os dias. No final vai ser possível. O meu objetivo é chegar ao nível mais alto do desporto para provar que é possível, mesmo em idades mais avançadas. Se acreditarmos em nós, é muito mais fácil porque é contagioso. Quanto mais acreditarmos em nós, mais as outras pessoas vão acreditar. É uma bola de neve que nos vai levar para a frente e fazer com que sejamos cada vez melhores”, cimentou.

O apuramento que caiu por muito pouco, superar Pequim-2022 e um olhar sobre o futuro

Para esta participação nos Jogos Olímpicos de Inverno, o objetivo da comitiva portuguesa é conseguir superar os resultados alcançados em Pequim-2022, tal como assumiu Pedro Flávio em entrevista ao Observador. “A Vanina e o José estiveram nos Jogos de Pequim, mas o Emeric é um jovem atleta, irmão da Vanina, tem 18 anos, que participou nos últimos dois eventos olímpicos – Festival Olímpico da Juventude de Inverno e Jogos Olímpicos de Inverno da Juventude – e teve resultados interessantes”, frisou.

“É um atleta que tem uma possibilidade grande de evolução e conseguiu o feito extraordinário de se qualificar para as provas de velocidade. Desde Lillehammer-1994 que Portugal não tem um atleta a participar nesta disciplina no esqui alpino. Neste caso vai fazer só o super-G, não vai fazer o downhill por opção técnica. Depois participará no slalom gigante e no slalom, assim como a Vanina. O José é um atleta com alguma experiência e que tem evoluído bastante nos últimos anos. Acho que vai estar em melhor forma nestes Jogos e conseguir um resultado bem acima do que aquilo que conseguiu em Pequim. Isso é evidente pelo resultado (17.º) que teve no Campeonato do Mundo, onde abriu a vaga com uma pontuação muito superior aos anteriores Jogos”, explicou o Chefe da Missão.

Por outro lado, Portugal ficou bastante perto de voltar a fazer história e contar com um quarto elemento na representação, mas uma mudança nas regras de apuramento para a competição inviabilizou a qualificação da jovem patinadora Jéssica Rodrigues. “Fez um feito incrível, que foi ficar apurada nas 24 atletas que vão participar na patinagem de velocidade no gelo, na disciplina de Mass Start, mas não conseguiu fazer o tempo mínimo numa das distâncias (500 metros, 1.000, 1.500 ou 3.000). Ficou muito perto, a um segundo e qualquer coisa, nos 1.000 metros. Era condição para poder participar. Nos últimos Jogos essa exigência não existia, logo ficar nos 24 primeiros era suficiente. Na patinagem de velocidade tivemos uma participação, com o Fausto Marreiros, nos 5.000 metros, em 1998… teria sido histórico, mas ficará com toda a certeza para 2030. A Jéssica tem um potencial enorme, foi campeã do mundo júnior de patinagem de velocidade, em Mass Start”, acrescentou Flávio.

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Por se tratar de um desporto que se encontra em processo de crescimento num país predominantemente de calor, a preparação dos atletas olímpicos é, naturalmente, feita no estrangeiro. No caso de Emeric e Vanina, dois luso-franceses filhos de mãe portuguesa, os treinos passam pela região dos Alpes franceses, onde vivem: “Têm feito um trabalho muito focado na preparação em termos técnicos, com participação em muitas competições internacionais. O Emeric está muito focado na velocidade, em que também tentou a qualificação. As provas de velocidade são muito exigentes e precisam de um máximo de 80 pontos. Nas provas técnicas o máximo são 120 pontos – quanto menos pontuação, melhor. No super-G tem objetivos bem definidos de conseguir um resultado bom”.

Por outro lado, José Cabeça, que nasceu em Évora, trabalha na Noruega, onde treina com um treinador norueguês. “Está integrado com atletas de um nível competitivo muito elevado. Tem evoluído muito porque tem treinado diariamente com esses atletas. Faz muitas competições de roller ski [esqui com rodas, n.d.r.] no verão e de esqui de fundo durante o inverno. O roller ski é a modalidade de verão do esqui de fundo e também pontua [para os Jogos Olímpicos]”, referiu Pedro Flávio.

“Nunca se fala tanto de desportos de inverno como no ano dos Jogos Olímpicos, que só acontecem de quatro em quatro anos. Estes atletas trabalham durante o ciclo olímpico para o que se concretiza agora. Campeonatos do Mundo e Campeonatos da Europa são muito importantes, mas nada se equipara à visibilidade e à importância de participar nos Jogos Olímpicos. O trabalho não se restringe apenas à participação olímpica. É preciso fazer todo o trabalho de preparação e de acompanhamento. O Comité Olímpico de Portugal tem feito uma aposta forte para que os atletas possam participar em eventos de índole olímpica. Para nós, FDI, é importante promovermos as nossas modalidades e fazê-las chegar ao público português. Temos milhares de portugueses que seguem e praticam as modalidades de inverno enquanto modalidades de lazer. Com isso vamos identificar mais jovens atletas, que querem seguir os passos destes atletas. O nosso trabalho também é promover e dinamizar as modalidades. Muitos dos filhos de portugueses que foram para fora do país são hoje praticantes destas modalidades e podem vir a ser atletas. O José e a Jéssica são exemplos de atletas formados em Portugal que fizeram o seu percurso em Portugal até chegarem aos topo máximo dos desportos de inverno”, sublinhou o presidente da federação nacional.

https://observador.pt/2025/02/09/jessica-rodrigues-sagra-se-campea-mundial-junior-de-patinagem-de-velocidade-no-gelo/

Nesta entrevista ao Observador, Pedro Flávio explicou ainda que as condições para a prática destas modalidades “têm melhorado significativamente”, sendo importante os apoios de Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ) e COP. “Temos atletas que já estão identificados para o próximo ciclo olímpico como esperanças olímpicas. Tudo isto está a aproximar-se das modalidades de verão. Quando se chega a um nível competitivo mais elevado, os atletas têm que ir para zonas mais específicos para fazerem a preparação. É um caminho que temos de fazer e adaptar. Nós, FDI, tentamos criar as infraestruturas. Cada federação internacional tem programas de acompanhamento para o seu país e para os países que têm as modalidades em desenvolvimento. A Federação Internacional de Esqui e Snowboard (FIS) tem programas específicos de acompanhamento destes países. Isso é muito importante, porque dá condições para que estes atletas possam trabalhar da melhor maneira possível. De outra forma não seria possível”, realçou Flávio, que assumiu que Portugal é lembrado internacionalmente como um exemplo.

“O investimento no desporto é sempre excelente, seja em que desporto for. Estamos todos a trabalhar com o mesmo objetivo, de ter jovens mais saudáveis e mais virados para o desporto. Há muita gente a gostar e a seguir desportos de inverno em Portugal. O Brasil vai ter a sua maior delegação de sempre nos Jogos Olímpicos de Inverno, com 14 atletas, e é um país sem tradição nos desportos de inverno. Portugal já deu provas que os desportos de invernos estão para ficar. Na patinagem de velocidade, Portugal tem sido dado como um exemplo internacional. Somos um país que há cinco anos não tinha nada e agora tem atletas a ficar nos 24 primeiros no final da qualificação olímpica. Os desportos de inverno têm futuro em Portugal. Já connosco na federação, tivemos dois atletas em Sochi-2014, dois em Pyeongchang-2018, três atletas em Pequim-2022 e vamos voltar a estar com três atletas, com a novidade de participarmos na disciplina de velocidade. Portugal participou pela primeira vez nos Jogos Olímpicos em 1952, voltando em 1988, mas sempre com participações dispersas porque não havia um trabalho específico. Isso começou a acontecer de uma forma muito concreta em 2010/2012″, recordou.

“Os resultados são reveladores do trabalho que tem vindo a acontecer. Essa aposta começa na base. Só vamos colher frutos de algum do trabalho que está a ser feito daqui a alguns anos. Penso que, nos próximos Jogos, vamos participar em modalidades onde ainda não participámos, como o snowboard ou a patinagem artística. É um trabalho que precisa de consolidação para que os resultados apareçam. É esse o nosso foco. O apoio começa nas camadas mais jovens, aos clubes, que precisam de desenvolver o seu trabalho. Isso só acontece com estratégia, investimento, financiamento, trabalho e coesão entre todos estes fatores. Conselho aos mais jovens? Aproveitem ao máximo, foquem-se nos objetivos, sigam o vosso sonho e acreditem que tudo é possível. Com dedicação, empenho e as condições ideais, tudo é possível. Se quisermos muito, um dia vamos chegar lá. Os Jogos Olímpicos são o exemplo perfeito para que os jovens possam acreditar, sigam o sonho e para que daqui a uns anos possam estar lá como estes atletas vão estar em Milão-Cortina”, disse Pedro Flávio.

Por fim, o Observador questionou o presidente da FDI sobre a arena de desporto de inverno que vai nascer no Seixal no final do próximo ano e em que ponto se encontra o seu processo de construção. “Em outubro de 2025 foi feito o contrato de cedência do terreno para a construção. Neste momento estamos na fase de finalização e aprovação do projeto junto do IPDJ e do Município do Seixal. Depois dessa concretização, o objetivo é avançarmos para a construção. Esta infraestrutura faz muita falta aos desportos de inverno, à federação e ao país. Portugal precisa de uma infraestrutura deste tipo para realizar eventos internacionais e trazer outros países a treinarem em Portugal. Os países do norte da Europa, os Estados Unidos e o Canadá têm vontade de vir a Portugal fora das suas épocas desportivas e utilizarem uma infraestrutura como esta para fazer a sua preparação. Acho que Portugal tem muito a ganhar com isso. Quando existir uma infraestrutura adequada, com as melhores condições possíveis, os nossos resultados e os nossos resultados vão aparecer. Vão haver mais atletas e clubes a trabalhar”, concluiu o dirigente.

O calendário da comitiva portuguesa (que volta a ter três atletas)

A história de Portugal nos Jogos Olímpicos de Inverno remonta ao ano de 1952, 40 anos depois da estreia na competição de verão. Na altura, em Oslo, Duarte Silva representou o país no downhill, terminando no 69.º lugar. Depois de um longo período de ausência, a comitiva portuguesa voltou em Calgary-1988, com António Reis, João Poupada, João Pires, Jorge Magalhães e Rogério Bernardes a comporem a equipa de bobsleigh que chegou ao 34.º lugar na vertente de duas pessoas e ao 25.º na de quatro pessoas. Em Lillehammer-1994, Jorge Mendes foi o representante de Portugal no esqui alpino (32.º no slalom gigante e 41.º no downhill), ao passo que, em Nagano-1998, a delegação nacional teve, pela primeira vez, dois representantes: Mafalda Pereira (esqui freestyle) e Fausto Marreiros (patinagem de velocidade).

A edição seguinte foi a última que não contou com Portugal, que chega a Itália a participar em seis edições consecutivas dos Jogos Olímpicos de Inverno. Em Turim-2006, Danny Silva foi 93.º no clássico masculino do esqui de fundo e 95.º nos 15 quilómetros estilo livre em Vancouver-2010. Quatro anos depois, em Sóchi-2014, Portugal teve uma dupla no esqui alpino, com Camille Dias a conseguir o 40.º posto no slalom e um 59.º no slalom gigante, ao passo que Arthur Hanse não completou as mesmas provas. Na Coreia do Sul, em Pyeongchang-2018, os desportos de inverno portugueses voltaram a fazer história, conseguindo apurar atletas em modalidades diferentes pela primeira vez: Hanse (38.º no slalom e 66.º no slalom gigante) e Kequyen Lam (133.º nos 15km livre do esqui de fundo). Por fim, em Pequim-2022, Portugal teve pela primeira vez três atletas, com Ricardo Brancal (37.º no slalom gigante e 39.º no slalom) e Vanina Guerillot (43.ª no slalom gigante e desistente no slalom) a qualificarem-se no esqui alpino, e José Cabeça (88.º nos 15km clássico) no esqui de fundo.

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Em 2026, Vanina Guerillot e José Cabeça repetem a presença nos Jogos Olímpicos de Inverno, com Emeric Guerillot a estrear-se neste patamar. Os irmãos Guerillot estarão em ação no esqui alpino, sendo que o novato é o primeiro a entrar em ação, com o início do super-G marcado para 11 de fevereiro. Segue-se o slalom gigante, no dia 14, e o slalom, a 16 de fevereiro. Já Vanina vai participar no slalom gigante no dia 15 e no slalom no dia 18. Por outro lado, Cabeça é o representante português no esqui de fundo, atuando na prova de sprint no dia 10 e nos 10km livre a 13. Pedro Flávio, presidente da Federação de Desportos de Inverno de Portugal (FDI-Portugal), é o Chefe da Missão portuguesa em Milão-Cortina, que conta ainda com os treinadores Sérgio Figueiredo, Yannick Guerillot (esqui alpino) e Ragnar Bragvin (esqui de fundo), bem como o fisioterapeuta Tiago Rosa.

Terça-feira, 10 de fevereiro

  • José Cabeça (sprint clássico, esqui de fundo) — 9h55 (qualificação)
  • José Cabeça (sprint clássico, esqui de fundo) — 12h15* (quartos de final)
  • José Cabeça (sprint clássico, esqui de fundo) — 12h57* (meias-finais)
  • José Cabeça (sprint clássico, esqui de fundo) — 13h25* (final)

Quarta-feira, 11 de fevereiro

  • Emeric Guerillot (super-G, esqui alpino) — 11h30

Sexta-feira, 13 de fevereiro

  • José Cabeça (10km livre, esqui de fundo) — 11h45 (partida intervalada)

Sábado, 14 de fevereiro

  • Emeric Guerillot (slalom gigante, esqui alpino) — 10 horas (descida 1)
  • Emeric Guerillot (slalom gigante, esqui alpino) — 13h30* (descida 2)

Domingo, 15 de fevereiro

  • Vanina Guerillot (slalom gigante, esqui alpino) — 10 horas (descida 1)
  • Vanina Guerillot (slalom gigante, esqui alpino) — 13h30* (descida 2)

Segunda-feira, 16 de fevereiro

  • Emeric Guerillot (slalom, esqui alpino) — 10 horas (descida 1)
  • Emeric Guerillot (slalom, esqui alpino) — 13h30* (descida 2)

Quarta-feira, 18 de fevereiro

  • Vanina Guerillot (slalom, esqui alpino) — 10 horas (descida 1)
  • Vanina Guerillot (slalom, esqui alpino) — 13h30* (descida 2)

*Em caso de apuramento