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O que é a perturbação de conduta? 11 perguntas sobre comportamentos sistematicamente agressivos na infância e na adolescência

Mentir, agredir, faltar às aulas ou fugir de casa são comportamentos que podem ter várias causas e significados, ocultar grande sofrimento emocional e levar a ansiedade, baixa autoestima ou depressão.

Sara Dias Oliveira
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1 O que é a perturbação de conduta?

É uma perturbação do comportamento desestabilizadora. Caracteriza-se por padrões persistentes de comportamento agressivo, desrespeito por regras e violação dos direitos dos outros, sobretudo na infância e na adolescência.

Estes comportamentos refletem, muitas vezes, dificuldades graves na regulação emocional, no controlo dos impulsos e na adaptação às normas sociais. “Não se trata de episódios pontuais de birras ou comportamentos de desafio, mas de comportamentos repetidos que causam um impacto significativo na vida familiar, escolar e social”, diz a psicóloga Catarina Chaves.

2 Como se manifesta ao certo?

Manifesta-se através de um padrão repetitivo e persistente de violação de direitos dos outros ou de normas sociais, através de agressividade contra pessoas ou animais, destruição de propriedade, fraude ou roubo ou violação grave de regras, por exemplo. “Os sintomas podem incluir mentir, roubar, agressões físicas, destruir objetos ou vandalizar, faltar às aulas ou até fugir de casa.”

Não se trata de um comportamento de desafio, provocador, que acontece ocasionalmente, e que pode ser comum e normativo durante a infância e a adolescência, mas de um padrão de comportamento disruptivo que acontece de forma repetida.

“Uma criança ou adolescente que falta frequentemente às aulas, desafia constantemente as regras impostas pelos professores, rouba ou estraga as coisas dos colegas e os agride ou ameaça de forma repetida, não demonstrando remorsos pelo comportamento ou preocupação com os sentimentos dos outros”, especifica a psicóloga.

 

3 Quais são as causas?

Não é conhecida uma causa única. A investigação sugere que fatores genéticos, ambientais e biológicos podem levar ao desenvolvimento desta perturbação. Tanto pode resultar da combinação de um ambiente familiar pouco estável ou com exposição a violência, como de experiências de trauma ou negligência, ou ainda fatores genéticos.

 

4 Quais as origens da agressividade, em concreto?

A agressividade não surge do nada. Pode surgir associada a dificuldades em lidar com emoções intensas, como raiva, medo ou vergonha, e à incapacidade de as expressar de outra forma mais adequada.

Catarina Chaves lembra que a agressividade é uma forma de expressão emocional desajustada, quando  não se tem outros recursos emocionais, e que é frequente que crianças ou adolescentes com a perturbação “percecionem o contexto como mais ameaçador do que realmente é, o que os leva a responder de forma mais agressiva, mas considerando que é uma resposta ajustada e razoável”.

5 E por que razão afeta sobretudo crianças e adolescentes?

Porque é nessas fases que o comportamento, o controlo dos impulsos e as regras sociais ainda estão em desenvolvimento. São os momentos primordiais para absorver (o chamado “efeito esponja”) o que acontece ao redor e a forma como se enquadra e se reage aos estímulos.

O que não significa que estes comportamentos sejam exclusivos da infância e adolescência, podendo até persistir na idade adulta. No entanto, é frequente que passem a ter outros enquadramentos clínicos, uma vez que já se encontram mais enraizados — como, por exemplo, a perturbação da personalidade antissocial.

 

6 Há fatores de risco?

Tal como não existe uma única causa, também os fatores de risco são múltiplos. Há fatores de risco temperamentais, genéticos,  fisiológicos, ambientais. A nível familiar, podem incluir rejeição e negligência parental, práticas parentais inconsistentes, disciplina agressiva, abusos físicos ou sexuais, mudanças frequentes de cuidadores, criminalidade parental e psicopatologia familiar.

“Estas crianças e adolescentes têm dificuldade em respeitar as normas sociais e em compreender o impacto do seu comportamento nos outros, em alguns casos por ausência de experiências relacionais seguras que permitam o desenvolvimento destas competências”, diz Catarina Chaves.

A rejeição pelos amigos e colegas, a associação com grupos de delinquentes das mesmas faixas etárias, bem como a exposição permanente à  violência também aumentam o risco de desenvolver a perturbação.

7 O ambiente familiar é determinante?

O ambiente familiar é um fator central, mas não único. Uma família  instável pode aumentar o risco, enquanto relações seguras e estruturadas em casa funcionam como fator de proteção.

Uma criança educada em contexto violento e de pouco respeito pelas normas sociais não é o mesmo que uma criança criada num ambiente de amor, afeto e calma. Além disso, a conjuntura familiar pode também influenciar a procura de intervenção adequada e a adesão ao tratamento recomendado.

8 Quais os impactos em casa e na escola?

Em casa, provoca um ambiente de conflito constante, que gera bastante cansaço e desgaste emocional na família, podendo existir agressões verbais ou físicas a pais e irmãos. “É frequente que os pais se sintam perdidos e impotentes, com a sensação de que esgotaram todas as estratégias e que não sabem mais o que fazer, podendo até levar a um clima de medo.”

Na escola, estes alunos são frequentemente rotulados como “difíceis” ou “problemáticos”. São comuns problemas disciplinares, suspensões, rejeição pelos colegas e dificuldades na aprendizagem.

 

9 De que forma afeta a saúde mental?

Estes comportamentos estão associados a sofrimento emocional, muitas vezes ignorado. Estas crianças ou jovens podem apresentar ansiedade, baixa autoestima, dificuldade em confiar nos outros, tendo um risco acrescido de desenvolver depressão, abuso de substâncias ou outros comportamentos de risco.

10 E como se trata?

A intervenção passa pelo acompanhamento psicológico envolvendo família e escola. O tratamento não procura apenas reduzir os comportamentos disruptivos, mas também desenvolver capacidade de autorregulação emocional, controlo de impulsos, empatia, resolução de problemas e relação com figuras de autoridade.

Na prática, a intervenção psicológica pode incluir psicoterapia com a criança ou adolescente, intervenção familiar com os pais e articulação com a escola. A criança/jovem poderá beneficiar da participação em grupos terapêuticos, para desenvolvimento de competências sociais, que permitam treinar junto dos pares as competências desenvolvidas.

Em muitos casos, pode ser necessária medicação, quer pela existência de comorbilidades significativas, como Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção, depressão ou ansiedade, quer quando os elevados níveis de agressividade colocam o próprio ou os outros em risco.

11 Quais os riscos se não for tratada?

Se não existir intervenção adequada, os sintomas podem agravar-se ao longo do tempo. Os principais riscos dessa ausência de resposta são vários: persistência dos comportamentos agressivos, dificuldades nas relações interpessoais, insucesso e abandono escolar, maior risco de delinquência e envolvimento na prática de crimes, abuso de substâncias e desenvolvimento de problemas de saúde mental na idade adulta.

“A ausência de intervenção aumenta o sofrimento do próprio e de quem o rodeia”, alerta a psicóloga Catarina Chaves.