Esta semana, a Mattel lançou uma nova boneca numa tendência atual da empresa para a consciencialização de assuntos do género. A boneca tem esse dever de responsabilidade social e agente de mudança? Sinceramente não, mas debruçar-nos sobre o tema sim… é absolutamente imprescindível focarmos a nossa atenção para o autismo feminino no século XXI.
A boneca é apenas o início da conversa… Se concordo, não sei. Há capitalismo e lucro envolvidos; não há qualquer referência a apoiar associações ou a doar uma percentagem das vendas a instituições do género… o que, se pensarmos de forma estratégica e comercial, poderia colher mais frutos e ter mais aceitação pública, ou talvez não.
O que interessa, efetivamente, é o tema em si. Falar de autismo nas mulheres é falar do vazio, da inexistência de referências fidedignas nos meios de comunicação social, nas artes, na educação, na narrativa pública, na sua generalidade. O resultado é simples, duro e extremamente complexo para quem convive com a condição todos os dias. A educação da sociedade e a informação sobre o outro permitem uma mudança de mentalidades e a promoção da sua aceitação e apoio. Pelo menos é o começo de algo…
A discriminação da mulher na saúde é uma realidade, afetando gerações por todo o mundo. Durante décadas, os estudos científicos não contabilizaram nem analisaram o perfil feminino, focando-se nas características específicas de meninos, descredibilizando qualquer tentativa de diagnóstico. Novos estudos recentes demonstram que os perfis e as próprias experiências são diferentes. A normalização da ideia da mulher calada, tímida, com capacidade de modelagem no contexto social e sofrimento silencioso atrasou e/ou ignorou diagnósticos, sofrimento e, acima de tudo, ignorou vidas. Repito vidas… Suicídio, abuso sexual, relações sociais e familiares destruídas, uma carreira profissional inexistente, mas, acima de tudo, mulheres infelizes, tristes, destruídas por dentro.
A ideia do homem autista do filme Rain Man, com o brilhante ator Dustin Hoffman, contribuiu para chamar a atenção para o tema numa época em que era, efetivamente, necessário. Por outro lado, contribuiu para um estereótipo que ainda hoje afeta o diagnóstico e a visão da sociedade. O espetro tem diferentes perspetivas, comportamentos e realidades e tentar colocar a mulher no papel do personagem Raymond deste filme é completamente redundante e prejudicial. Contribui para a incompreensão, para uma sobrancelha levantada, um riso de troça e um abanar de cabeça de médicos, educadores e até de familiares próximos. Frases como “não parece autista, mas ela fala, tem amigos, eu também sou assim às vezes, ela é normal e a escola não deve saber”, entre tantas outras barbaridades, não ajudam as autistas, nem os pais, nem os familiares interessados. De forma metafórica, ir ao parque de diversões um dia, não é o mesmo que ir todos os dias, causaria aborrecimento, náuseas e cansaço. É exatamente o que se passa aqui… a invisibilidade do sofrimento não nega o mesmo, pelo contrário, obriga a uma maior atenção e identificação de padrões para mais acomodações e acompanhamento. Obriga a pessoas e profissionais especiais, preocupados, sensíveis ao tema, também os há e são esses que me fazem ter esperança num futuro mais promissor.
Sou autista com diagnóstico tardio, com défice de atenção e hiperatividade e com transtorno de ansiedade proveniente de anos de esforço, stress interno e tentativas de adaptação forçada a uma sociedade neurotípica. Tenho uma filha no espectro e posso afirmar que a aceitação é complexa e difícil. Encontrar especialistas e terapeutas especializados é um jogo de toque e foge; convencer as escolas das necessidades específicas (mesmo com relatórios apresentados) é jogar à apanhada; e até convencer membros da família é estar num espectáculo de circo.
Ser autista é ver o mundo de uma cor diferente, é sentir de forma diferente, é ter uma perspetiva com outra luz. Há pontos fortes que devem ser valorizados e reforçados e devem existir estratégias e acomodações para as nossas fragilidades. As meninas autistas sofrem e sofrem muito, num estado de alerta constante… o que dizer, como fazer, como atuar, como interpretar, como simplesmente estar. O típico discurso, “está tudo bem, é a idade, depois passa”, traduz-se num adiar de possíveis terapias e intervenção e em anos de doença mental, que podem levar a consequências graves no futuro. Aquando de um problema de estômago, toma-se medicação, é óbvio, certo? Pois aqui também… Estudos demonstram a importância vital do diagnóstico e intervenção de uma forma atempada. Quanto menos apoio, mais camuflagem, mais a menina autista se esconde dentro de si própria e disfarça para se tornar num protótipo de pessoa passível de aceitação.
A neurodivergência feminina é e deve ser um tema mais falado e difundido em Portugal, para a construção de uma sociedade que pode e deve olhar para o outro e para a diferença como algo benéfico e passível de enquadramento. Informação e educação tem de ser sinónimo de adaptação e empatia efetiva. Reiterando a ativista Kim Stagliano, a verdadeira tragédia não são os autistas, mas a ignorância… essa sim, é a verdadeira tragédia…