Numa rua de Teerão, uma mulher sem hijab obrigatório é parada pela Gasht-e Ershad. Ela grita. Resiste. Pede ajuda. À volta, pessoas imóveis: algumas fingem que não viram, outras observam sem intervir. A autora do relato dá um passo em frente e depois recua, engolida por um medo antigo e muito prático: o medo de ser presa, processada, despedida. No fim, chora em casa e escreve a frase que resume um regime inteiro: o silêncio não é apenas ausência de som, é medo enraizado.
A tirania moderna vive desse enraizamento. Não precisa de estar sempre a bater. Precisa de ensinar a rua inteira a não se mexer.
O detalhe mais cruel é que nada disto se apresenta como tirania. Apresenta-se como “regra”. Como “ordem pública”. Como “moralidade”. Como “o normal”. E o normal, quando se repete, ganha um poder particular: passa a ser o chão, não a violência.
É por isso que uma questão que parece filológica pode ser política no sentido mais perigoso. Num estudo sobre duas traduções persas do Manifesto Comunista (1923 e 1951), a expressão “regra tirânica” é substituída por “regra absoluta”. A “pressão tirânica” torna-se “condições de servidão”. A mudança é subtil e, por isso, eficaz: “tirania” acusa; “absolutismo” organiza. “Tirania” é um insulto moral, é uma palavra que chama resistência. “Absolutismo” soa a configuração histórica, quase técnica, como se a opressão fosse apenas um arranjo institucional.
Isto não é uma discussão sobre sinónimos. É uma discussão sobre legitimidade.
O mesmo estudo mostra que a tradução de 1923 recorre a um léxico perso-islâmico de justiça e despotismo, enquanto a de 1951, num outro contexto político, privilegia vocabulários seculares e nacionalistas e “limpa” ressonâncias religiosas. Traduzir, aqui, não é transportar palavras. É desenhar fronteiras ideológicas. É definir o que conta como moderno, secular, revolucionário.
A tirania moderna faz uma operação semelhante no quotidiano: tira o escândalo à violência e devolve-a em forma de procedimento.
O hijab obrigatório, no Irão, é um exemplo evidente porque vive no corpo e na rua. Não é apenas um símbolo. É um mecanismo de disciplina repetida, capaz de transformar espaços comuns em espaços de vigilância e punição. O ponto decisivo não é a polícia deter uma mulher. O ponto é a rua aprender que solidariedade tem custo. O regime estende-se para lá do uniforme: entra nas contas mentais, nas hesitações morais, nas pequenas desistências.
É aqui que se vê um elemento central: a tirania não sobrevive apenas por coerção. Sobrevive por engenharia social. Por atomização. Por impedir coordenação. Por transformar a esfera pública num lugar onde ninguém quer ser o primeiro a falar, e ninguém quer ser o segundo a apoiar.
Este padrão tem hoje um nome útil: “autoritarismo informacional”. É a ideia de que o poder autoritário contemporâneo se centra nos fluxos de informação e combina táticas offline e online para escalar vigilância, manipulação e controlo. A repressão tende a ser mais preventiva, mais dirigida, menos visível, mas não necessariamente menos severa para quem é atingido. É uma lógica que se expande em três dimensões: mais actores (Estado, privados, indivíduos), mais precisão (do reactivo ao preemptivo), mais alcance (do local ao transnacional, e até atravessando tipos de regime).
Traduzindo: a tirania aprende a sussurrar. E, quando sussurra bem, parece competência.
A questão do hijab ajuda-nos a ver a engrenagem em alta definição. O controlo não é apenas o ato de proibir. É o acto de produzir normalidade. A normalidade como treino. A normalidade como desgaste. A normalidade como modo de governo. Na rua, o regime não vence apenas quando detém. Vence quando faz com que dez pessoas à volta decidam que é melhor não ser vistas a ajudar.
E agora a parte que nos interessa, a nós, aqui, sem exotismos nem falsa equivalência.
O erro europeu é pensar que a tirania só se reconhece quando aparece com a estética clássica da tirania: censura explícita, violência visível, medo proclamado. Mas o autoritarismo contemporâneo, muitas vezes, quer manter a fachada de normalidade e governar pela percepção de pragmatismo e eficácia, escondendo a violência e intervindo de forma cirúrgica.
É aqui que a lição da tradução volta, com força: quando mudamos as palavras, mudamos o limiar do intolerável.
Se “tirania” é trocada por “absolutismo”, a opressão parece uma categoria histórica. Se “censura” é trocada por “moderação”, o silenciamento parece higiene. Se “vigilância” é trocada por “segurança”, o intrusivo parece responsável. E a democracia, que vive de fricção, começa a preferir suavidade. A preferir silêncio. A preferir estabilidade. Até ao dia em que descobre que a estabilidade pode ser só um nome bonito para desistência.
A tirania moderna veste-se de normalidade por uma razão simples: o normal não convoca defesa, convoca hábito. E o hábito é o melhor aliado de qualquer poder que queira durar.
Por isso, a opinião que importa não é “isto acontece lá”. É esta: o primeiro gesto de resistência é recusar a anestesia. Recusar que a linguagem faça o trabalho do medo. Manter vivo o vocabulário moral que o poder quer transformar em tecnicismo.
Porque quando a injustiça deixa de ter nome, passa a ter agenda. E quando passa a ter agenda, passa a ter futuro.