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(A) :: Saúde mental. Porque gostamos — e precisamos — de rotinas?

Saúde mental. Porque gostamos — e precisamos — de rotinas?

Repetir gestos, horários, sítios e rituais não é apenas hábito: é uma forma de o cérebro lidar com a incerteza, regular emoções e poupar energia mental útil para outras coisas.

Sofia Teixeira
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Inês Correia
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Para uns, a palavra “rotina” evoca segurança. Para outros, tédio. Há quem a associe a estabilidade e quem a veja como sinónimo de repetição. Mas, goste-se ou não, a rotina desempenha um papel central na organização da vida: ajuda a estruturar o tempo, a reduzir a incerteza e a criar um sentido de continuidade num quotidiano que, sem esses pontos de referência, seria mais exigente do ponto de vista mental e emocional. É por isso que, para muitas pessoas, acaba por trazer conforto.

A própria origem da palavra ajuda a perceber essa função. “A palavra ‘rotina’ deriva da palavra francesa ‘route’”, explica a psicóloga Sofia de Oliveira Major, remetendo para a ideia de trajeto ou caminho de ligação entre um ponto e outro. O conceito é usado para descrever padrões regulares e estabelecidos de atividades do quotidiano e, segundo a professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade dos Açores e investigadora do Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitivo-Comportamental (CINEICC), as rotinas ajudam-nos a organizar não só o que fazemos, como também a forma como nos sentimos.

“A investigação mostra que, durante a execução de rotinas, podem emergir emoções agradáveis, como satisfação, ou desagradáveis, como frustração. Ainda assim, em momentos de maior ansiedade ou incerteza, as rotinas tendem a funcionar como reguladores emocionais. Ao introduzirem previsibilidade, ajudam a reduzir a sensação de imprevisibilidade — um dos elementos centrais da ansiedade.”

A pandemia de COVID-19 foi um exemplo claro deste efeito: vários estudos realizados durante esse período mostraram que a manutenção ou reconstrução de rotinas esteve associada a níveis mais baixos de ansiedade. “Num contexto marcado pela instabilidade e pela incerteza, as rotinas funcionaram como âncoras, devolvendo uma sensação de normalidade e segurança”, diz a psicóloga.

“Ao seguir uma rotina conhecida, o nosso cérebro entra num modo de ‘piloto automático’, com a utilização de menos recursos cognitivos, levando a uma poupança de energia mental”, diz a psicóloga e investigadora Sofia de Oliveira Major. Ao libertar estes recursos, o cérebro consegue conservá-los e alocá-los a tarefas mais complexas, que exigem atenção e flexibilidade — e que não podem ser feitas em piloto automático.

O cérebro humano tende a preferir um contexto previsível também por uma razão prática: gasta menos energia mental. Saber o que vai acontecer reduz a necessidade de vigilância constante e diminui o estado de atenção permanente. Em termos simples, quando o cérebro consegue antecipar o que vem a seguir, sente-se menos em alerta. “Ao seguir uma rotina conhecida, o nosso cérebro entra num modo de ‘piloto automático’, com a utilização de menos recursos cognitivos, levando a uma poupança de energia mental.”

Esta automatização reduz a fadiga de decisão, ou seja, o desgaste mental que resulta de tomar muitas decisões ao longo do dia. A ideia central é simples: a nossa capacidade de decidir não é infinita. À medida que vamos escolhendo — mesmo coisas aparentemente pequenas, como o que vestir, o que comer ou por onde começar uma tarefa — essa capacidade vai-se esgotando.

“As rotinas envolvem menor necessidade de tomada de decisão e menos incerteza, o que contribui para a poupança de energia [mental]”, diz Sofia de Oliveira Major. Ao libertar estes recursos, o cérebro consegue conservá-los e alocá-los a tarefas mais complexas, que exigem atenção e flexibilidade — e que não podem ser feitas em piloto automático.

Este efeito regulador das rotinas é muito óbvio na infância. “As rotinas assumem um papel essencial na regulação emocional, ao permitir à criança antecipar acontecimentos e aprender a regular as suas emoções”, frisa a psicóloga.

De forma geral, as crianças que crescem em ambientes com rotinas consistentes tendem a apresentar menos problemas de comportamento, relações mais seguras com os cuidadores e maior facilidade de adaptação. Alguns estudos mostram que “as crianças expostas a ambientes estruturados desenvolvem maior sensação de segurança e melhor capacidade de autorregulação, o que se traduz, na idade adulta, numa maior aceitação das rotinas e numa associação positiva entre previsibilidade e conforto emocional.”

Apesar de tudo isto, as vantagens da previsibilidade também tem limites. A monotonia pode ter impacto no funcionamento cerebral e na motivação, pelo que “o ideal é um equilíbrio entre estrutura e flexibilidade.” Rotinas suficientes para dar segurança; novidade suficiente para manter o cérebro ativo.