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(A) :: Porque é que podemos sentir raiva de quem nos tenta ajudar?

Porque é que podemos sentir raiva de quem nos tenta ajudar?

O medo de admitir vulnerabilidade e perda de autonomia e a dificuldade em aceitar a fragilidade podem gerar sentimentos desconfortáveis. E a insegurança transforma-se em raiva e ficamos zangados.

Sofia Teixeira
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Inês Correia
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O senso comum costuma explicar a raiva como uma defesa perante um ataque, real ou imaginado. Costuma ser descrita como uma emoção que surge em resposta a uma ofensa ou injustiça — quando alguém nos trata mal, nos desvaloriza ou nos ignora, por exemplo. Mas o que raramente se diz é que a raiva pode surgir não quando somos maltratados, mas quando alguém, com a melhor das intenções, nos tenta ajudar.

A distinção entre estas duas formas de raiva está sobretudo na função que desempenha e naquilo que é percebido como ameaça. “A raiva que emerge perante comportamentos claramente desafiadores, desrespeitadores ou opositores desempenha uma função mais direta e externa: sinalizar limites violados, injustiça ou desrespeito. O alvo da raiva é claro: a ameaça é situada no comportamento do outro”, explica Liliana Capitão, investigadora do Laboratório de Neurociência Psicológica do Centro de Investigação em Psicologia (CIPsi) da Universidade do Minho, onde faz investigação na área da cognição e emoção, nomeadamente a raiva.

Já quando a raiva é dirigida a alguém que pretende ajudar, o mecanismo tende a ser diferente. Aqui, esta emoção funciona muitas vezes como um escudo, protegendo a pessoa de sentimentos mais difíceis de admitir. “Nestas situações, a pessoa que oferece ajuda não é vista como uma adversária, mas como um espelho involuntário da própria vulnerabilidade”, conclui a investigadora. “Se interpretamos a vulnerabilidade como uma fraqueza, a ajuda pode ser interpretada como uma ‘prova’ de que somos fracos, o que gera desconforto… e raiva.”

O que está em causa, nestes casos, não é tanto a pessoa a quem a raiva é dirigida, nem o gesto em si, mas o impacto interno que esse gesto provoca. “Aceitar ajuda implica, por vezes, reconhecer fragilidade ou dependência, o que pode colidir com a necessidade de nos sentirmos independentes e no controlo da nossa própria vida. A raiva surge, então, como uma forma de proteger essa autonomia”, explica Liliana Capitão.

Esta dinâmica é particularmente frequente em situações de doença, sobretudo quando prolongada, ou no processo de envelhecimento. Em ambos os casos, a raiva tende a surgir associada à frustração de precisar de ajuda para tarefas básicas, o que afeta a imagem que a pessoa tem de si enquanto alguém autónomo e capaz. No entanto, este tipo de raiva ligada aos limites e à autonomia não é exclusivo da idade adulta — pode também manifestar-se durante a infância ou adolescência, quando o jovem se irrita com a ajuda dos pais para tarefas que sente que já poderia fazer sozinho.

“Aceitar ajuda implica, por vezes, reconhecer fragilidade ou dependência, o que pode colidir com a necessidade de nos sentirmos no controlo da nossa própria vida. A raiva surge, então, como uma forma de proteger essa autonomia. E pode ocorrer também em fases de luto, transição, desemprego ou dificuldades financeiras, em que a ajuda dos outros, embora necessária, pode intensificar sentimentos de falhanço. No contexto profissional, a ajuda não solicitada de colegas ou superiores pode ser interpretada como um questionamento da competência.”
Liliana Capitão, investigadora da Universidade do Minho

Por outro lado, acrescenta Liliana Capitão, a mesma reação pode surgir “em fases de luto, transição, desemprego ou dificuldades financeiras, em que a ajuda dos outros, embora necessária, pode intensificar sentimentos de falhanço. Ou também no contexto profissional, quando a ajuda não solicitada de colegas ou superiores pode ser interpretada como um questionamento da competência.”

Em todos estes cenários, resume, “a raiva não é tanto dirigida a quem ajuda, mas à experiência de vulnerabilidade e à sensação de perder estatuto, identidade ou capacidade de decidir sobre a própria vida.”

Sob a raiva estão frequentemente outras emoções menos visíveis — e socialmente mais difíceis de assumir — como a vergonha. A ajuda bem-intencionada dos outros “pode ativar sentimentos de inadequação, a ideia de que ‘falhámos’ ou de que não fomos capazes de lidar sozinhos com a situação”. A raiva pode também ser alimentada pelo medo que a ajuda desperta: “o medo de perder controlo, de ficar em dívida, de ser invadido ou mal interpretado”.

Quando se quer ajudar alguém em situação de fragilidade ou vulnerabilidade sem despertar desconforto, vergonha, medo ou raiva, é fundamental evitar uma postura insistente, condescendente, autoritária ou paternalista. A forma como se oferece ajuda pode ser tão importante quanto a ajuda em si, e Liliana Capitão aponta algumas estratégias simples, mas eficazes:

  • Preservar a autonomia: “Queres ajuda ou preferes tentar sozinho/a?”
  • Validar a experiência emocional: “Imagino que isto esteja a ser mesmo difícil para ti.”
  • Adotar uma postura colaborativa: “Podemos pensar nisto juntos.”
  • Oferecer opções, não dar ordens: “Preferes fazer assim ou de outra forma?”
  • Ajustar a ajuda ao pedido: “Diz-me do que precisas, exatamente.”
  • Usar linguagem não avaliativa: “Vamos ver como podemos tornar isto mais fácil.”
  • Estar disponível sem impor: “Estou aqui se precisares.”

Ainda assim, é importante reconhecer que a raiva pode surgir mesmo quando a ajuda é oferecida de forma sensível e adequada. “Nesses casos, responder com calma e sem personalizar a reação ajuda a acalmar o conflito. A ajuda mais eficaz não é a que resolve tudo, mas a que não retira dignidade nem controlo a quem precisa dela.”