Paixões que não existem, conspirações que não são reais, gravidezes impossíveis... O que é a perturbação delirante persistente?
Às vezes confundida com esquizofrenia, esta doença psiquiátrica rara caracteriza-se por delírios, desconfiança, inveja, baixa autoestima, crenças falsas longe da realidade e comportamentos obsessivos.
1 O que é a perturbação delirante persistente?
É uma doença psiquiátrica que se caracteriza pela presença de delírios firmes e persistente, que se mantêm estáveis ao longo do tempo, sem alteração de personalidade, e sem outros sintomas psicóticos (como alucinações).
Este termo veio substituir o conceito de “paranoia” definido por Emil Kraepelin, psiquiatra alemão, do século XIX, habitualmente referido como fundador da psiquiatria moderna. Kraepelin identificou um tipo de doentes que, como citava, desenvolvia “um inabalável sistema delirante lento e duradouro, com completa conservação do discernimento, clareza e ordem na associação do pensamento, da vontade e da ação”.
2 Quais os sintomas?
O principal e praticamente único sintoma é a presença de delírios monotemáticos, estáveis ao longo do tempo. “São pessoas com uma ou várias crenças falsas, incongruentes com a realidade e contexto sociocultural, das quais estão convencidas, centradas num único tema, que perduram ao longo da vida”, explica Nuno Monteiro, médico psiquiatra na Unidade Local de Saúde de Coimbra.
Estes delírios surgem habitualmente entre os 35 e os 50 anos, sendo frequente em homens e mulheres. Por vezes há outros sintomas psiquiátricos que podem aparecer transitoriamente, mas são situações muito raras.
3 Não são alucinações, portanto?
Não, as alucinações não são características desta doença. As alucinações são alterações dos sentidos, em que uma pessoa sente, ouve, vê ou cheira algo que não existe. Os delírios são alterações do pensamento, ou seja, crenças ou ideias falsas.
4 De que tipo de delírios falamos?
Há vários tipos de delírios descritos na perturbação delirante.
- Delírio Erotomaníaco (também conhecido como Síndrome de Clérambault), caracterizado pela convicção de que a pessoa é o objeto de amor de alguém. O doente acredita que alguém está apaixonado por ele, geralmente uma celebridade ou figura de estatuto social superior;
- Delírio de Ciúme. A pessoa acredita que o/a companheiro/a lhe é infiel, apesar de não existir nenhum indício que aponte para tal, ou até sinais que apontem exatamente o contrário;
- Delírio Persecutório. É o mais comum nesta doença e ocorre quando uma pessoa está convencida de que alguém a persegue ou lhe quer mal, ou seja, o doente acredita que uma ou várias pessoas estão a conspirar contra ele de modo a prejudicá-lo, podendo chegar ao ponto de o doente envolver a justiça;
- Delírio de Desidentificação. Quando ocorre a identificação errada de pessoas, animais ou objetos; o mais comum neste tipo é o chamado Síndrome de Capgras, em que uma pessoa acredita que alguém próximo (familiar ou amigo) foi substituído por um sósia/clone;
- Delírio de Infestação. A pessoa acredita que está infetada por parasitas, “sentindo” pequenos “bichos” na pele ou dentro dela;
- Síndrome de Cotard. Caracterizado pela crença de ter perdido partes do corpo, ou o corpo por completo, ou mesmo a crença de ter morrido — pessoas que acreditam que não têm estômago, por exemplo, podem recusar-se a comer;
- Delírio de Gravidez. Quando uma mulher, mesmo sem ter tido relações sexuais ou já fora da idade de reprodução, acredita que está grávida.
5 É uma perturbação rara?
É uma doença bastante rara, mesmo dentro da população com algum diagnóstico psiquiátrico, e é difícil quantificar exatamente a sua prevalência. “Isto pode dever-se ao facto de a doença ser rara por si só, mas também ao facto de o impacto no dia ser, na maioria dos casos, pouco evidente”, diz Nuno Monteiro.
E é tão pouco evidente que, muitas vezes, pessoas que sofrem desta doença não procuram ajuda médica, o que pode levar ao subdiagnóstico e subvalorização da sua presença na população.
6 Quais são as causas?

7 E os fatores de risco?
Os fatores de risco conhecidos estão relacionados com aspetos da personalidade ou do contexto social, que podem aumentar a probabilidade de desenvolver delírios. As pessoas com esta perturbação, segundo Nuno Monteiro, frequentemente mostram fortes traços obsessivos e de introversão, pouca abertura a novas experiências, desconfiança, inveja e baixa autoestima. “Todos estes fatores podem contribuir para erros de interpretação da realidade que depois podem evoluir para um delírio.”
8 É uma doença semelhante à esquizofrenia?
Não. Mas há um aspeto desta doença semelhante à esquizofrenia, que é a presença de delírios, principalmente o delírio persecutório, muito frequente na doença psiquiátrica grave. Contudo, as semelhanças terminam aqui.
A esquizofrenia surge em idades mais precoces, entre os 18 e os 30 anos. A sua sintomatologia é mais vasta, com delírios, alucinações auditivas (o clássico “ouvir vozes”), fenómenos de passividade (noção que alguém externo controla o corpo ou pensamento do doente).
Além disso, Nuno Monteiro ressalva que há uma componente da esquizofrenia que não ocorre na perturbação delirante: a sintomatologia negativa. Ou seja, sintomas que representam um défice do funcionamento global, como anedonia (falta de prazer nas atividades do dia a dia que antes eram prazerosas), avolia (falta de vontade para realizar atividades), embotamento afetivo (diminuição da expressão emocional), entre outros.
“A evolução da esquizofrenia é muito diferente devido a estes sintomas negativos, que geralmente provocam um corte no funcionamento global dos doentes, que ficam com imensas dificuldades em prosseguir os estudos ou manter um emprego fixo, algo que não acontece na perturbação delirante.”
9 Então a perturbação delirante tem pouco impacto na vida do doente?
Depende do tipo de delírio, da intensidade, da procura de tratamento e da rede de apoio. Mas a vida e as rotinas do doente são bastante afetadas.
Os delírios de ciúme e erotomaníaco, por exemplo, podem levar ao fim de relações afetivas. O delírio persecutório pode provocar um aumento da ansiedade, isolamento social e, por vezes, processos judiciais infundados. Por sua vez, o delírio de infestação pode levar à procura de ajuda não médica, como equipas de desinfeção de parasitas, com gastos desnecessários e até mudança de casa.
Ainda assim, esclarece o psiquiatra, como a perturbação delirante não impacta o funcionamento global e o delírio afeta apenas um aspeto da vida, as pessoas continuam frequentemente a viver o seu dia a dia de forma dita “normal”. Continuam a trabalhar, mantêm as rotinas e a vida social, aparentando até não ter nenhuma doença psiquiátrica, se não for referido o tema central que é a manifestação do delírio.
10 Como se trata?
O primeiro passo no tratamento desta doença começa na construção de uma boa relação entre médico e doente, diz Nuno Monteiro. Até porque a maioria destes pacientes não procura cuidados de saúde porque não acredita que está doente. Ou seja, falta-lhe autocrítica e uma avaliação realista sobre a perturbação e, portanto, pode recusar ajuda. Deste modo, a criação da relação entre paciente e profissional de saúde ajuda a que o doente confie no médico e nas suas indicações.
Os medicamentos mais utilizados são os antipsicóticos, geralmente em baixas doses. O delírio de infestação é, revela o médico psiquiatra, aquele com melhor resposta à medicação.
“O prognóstico da doença está bastante associado à adesão à medicação, sendo que quase 50% dos doentes reportam melhoria com esta. Ainda assim, a perturbação delirante é uma doença crónica.” O que significa que a medicação tem de ser tomada sempre.
11 É uma perturbação que exige internamento?
Pode, de facto, ser necessário, ainda que não o seja em todas as situações. A decisão de internar ou não uma pessoa passa pela avaliação da gravidade da doença, impacto no dia a dia, adesão à medicação e presença ou não de comportamentos que ponham em risco a integridade de si ou de terceiros.
“Apesar de o impacto funcional ser pouco marcado, existem casos em que o contrário acontece. Uma pessoa com delírio persecutório, por exemplo, que acredita estar a ser perseguido por vizinhos e consequentemente se torna violento com eles.” Nesses casos, pode ser necessário internamento para estabilização do quadro clínico e início de medicação.
12 O suporte familiar pode fazer a diferença?
Sim, pode. O suporte familiar faz a diferença em todas as doenças, incluindo as psiquiátricas.
“Os familiares funcionam como uma espécie de colaborador no domicílio, verificando a melhoria ou agravamento dos sintomas, assegurando a toma de medicação e tentando sensibilizar o doente para a veracidade dos seus pensamentos e experiências”, diz Nuno Monteiro.