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Reserva Federal. Mesmo "escaldado" com Powell, Trump volta a nomear um republicano que pensa pela própria cabeça: Kevin Warsh

Trump terá estado inclinado para um "outro Kevin" (Hassett) que lhe daria mais garantias de subserviência. Mas, pressionado pelos mercados, optou por Kevin Warsh, que já deu mostras de independência.

Edgar Caetano
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O atual líder da Reserva Federal (Fed), Jerome Powell, “nunca recuperou” do trauma de ter “falhado” na prevenção do surto inflacionista de 2022/2023 e, por causa disso, tem vindo a manter as taxas de juro em níveis demasiado elevados. Esta é a leitura de Kevin Warsh, o homem que Trump escolheu para liderar o banco central mais poderoso do mundo e que, embora se tenha alinhado com o Presidente nas críticas a Powell, é visto como alguém que pensa pela própria cabeça e que dá mais garantias de que a Fed irá manter uma distância saudável em relação aos desígnios da Casa Branca.

Trump esteve, no início deste processo, mais inclinado para nomear para a Fed “outro Kevin”: Kevin Hassett, apontado como alguém que seria muito mais subserviente aos interesses de Trump. Tanto assim era que, a dada altura, surgiram na imprensa especializada notícias que diziam que o nome de Hassett enfrentava alguma “resistência” e não era um nome consensual entre pessoas que “têm o ouvido de Trump” – precisamente por causa dessa perceção de que seria alguém com pouca firmeza e demasiado permeável à influência política.

Perante essa “resistência”, Trump terá decidido seguir por outra via. Os outros dois candidatos fortes eram Rick Rieder, considerado o mais provável pelas casas de apostas nos últimos dias, e Christopher Waller, atual membro do conselho da Fed que até votou (vencido), na última quarta-feira, por uma descida das taxas de juro – o que foi visto como uma tentativa de aumentar as probabilidades de que Trump viesse a escolhê-lo, tendo em conta que o Presidente norte-americano tem pressionado o banco central a baixar as taxas de juro de forma agressiva.

Mas a escolha acabou por recair em Kevin Warsh que é mais jovem (55 anos, ao passo que Hassett tem 63) e que, ao contrário de Hassett, já conhece bem os corredores da Reserva Federal – foi membro do conselho de governadores entre 2006 e 2011, saindo abruptamente numa altura em que era uma voz isolada na crítica aos programas de estímulo monetário lançados para mitigar os efeitos da crise financeira.

Poucos meses depois de Warsh entrar na Fed como um dos governadores mais jovens de sempre – tinha 36 anos – começou a cair o “castelo de cartas” do mercado de crédito subprime, que esteve na génese da grande crise financeira de 2008.

O jovem membro do conselho de governadores presidido por Ben Bernanke esteve no centro das decisões que moldaram a resposta da Fed à maior crise económica desde a Grande Depressão. Participou nas discussões que levaram à redução agressiva das taxas de juro, à criação de programas de liquidez de emergência e, mais tarde, às primeiras rondas de compra massiva de ativos — o chamado quantitative easing.

Porém, apesar de ter apoiado medidas extraordinárias num contexto de emergência, Warsh afirmou-se progressivamente como uma das vozes mais dissonantes dentro da Fed à medida que o tempo foi passando. Ou seja, não foi contra os estímulos monetários, numa primeira fase, mas tornou-se cada vez mais preocupado com a sua duração e com a própria escala do que estava a ser feito. Aqueles estímulos geravam, alertou Warsh, riscos de distorção nos mercados financeiros e viabilizavam um eventual despesismo excessivo no setor público.

Estas opiniões colocaram-no numa posição cada vez mais isolada no conselho onde a esmagadora maioria dos responsáveis – a começar por Bernanke, o presidente – considerava que aquela intervenção da Fed seria essencial para a retoma económica, e um “desmame” demasiado rápido podia ser como interromper prematuramente a toma de um antibiótico. Em novembro de 2010, quando já estava a poucos meses de decidir sair da Fed, escreveu um artigo de opinião no The Wall Street Journal onde, embora mostrando respeito pelos seus colegas, mostrava o seu desacordo profundo com a visão prevalecente na Fed.

Sem alarido, Warsh acabou por se demitir no início de 2011 quando ainda lhe faltavam sete anos de mandato. Só mais tarde, pelas intervenções públicas que fez, é que se confirmou que na base daquela decisão tinha estado um grande e crescente desconforto por estar constantemente a remar contra a maré. Mas o facto de nunca ter criticado abertamente os seus colegas, apenas ter questionado a lógica por detrás daquilo que estava a ser feito, contribuiu para que hoje seja “muito bem visto” dentro da Fed – como assinalou Donald Trump na primeira vez que sinalizou que o podia nomear para presidente.

Apesar de se ter demitido em 2011, em pleno mandato de Ben Bernanke (que ficaria na presidência da Fed até 2014), Kevin Warsh é também muito elogiado na autobiografia escrita mais tarde pelo seu presidente. “Don Kohn, o meu vice-presidente, com a sua longa experiência na Fed, e Kevin Warsh, com os seus inúmeros contactos em Wall Street e na política, além do seu conhecimento prático de finanças, foram os meus companheiros mais incansáveis nas longas ​​teleconferências em que moldámos a nossa estratégia de combate à crise”, escreveu Bernanke, que em 2022 viria a ser distinguido com o prémio Nobel da Economia.

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Um “falcão” que, nesta fase, defende juros mais baixos

Kevin Maxwell Warsh nasceu em 1970 e formou-se em Políticas Públicas pela Universidade de Stanford, antes de concluir o curso de Direito em Harvard. Ainda no início da carreira, destacou-se como uma figura híbrida entre o mundo jurídico, financeiro e político — um perfil que viria a marcar todo o seu percurso profissional. É, desde 2002, casado com Jane Lauder, neta e herdeira de Estée Lauder, a fundadora da “gigante” empresa de cosméticos, e vive em Manhattan.

Passou por escritórios de advocacia e pelo setor financeiro (passou sete anos no Morgan Stanley) mas ganhou maior projeção nacional quando entrou (em 2006, com 35 anos) na administração de George W. Bush, onde serviu como assistente especial do Presidente para política económica e, mais tarde, como secretário-executivo do Conselho Económico Nacional.

Nesse papel, tornou-se uma das “pontes” entre a Casa Branca, o Departamento do Tesouro e a Reserva Federal, numa altura em que os sinais de fragilidade do sistema financeiro começavam a tornar-se evidentes. Mas ainda nesse mesmo ano de 2006 daria o “salto” para o conselho de governadores da Fed.

Pouco mais de quatro anos depois, a partir do momento em que deixou a Reserva Federal, Kevin Warsh manteve uma presença frequente no debate económico, académico e político. Deu aulas na Stanford Graduate School of Business, integrou conselhos de administração de empresas (como na UPS) e tornou-se um comentador influente sobre política monetária, tanto em aparições nos jornais e televisões como em outras intervenções públicas.

Ao longo da carreira, Warsh construiu uma reputação de “falcão” da política monetária, isto é, um crítico das políticas de taxas de juro muito baixas por períodos demasiado prolongados. Essas estratégias, embora eficazes em momentos de crise aguda, podem alimentar excessos financeiros, aumentar a desigualdade patrimonial [estimulando os preços das ações e do imobiliário, por exemplo] e reduzir a margem de manobra dos bancos centrais caso tenham de responder a novos choques.

Para os defensores desta abordagem à política monetária, esta é uma visão pragmática e responsável que procura garantir um equilíbrio na influência dos bancos centrais na economia. Já na ótica daqueles mais rotulados como “pombas” da política monetária, a estratégia dos “falcões” pode ser contraproducente por poder ser excessivamente restritiva e inflexível num mundo marcado por choques frequentes e incerteza estrutural.

Entre a advocacia e a finança. Perfil de Warsh tem semelhanças com Powell

Devido ao seu percurso, Warsh é frequentemente associado a círculos republicanos moderados e a setores do establishment financeiro, embora tenha mantido, ao longo da carreira, uma imagem de tecnocrata mais do que de político partidário.

Nessa perspetiva não é, aliás, muito diferente da imagem pública que tinha Jerome Powell quando foi escolhido por Donald Trump. Powell também era um republicano moderado, com uma carreira formada entre a advocacia e a banca de investimento.

A escolha acaba, por isso, por ser surpreendente porque Trump, “escaldado” por ter nomeado Powell e rapidamente se ter arrependido, volta a optar por alguém que não é visto como subserviente a um Presidente que já veio defender que ele próprio “deve ter uma palavra a dizer nas taxas de juro” – uma declaração polémica porque a independência entre os bancos centrais e os governos é vista (embora não por toda a gente) como um fator que conduz a economias mais prósperas e sustentáveis.

E Warsh é visto como alguém que tem um profundo respeito pela autonomia institucional da Fed e pela importância da credibilidade do banco central como pilar da estabilidade económica. Um dos que têm essa opinião dele é Jamie Dimon, o influente presidente do banco JP Morgan e que também terá sido decisivo para levar Trump a recuar nas tarifas comerciais, na última primavera.

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Segundo noticiou o Financial Times em meados de dezembro, Jamie Dimon sinalizou, em conversas com outros executivos de Wall Street, que o seu candidato favorito era, mesmo, Kevin Warsh. “A independência da Fed é absolutamente essencial” e não a respeitar “pode, muitas vezes, ter consequências muito adversas”, avisou Jamie Dimon, publicamente, no início do ano passado.

Algumas dessas “consequências muito adversas” foram, aliás, explicitadas em detalhe num artigo escrito em abril, também no The Wall Street Journal, pelo próprio Kevin Warsh. Na sua opinião, nos últimos anos, a “Fed tem atuado mais como uma agência pública do que como um banco central propriamente dito“.

Denunciando uma “deriva institucional” que “coincidiu com a incapacidade da Fed de cumprir uma parte essencial da sua atribuição legal: a estabilidade de preços”, Warsh considera que a Fed “contribuiu para uma explosão da despesa do estado federal“. O stock de dívida federal dos EUA, que no início de 2020 rondava os 26 biliões de dólares, terá superado os 38 biliões em 2025.

No mesmo artigo, Kevin Warsh avisou que “a política orçamental dos EUA está numa trajetória perigosa”, muito devido aos “gastos irresponsáveis [que] ​​dispararam, especialmente após a pandemia”. “Tenho dificuldade em livrar a Fed de culpas pelo despesismo” dos organismos públicos, criticou Warsh, acrescentando que, na sua ótica, “os líderes da Fed incentivaram a despesa pública em tempos difíceis, mas não exigiram disciplina orçamental na época de crescimento sustentado e pleno emprego”.