“Ia ao médico e diziam-me ‘algumas meninas começam o período mais tarde, volta para o ano’. No ano seguinte, voltava e ouvia a mesma história”. Aos 17 anos, Andreia Trigo recebeu o diagnóstico pelo qual aguardava há muito tempo. O nome é longo e a doença é rara – Síndrome de Mayer-Rokitansky-Küster-Hauser (MRKH) – mas o que significa para ela é relativamente simples: “a falta de um útero”.
Quando foi para a faculdade, escolheu ser enfermeira e, após anos de prática, decidiu emigrar para o Reino Unido, em 2012. Durante os seus 20 anos na profissão, Andreia, hoje com 42 anos, começou a perceber que a sua longa espera para um diagnóstico não era caso raro, mesmo para situações mais comuns que a sua. “Por exemplo, os ovários poliquísticos, que afetam uma em cada dez mulheres, pode demorar três, cinco anos [a ser diagnosticado]. Endometriose, também bastante comum, pode demorar, em média, nove anos”.
Enquanto esteve no Reino Unido, Andreia conheceu Frank Sullivan, com quem casou e cofundou a Enhanced Fertility (EF), a pensar no combate à infertilidade, uma condição que afeta uma em cada seis pessoas no mundo, segundo os últimos dados da OMS. Fundada em solo britânico em 2021, a empresa escolheu em 2023 para a sua sede num hub europeu Linda-a-Velha, no concelho de Oeiras.
Nesse pequeno espaço, trabalham seis pessoas, incluindo Andreia, a CEO (presidente executiva) da empresa, Frank, o chief technological officer (CTO), dois membros da equipa clínica e o vice-presidente de engenharia, João Pinto. Além do hub em Portugal, a empresa manteve a presença física no Reino Unido, onde estão um programador e uma enfermeira consultora clínica.
Um dos principais objetivos da empresa é permitir que quem quer saber se é infértil não tenha de esperar anos, como aconteceu com a fundadora da empresa. “São menos de 30 dias”, garantiu Frank sobre o tempo que dura até obter um diagnóstico usando o método da Enhanced Fertility, que se dedica à venda de um serviço que fornece testes de fertilidade, acompanhamento de pacientes através de uma aplicação e uma plataforma de software dedicada às clínicas e hospitais.

“Nós trabalhamos maioritariamente com profissionais de saúde, portanto médicos, enfermeiros, nutricionistas, que são o primeiro ponto de entrada”, explicou ao Observador Andreia, apontando que a procura de ajuda acontece, em média, ao fim de “seis meses” de tentativas falhadas. Entre a União Europeia e o Reino Unido, a Enhanced Fertility já acompanhou cerca de 500 pacientes.
É com os hospitais e as clínicas que a Enhanced Fertility mais trabalha, adotando um modelo B2B2C (business-to-business-to-consumer). “Vendemos o software a outra empresa, neste caso, aos hospitais e às clínicas”, explicou, revelando que o acesso à plataforma é feito através do pagamento anual de uma licença. Já os testes, na maioria das ocasiões, é cobrado aos próprios pacientes pela Enhanced Fertility, após referência médica dos estabelecimentos que têm o software.
Ao todo, há 25 fornecedores de cuidados de saúde na União Europeia que usam este software, três em Portugal — e todos privados, contou a fundadora. “A principal razão para começarmos no privado é porque têm financiamento disponível para pagar o software”, explica, revelando que estão “em negociação” com alguns hospitais públicos, como o de Braga, o de Guimarães e o hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde Andreia Trigo foi diagnosticada anos antes.
“Essas oportunidades com o Serviço Nacional de Saúde são muito interessantes para nós, mas, claro, tem de se perceber como […] pode ser financiado”, continuou, lembrando que a exposição na Web Summit, onde venceram o prémio “Road 2 The Web Summit”, levou a que os hospitais chegassem até eles.

Empresa muito próxima do objetivo da ronda seed de investimento
Desde que se fixou em Portugal, a empresa já conseguiu angariar 1,9 milhões de euros, muito próximo do objetivo de dois milhões de euros da ronda seed. O principal investidor, apontou Frank Sullivan, foi o fundo norte-americano Eagle Venture Fund, estando em negociações com investidores portugueses, que têm estado em falta.
“Seria uma pena ter uma empresa portuguesa só com investidores estrangeiros”, confessou a fundadora. “Existe dificuldade para empresas na área da saúde atrair investimento, e isso é conhecido porque tudo na área da saúde é regulamentado e requer estudos científicos”. No caso da Enhanced Fertility, a mudança do Reino Unido para Portugal ajudou a desbloquear essa regulamentação necessária para instrumentos como os testes, neste caso, a marcação europeia CE, que não seria possível ser obtida caso tivessem ficado em terras britânicas.
Olhando para o futuro, um dos principais objetivos de expansão é o mercado norte-americano, garantiu também a CEO. Atualmente, a start-up já tem acordos com laboratórios locais para receberem os seus testes, mas no futuro aponta-se a um crescimento na América, com a Enhanced Fertility a ser uma das empresas a participar no programa Scale Up Now da Startup Portugal, dedicado a “preparar start-ups e scale-ups a escalar para o mercado dos Estados Unidos”, lê-se no site da organização.
“Estamos em negociações avançadas com um hospital em Nova Iorque e com um na Florida”, revelou a empresária. “Neste momento, as vendas e estes primeiros contratos que estamos a negociar com as clínicas é tudo feito através daquilo que se chama ‘founder-led sales’, eu e o Frank temos contactos, temos a reputação, portanto abrimos as portas para estas negociações”.
E, por isso, Andreia Trigo não descarta a necessidade de terem de mudar-se para os EUA para adaptarem a forma de trabalho da Enhanced Facility ao sistema de saúde norte-americano, “completamente diferente do nosso europeu”. Depois dessa estada, acrescentou, alguém da empresa terá de estar presente lá.
“Vamos ter que contratar alguém para a expansão do negócio nos Estados Unidos, para conseguir replicar aquilo que eu e o Frank temos vindo a fazer ao longo deste último ano. Faz sentido e tem de ser feito”, assumiu a co-fundadora.
Mais de cem tipos de testes e uma plataforma que sugere diagnósticos
Ao todo, a empresa fornece mais de cem elementos de testes a valores de várias hormonas masculinas e femininas e que podem afetar a fertilidade, como a testosterona ou o estradiol. Todo este processo começa com os chamados “testes de entrada”, enviados para casa em forma de um kit diferenciado tendo em conta a amostra que se quer recolher.
Nos homens importa mais a recolha de esperma, por exemplo. Já no caso das mulheres, a amostra relevante é, na maioria das vezes, a do sangue, podendo a recolha com uma picada no dedo ser feita com acompanhamento por membros da equipa clínica.
No momento em que os testes lhes são pedidos, os pacientes respondem a um questionário na aplicação sobre “90 aspetos que podem influenciar a fertilidade”, desde questões ligadas à menstruação para as mulheres, como, de uma forma mais genérica, o estilo de vida e alimentação das pessoas, explicou Andreia Trigo.
Ao todo, a Enhanced Fertility já analisou “quase três mil testes” na União Europeia, sublinhou ainda o CTO.
Os resultados dos testes, que demoram cerca de 48 horas a ser apresentados, são enviados para os pacientes e para os médicos. Além de apresentar os resultados codificados por cores consoante o nível de alarme, os médicos recebem várias sugestões de diagnóstico, incluindo indicações de potenciais doenças cujo despiste pode necessitar de outros exames.
No fim do acompanhamento, os dados ficam na aplicação armazenados nas contas privadas dos pacientes, que podem pedir para serem apagados ou descarregar as informações.
Algoritmo pretende dar “experiência de 10.000 médicos” a um só
A chave da inovação da empresa está no mecanismo que faz a plataforma funcionar de forma rápida e eficaz, apontou Frank Sullivan, sentado na cadeira à frente do computador onde trabalha. Esta tecnologia faz com que os dados recebidos pela empresa sejam estandardizados para poderem ser processados e apresentados de forma uniforme.
“Um laboratório pode enviar um PDF, um paciente pode enviar uma foto confusa no WhatsApp, pode-se ter um ficheiro de uma ecografia com quatro gigabytes e de outro país”, explicou o CTO, frisando que o seu trabalho é ser o “canalizador” entre as várias fontes e organizá-las em formatos compatíveis para que todas as informações sejam processadas.
Depois desta consolidação, os dados dos vários exames são comparados com uma base que inclui os critérios de diagnóstico estabelecidos pelas principais organizações especializadas, nomeadamente, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, dos EUA, a Sociedade Europeia para a Reprodução Humana e Embriologia, da UE, e o Instituto Nacional de Cuidado e Excelência, do Reino Unido. De seguida, a plataforma apresenta ao médico as sugestões de diagnóstico com base nos parâmetros para as várias condições.

“Um médico que tem de receber um paciente em dez minutos ganha o benefício e a experiência de dez mil médicos”, sublinhou Frank Sullivan. “Agora tem-se toda a informação do paciente, laboratório, análises, historial, registo eletrónico de saúde, todos estes critérios perfeitamente organizados em torno da doença e dos critérios de diagnósticos” e todos combinados pelo algoritmo, continuou.
Esta automatização, porém, não dispensa a decisão final do médico, que é quem decide o eventual tratamento e, pelo menos por agora, o acompanha. Porém, nessa fase reside um dos próximos passos que a Enhanced Fertility quer dar no futuro.
“Queremos começar a avaliar que medicamentos são administrados, a que horas, em que formato, a que pacientes, para criar uma sugestão para os profissionais que sejam baseados neste tutorial clínico e nestes resultados”, esclareceu Andreia.
Neste pequeno escritório sem janelas onde a empresa ainda está sediada, há um quadro onde a empresa anota os “Net Babies” que, graças aos diagnósticos e aos tratamentos feitos, a Enhanced Fertility ajudou a fazer nascer. O valor, que à data desta reportagem era de 36 bebés, é calculado com a ajuda dos pacientes que os contactam para falar do sucesso pós-diagnóstico.
“Temos de ter mais bebés”, realçou Andreia Trigo. “O nosso objetivo é contribuir para que nasçam um milhão de bebés no mundo”.




