Deveria ser simples: tratar melhor quem nos é mais próximo. No entanto, nem sempre é assim. Muitas vezes, com estranhos, exibimos mais delicadeza e paciência, enquanto com família ou amigos temos o “pavio curto”. Parece estranho, mas acontece por razões compreensíveis: a intimidade e a familiaridade trazem mais despreocupação. “Perante pessoas que não conhecemos, habitualmente somos mais preocupados com a imagem que vamos causar”, explica Paula Mena Matos, psicóloga clínica, professora associada na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto e diretora do Centro de Psicologia da mesma universidade.
Mas isso não significa que a gentileza com colegas, conhecidos ou desconhecidos seja falsa. Ela é, antes, moldada por uma certa cerimónia social que aprendemos desde cedo que devemos ter. “Há esta ideia de que devemos manter uma certa formalidade e cordialidade no trato com aqueles que não conhecemos bem”, sublinha a psicóloga e investigadora.
Já a intimidade, a história partilhada e a sensação de segurança abrem espaço para uma maior espontaneidade emocional. “A aceitação da família e dos amigos não tem de ser incondicional — e há riscos quando se é demasiado intempestivo —, mas sabemos que, com estas pessoas, provavelmente o laço não está em causa, mesmo que nos mostremos tristes, zangados ou mais agressivos”, explica Paula Mena Matos. Enquanto aos conhecidos mostramos sobretudo a nossa melhor versão, aos íntimos mostramos tudo.
Por outro lado, é nas relações mais próximas que as emoções ganham maior intensidade. As relações distantes permitem uma neutralidade emocional que facilita a tolerância e a cordialidade, mesmo perante comportamentos desagradáveis. “Com a convivência, o afeto desenvolve-se, a ligação emocional intensifica-se e as emoções também — sejam elas positivas ou negativas”, frisa.
A proximidade e a rotina das relações íntimas podem ainda levar a um desgaste. A empatia não é um recurso infinito e tende a esgotar-se mais rapidamente justamente quando há mais envolvimento. Aquilo que nos comove quando ouvimos uma história pela primeira vez, perde impacto quando se repete. A familiaridade transforma-se em antecipação: “já sabia que ia reagir assim”, “estava à espera que dissesse isto”. Criam-se automatismos, e a escuta deixa de ser empática, para se tornar defensiva — não por falta de afeto, mas por saturação.
A empatia também se torna mais difícil quando estamos profundamente implicados na situação. É complicado “calçar os sapatos do outro” quando os nossos próprios interesses, necessidades e desejos estão em jogo. Alguns estudos sugerem que, em contextos de elevada carga emocional ou de conflito recorrente, a capacidade de perspetiva diminui significativamente. A tensão e o envolvimento pessoal ativam respostas emocionais automáticas que interferem com a empatia e a comprometem.
Ao mesmo tempo, há uma expectativa implícita em relação ao outro: esperamos que o nosso pai, marido, irmã ou amiga compreenda, tolere ou reaja de forma empática às nossas emoções e falhas. Quando o outro não corresponde exatamente ao que esperamos, surge frustração, o que aumenta a irritabilidade e falta de cordialidade. Em contrapartida, em interações com estranhos, como não há uma expectativa prévia de compreensão emocional, cada ato de gentileza do outro é um “bónus”, e a nossa reação tende a ser mais positiva. Por isso, a intimidade exige um esforço consciente maior para manter a delicadeza e a empatia.
É por isso que, explica Paula Mena Matos, se usa tantas vezes a metáfora da “conta conjugal” em casais. Nos períodos em que a relação está estável, devem acumular-se interações positivas — companheirismo, compreensão, momentos de partilha. “É como ter nessa ‘conta bancária’ uma reserva ou uma poupança de afeto positivo que ajuda depois a enfrentar períodos mais desafiantes”, explica.
Em conclusão, ser menos gentil com quem nos é próximo não é sinal de menos amor, mas sim de mais familiaridade e maior envolvimento emocional. A intimidade expõe fragilidades, expectativas e cansaços que não existem nas relações superficiais. Reconhecer isso é o primeiro passo para o contrariar e para devolver aos que nos são mais próximos um pouco da atenção e da delicadeza que tão facilmente oferecemos aos estranhos.