Gonçalo Figueiredo já veio ao mundo com uma doença diagnosticada. Tal como a mãe e as irmãs, era portador da “doença poliquística renal”, que foi crescendo com ele. Na idade adulta, tudo se complicou. Não foram apenas os quistos que se foram reproduzindo e aumentando de tamanho — até causarem insuficiência e dependência da hemodiálise — como outras complicações lhe ensombraram os dias, até à insuficiência cardíaca.
Foi um duplo transplante (de coração e rim) que lhe salvou a vida, em 2023, numa operação inédita no Hospital de Santa Marta (HSM), que o leva a apregoar, desde então, uma profunda gratidão ao Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Não foi apenas a delicada cirurgia que fez erguer à sua volta uma muralha de apoio. Já antes a família e amigos se organizavam para tornar mais leves os dias de quem “nunca teve perfil de coitadinho”, como lembra a enfermeira Joana Pinto, especialista em reabilitação. Foi ela que recebeu Gonçalo no programa de reabilitação cardíaca, em condições que, hoje, parecem fantasiosas: mal conseguia mover os pés, um estado geral de debilidade que obrigou a muito trabalho de recuperação física. Para espanto geral, saiu de lá a correr, alguns meses depois.
Graças ao duplo transplante, Gonçalo faz hoje uma vida completamente autónoma, ganhou o vício do exercício físico, corre e participa mesmo em provas de trail. Nos corredores do HSM, todos o conhecem como o mais cumpridor dos doentes.
Maria João e Maria Antónia Figueiredo
“Tratámos muito da alimentação, que é uma das partes mais delicadas no pós-transplante”
Gonçalo tem sido o verdadeiro irmão mais novo, com quem as gémeas Maria João e Maria Antónia, 51 anos, sempre se preocuparam ao estilo maternal. Sobretudo desde que a mãe morreu, em 2007. Atualmente a proximidade descansa-as, já que ele mora no prédio da segunda, e ambos demoram menos de 10 minutos a pé a chegar à casa da primeira. Gémeas verdadeiras, acabaram por fazer a vida lado a lado: estudaram em Évora, são ambas engenheiras do Ambiente, sócias numa empresa da área, o braço esquerdo e direito de Gonçalo sempre que é preciso. E na verdade, apesar da muita autonomia que ele revelou, desde cedo se habituaram aos seus problemas de saúde. Até porque ambas são também portadoras da mesma doença, até agora de forma controlada.
“O diagnóstico dele foi feito quando estava ainda na barriga da nossa mãe”, conta Maria João, que ainda assim não tem memória de uma criança doente. “Só quando já era crescido é que começou a fazer medicação. Mas teve sempre uma vida normal”, acrescenta. O pai morreu novo, aos 50 anos, vítima de enfarte. A mãe acabaria por sucumbir a uma septicemia, na sequência de complicações da doença.
É no regresso do irmão a Portugal (depois de dez anos em Angola) que a insuficiência renal começou a manifestar-se. As irmãs acreditam que o facto de ter voltado “muito em baixo” pode ter precipitado a doença. De resto, ambas acreditam que o irmão estava mesmo mergulhado numa depressão.
Ainda antes da cirurgia para o transplante, foi preciso tornarem-se mais presentes na vida dele, à medida que o viam mais debilitado. Depois da operação, sabiam que ele precisaria muito de ambas. Quando regressou a casa, “ficou muito impressionado, nós tínhamos limpado e arrumado tudo. E tivemos que continuar a fazê-lo, com regularidade. Por exemplo, ele não conseguia fazer a cama, tínhamos de ser nós”, recorda Maria Antónia. A primeira diz-se “mais emocional”, a segunda “mais funcional”. “Também nos organizávamos para ir às compras, para tratar da alimentação, que foi uma das partes mais exigentes depois do transplante.” Juntas fizeram uma bela dupla. Olhando para trás, parece-lhes que “foi tudo uma coisa muito natural”. “Percebemos que era necessário e fizemos”, enfatizam.
Recordam sobretudo a preocupação com os alimentos, pois “ele tinha o sistema imunitário muito em baixo”. E a grande preocupação era a de “fazer tudo ao contrário do que estávamos habituadas. Por exemplo, em vez de frescos, tinha de ser tudo ultracongelado e processado. A fruta tinha de ser de casca dura”, acrescentam. Durante meses, era impensável guardar sopa no frigorífico (ou outros alimentos) para consumir no dia seguinte. Tudo o que Gonçalo comia tinha de ser confecionado e ingerido na hora.
A dificuldade foi “segurar” Gonçalo, tão habituado a “fazer tudo em casa, a ser muito independente”. A partir de certa altura, “íamos lá entregar as compras, era entregar, ver se estava tudo bem e pronto, íamos embora”.
“O maior apoio que eu dei ao Gonçalo foi na parte emocional”, sublinha Maria João. Já Maria Antónia diz que o irmão “tem uma grande consciência desta oportunidade de viver, e faz muito por isso, mantendo os seus hábitos saudáveis”.
Inês Cruz
“Estive sempre muito próxima, mesmo que fosse online”
Inês conheceu o Gonçalo através de uma amiga, dedicada à astrologia. Um outro amigo comum levara-o até ela para que pudesse fazer-lhe o mapa astral, corria o ano de 2019. “Nessa altura eu trabalhava muito com energia, especializada no campo psicossomático. Desde há muitos anos para cá, estou certa de que tudo o que se manifesta no corpo tem causas emocionais por trás, que precisam ser olhadas, vistas, trabalhadas, honradas e integradas. No fundo, ressignificadas”, diz Inês Cruz. “Quando trabalhamos com a causa emocional, o corpo ganha oportunidade de se regenerar também”. Foi nessa linha que tentou ajudar Gonçalo, que lhe apareceu “como se tivesse uma guilhotina em cima”. Mas ainda assim, “havia ali uma janela para fazer uma viragem e se aguentar”.
Fez com ele algumas sessões daquilo a que chama “conversas terapêuticas”, sempre com o objetivo de “desbloquear coisas do passado, que estavam presas emocionalmente”, em paralelo com os tratamentos médicos. “E depois ficámos amigos.”
Viria a pandemia, e nessa altura, um grupo de meditação online foi muitas vezes âncora para este doente e para muitas outras pessoas. “É o meu serviço de voluntariado para a comunidade”, explica ela, que olha para essa abordagem holística como um complemento paralelo aos tratamentos médicos.
Depois do duplo transplante, demorou algum tempo até poder visitá-lo, tanto mais que se encontrava imunodeprimido. “Mas estive sempre muito próxima do Gonçalo, ajudando-o a perceber que era importante dar tempo ao corpo para se regenerar.”
A ligação de ambos é também espiritual. Inês socorre-se muitas vezes de uma frase de Carl Jung (pensador e psiquiatra suíço) para falar do caso de Gonçalo: “Chamado ou não chamado, Deus está presente.” E muitas vezes a repetiu ao amigo, para lhe dar alento na recuperação. “Digo-lhe para confiar, porque tem um anjinho com ele.”
Mais do que acreditar que uma força divina a colocou no caminho de Gonçalo, Inês convence-se também do inverso. “No meio da adversidade, ele tinha sempre uma disposição, uma disponibilidade para os outros. Foi posto à prova, literalmente. E, para mim, enquanto terapeuta, que também recebo muitas pessoas com muitas queixas, com muitas condições, encaro-o como um exemplo. Creio que ele foi colocado no meu caminho para eu perceber que há milagres. O Gonçalo é um milagre”, conclui.
Rui Peixoto
"Nunca deixámos de fazer nada. Ele ia connosco a todo o lado”
Rui e Gonçalo são amigos desde a adolescência. Cresceram juntos, moraram perto, conhecem-se do direito e do avesso. Foram juntos para a universidade, e nem os dez anos em que Gonçalo viveu em Angola afastaram estes amigos. Foi precisamente no regresso de Gonçalo a Portugal (e à Parede, concelho de Cascais) que Rui se apercebeu da condição de saúde que se agravava, ao mesmo tempo que a situação económica também se deteriorava.
Em nome de um grupo mais vasto de amigos, Rui fala de uma preocupação genuína com Gonçalo: “Ele é mesmo muito boa pessoa. E por isso é natural que, quando precisou, toda a gente o tentasse ajudar, fosse com um emprego, fosse com a renda da casa, fosse com o que fosse.”
Os amigos habituaram-se até “à parafernália de coisas de que ele precisava para fazer a diálise em casa”. Rui conta com graça o dia em que o grupo de amigos foi a Espanha visitar um deles que para lá se mudara, e nem equacionaram fazer a viagem sem o Gonçalo. “Nunca deixámos de fazer nada por causa disso, ele ia connosco a todo o lado”, recorda. Ora, a diálise implicava “que ele ficasse 10 ou 12 horas ligado àquela máquina”. Mas naquela noite ele estava cansadíssimo e adormeceu. “A meio da noite começamos a ouvir umas sirenes… Nunca me esqueço do susto que apanhámos, a achar que ele ia morrer ali.” À distância dos anos, e agora que o veem de saúde, a história já só desperta risadas.
Quando a situação se agravou, terão sido os tempos mais difíceis para todos. “Faltava ele. Faltava sempre ele. Depois, em plena Covid, era o mesmo de que apanhasse a doença e como é que se conseguiria safar”, confessa Rui, que ainda há 15 dias andou apreensivo por saber o amigo com febre. “Há um grupo de amigos que está em alerta. Nunca deixamos de nos preocupar com o Gonçalo, mesmo sabendo que a condição dele, depois do transplante, é muito melhor.” Porque no passado ficaram muitas aflições, “coisas mesmo complicadas, como naquela altura em que ele não tinha forma para se equilibrar e segurar a imensa barriga, na fase pior”.
Laura Rodrigues
"Rezava muito pelo meu tio”
Aos 19 anos, Laura Rodrigues já ouviu falar mais do que gostaria da doença hereditária da família, ainda sem saber se também vai fazer parte dessa estatística. Por agora, a estudante de Direito é uma rajada de (boa) energia entre a casa da mãe e dos tios, a única descendente dos Figueiredo. Com o tio Gonçalo tem uma relação bastante próxima, quase como se fossem irmãos, e por isso é por vezes “de cão e gato”, como a própria descreve.
Nos últimos dois anos tudo passou a ser “mais leve”, depois do transplante. A cirurgia aconteceu quando estava de férias no Algarve, e por isso quando voltou a vê-lo já ele recuperava em casa.
Laura considera que o seu papel nesta muralha de amor que se ergueu à volta de Gonçalo foi mais espiritual do que qualquer outra coisa. Tal como ele, também ela é crente, católica, e por isso acedia sem qualquer esforço aos pedidos da mãe, Maria Antónia: “Reza pelo tio”. “E eu rezava muito por ele”, conta ao Observador, na certeza de que essa ligação espiritual foi tão importante para ele como qualquer outra questão prática e palpável.
“O meu tio para mim é um exemplo de fé. E por isso o que eu sentia que devia fazer era rezar, pedir que corresse tudo bem com ele.” E correu. “Ele para mim foi mesmo um exemplo de fé e de esperança; de acreditar que Deus está cá e que olha para nós. E que mesmo quando nos questionamos ‘se Deus é bom porque é que sofremos?’, há sempre um propósito.”
António Gonçalves
"É um doente ótimo para este tipo de terapêuticas, que exigem disciplina”
Há três anos que o cardiologista António Gonçalves acompanha de perto o caso de Gonçalo, no HSM. Recordar-se-á para sempre deste caso, por ter sido o primeiro do género a chegar à sala de operações. “Quando começou a necessitar de hemodiálise colocámos a hipótese de fazer um transplante renal. Nessa altura, ele fez vários exames, e como é normal, estudámos todos os outros órgãos para ver se não havia nenhum problema.”
Nessa altura, em 2021, é detetado um problema numa válvula do coração. Tratámos, de facto, mas começou a evidenciar-se a insuficiência cardíaca”, conta. E acrescenta: “Normalmente o que é mais comum é avaliarmos doentes para transplante cardíaco, e que podem também precisar de um transplante renal, porque a verdade é que quando temos insuficiência cardíaca, a médio e longo prazo, ou seja, ao fim de vários anos, o rim tende a sofrer. No caso do Gonçalo foi exatamente o contrário. Em 2022 os colegas do transplante renal acabaram por retirá-lo da lista para o transplante renal por causa do coração.”
Foi nessa fase que se conheceram. O colega que o seguia na cardiologia falou-lhe do caso. “Eu disse-lhe que tinha algumas ideias para o Gonçalo, que gostava de o avaliar em consulta e de falar com ele.” A ideia era, em primeiro lugar, tentar perceber se havia uma doença reversível cardíaca ou seja, se ele de alguma forma podia reverter o problema do coração para que voltasse a estar em lista ativa para receber o seu transplante renal. “Mas percebemos que, sendo uma pessoa jovem, sem outras comorbilidades [a presença de mais doenças ou condições de saúde], para além da parte renal e do coração, podia ser um candidato a um transplante coração-rim, ou seja, um transplante simultâneo de áreas diferentes”. A equipa fez-lhe então exame de gold standard — “que é a prova de esforço cardiorrespiratório, um exame que se faz com uma máscara especial para ver as trocas de gases. E o Gonçalo cumpria os critérios para transplante cardíaco”, acrescenta.
“No nosso centro hospitalar ainda não tínhamos feito nenhum transplante de coração-rim. Em simultâneo foi o primeiro”, sublinha o cardiologista, destacando o trabalho de ambas as equipas para estabelecer um plano. “Não foi assim tão simples, porque uma e outra trabalham em hospitais diferentes.” O caso revelou-se de sucesso para ambas.
“O Gonçalo é um doente ótimo para este tipo de terapêuticas”, afirma António Gonçalves, sustentando que as mesmas “exigem que as pessoas tenham alguma disciplina, não só em termos de cumprir a medicação, mas principalmente em termos de se manterem pessoas fisicamente ativas e que tenham a capacidade de, numa fase inicial em que houve uma cirurgia major e que é preciso recuperar, haja aquela força de vontade para fazermos mais um bocadinho, tentarmos que se superasse. E o Gonçalo é excecional nessa parte. É fabuloso”. Principalmente há uma coisa que o médico elogia: “Ele sempre foi uma pessoa feliz. Mesmo lutando contra a doença. Nota-se que é uma pessoa radiante, uma pessoa em que nós estamos ao pé dela e ficamos logo bem-dispostos. E nós, equipa médica, também gostamos de ver a felicidade dele, de ver a forma como ele está a encarar a vida. Ficamos felicíssimos quando isso acontece.”
Joana Pinto
“A certa altura já era o Gonçalo que puxava por nós”
Escolheu desde cedo o caminho da reabilitação na enfermagem, e nos últimos anos, concentrou-se sobretudo no coração. É ela quem coordena o programa de reabilitação cardíaca do HSM, foi ela quem recebeu Gonçalo Figueiredo naquele outono de há dois anos. Lidera uma equipa composta por várias pessoas: enfermeiros, técnicos de cardiopneumologia, fisioterapeutas, um fisiatra e um médico cardiologista. Lembra-se bem do impacto que ele lhe causou, por estar “muitíssimo debilitado, tinha muito pouco músculo, vindo de um internamento que embora não fosse muito longo, foi muito complexo”. “A própria equipa não sabia muito bem como lidar, porque aquela era uma novidade também para nós: um doente com duplo transplante”, conta, ela que ainda hoje olha para a reabilitação cardíaca como “um mundo”, mas onde há um ponto fulcral: “a mudança de estilos de vida, em que a componente do exercício físico é muito importante”.
Lembra-se olhar para ele e pensar como a equipa o poderia ajudar, tal era a debilidade, e a complexidade, por ser um transplantado de rim e coração, sublinha. Mas a enfermeira percebeu, desde logo, que o Gonçalo era uma pessoa muito resiliente. “Ou seja, chegou aqui também com algumas queixas osteoarticulares, de um pé, de um joelho, enfim, mas com uma vontade imensa de recuperar e fazer tudo”.
A enfermeira recorda sobretudo as “extremas dificuldades na passadeira, em que mal conseguia mover os pés”. Porém, não demorou muito para que quase se invertessem os papéis: “Nós ‘picamos’ muito as pessoas para conseguir que se esforcem no exercício, mas a certa altura já era o Gonçalo que puxava por nós”, recorda, ela que foi a grande responsável pelo gosto que este doente acabou por ganhar pelas corridas e pelas provas de trail.
Nesse caminho com dois sentidos, que numa primeira fase durou cerca de quatro meses, Joana Pinto percebeu que estava perante um dos doentes mais comprometidos de que tem memória. “A reabilitação é uma aprendizagem que o doente faz e que deve replicar para o resto da vida. Mas isso nem sempre acontece. Com o Gonçalo, tenho a certeza de que vai ser.”
É certo que nem todas as pessoas têm oportunidade para fazer dois programas (como aconteceu com este doente), mas “no caso dele, nós sabíamos que seria um grande benefício”. “Ele estava altamente motivado, era altamente cumpridor. Na reabilitação, por ser uma mudança de estilo de vida, muitas das vezes as pessoas não estão abertas a essa mudança e facilmente voltam ao que faziam no passado: pouco cuidado com a alimentação, falta de exercício e hábitos de vida saudáveis. O Gonçalo nunca teve isso. Era tão comprometido que nunca faltava.”
Orgulhosa dos muitos casos de sucesso que tem acompanhado — alguns deles já aqui contados na secção Arterial — a enfermeira admite que, com um transplantado, “o Gonçalo é talvez o doente que nós nós tivemos mais sucesso”, nesse campo.
Joana Pinto lembra, porém, que não é apenas falta de vontade dos doentes, quando não existe adesão ao programa: “Infelizmente os programas de reabilitação que existem são feitos na sua maioria em horário laboral, e sobretudo as pessoas mais jovens, que trabalham, muitas vezes não contam com a colaboração das entidades patronais.”
Gonçalo Figueiredo
"Sou hoje um filho do SNS, a quem devo a minha vida”
Quando Gonçalo voltou a casa, mais de um mês depois de ter recebido um rim e um coração doados, percebeu que o caminho era mais longo do que imaginava. Não apenas as escadas que o levavam ao apartamento onde mora, sozinho, na Parede (Cascais), mas toda a vida — como a conhecia. “Nós temos aquela ideia preconcebida de que temos de comer tudo fresco, os legumes, a fruta, a carne e o peixe. Naquela altura passei a comer tudo ultracongelado ou processado, por exemplo”, por causa dos micróbios ou bactérias que eram — como ainda hoje são — um perigo para a sua saúde.
No verão de 2023, Gonçalo Figueiredo renasceu — como costuma dizer — graças a um SNS que nunca desistiu dele. Uma impressionante articulação entre serviços da Unidade Local de Saúde (ULS) de São José (que integra os hospitais de Santa Marta e Curry Cabral, entre outros) permitiu que fosse submetido a um duplo transplante, de rim e coração, numa longa e arriscada operação, que acabou bem. Gonçalo tinha 43 anos, já nascera com a doença renal poliquística diagnosticada, e vivera metade da vida ligado a máquinas de diálise. À insuficiência renal juntou-se, com o passar do tempo, a insuficiência cardíaca, que o colocaram numa lista de espera para transplante.
Em agosto de 2023, havia um rim e um coração para ele. Sabia bem dos riscos da operação, bem como da difícil recuperação, até porque já fora submetido, dois anos antes, a uma cirurgia a uma válvula do coração. Mas sabia também que tinha ao seu redor a melhor família que lhe poderia ter calhado em sorte: as duas irmãs, a sobrinha, um grupo de amigos que nunca lhe largou a mão, e que nos momentos mais difíceis da vida se mobilizou para o ajudar, até financeiramente. “Houve uma altura em que eu estava desempregado, o subsídio de desemprego a acabar, e os meus amigos organizaram-se para me arranjar trabalho, e quotizaram-se para pagar a renda da casa”, recorda Gonçalo, no dia em que juntou na casa de uma das irmãs essa rede mais próxima que o ampara, todos os dias.
É funcionário da União de Freguesias de Carcavelos e Parede, dedicado à contratação pública desde 2022. Mas até chegar a esse patamar de estabilidade, fez “muita coisa, em muito sítio”, incluindo dez anos em Angola, na área das finanças e construção.
Os pais morreram cedo. A mãe era enfermeira, conhecia bem a doença que passou ao filho, e Gonçalo acredita que, quando o viu crescido e estável, “deixou-se ir”. Casou, divorciou-se, nunca teve filhos, mas mantém com a sobrinha Laura uma relação de grande proximidade. Sempre foi muito ativo na comunidade, nomeadamente no agrupamento de escuteiros. De resto, estava num acampamento quando, aos 23 anos, a doença começou a dar sinais de agravamento, e rebentou um dos quistos.
Mas haveria de passar mais 20 anos, entre tratamentos e hospitais, até receber um transplante e viver, enfim, um quotidiano normal. Em Angola, as coisas começaram a complicar-se. “Notava a barriga a crescer [sinal de que os quistos estavam a aumentar muito], urinava menos vezes… Até que me foi diagnosticada uma nefrite”, conta ao Observador.
Em agosto de 2017 começava a fazer diálise peritoneal. Mas “a barriga era muito alta, não havia espaço… e passei para a hemodiálise. A partir daí sabia que o próximo passo seria o transplante”. Nessa altura vivia num terceiro andar, sem elevador, obrigando-se a subir e descer 52 degraus. O cansaço era cada vez maior, mas Gonçalo acreditava ser “tudo normal”, atendendo à doença. Não era. Estava a ficar também com insuficiência cardíaca, já que um dos efeitos (da doença crónica hereditária de que era portador) pode ser a falência ou debilidade de outros órgãos. Acabou por ser operado, numa cirurgia que lhe substituiu a válvula aórtica.
O transplante (com ambos os órgãos do mesmo dador, até para minimizar as incompatibilidades) durou toda a noite de 10 para 11 de agosto. Primeiro o de coração, depois o rim. “Nunca tive medo. Os médicos explicaram-me tudo, até quando estavam a fazer experiências. Não me canso de dizer que sou hoje um filho do SNS, é a ele que devo a minha vida.”
“Eu confiava na equipa médica. Lembro-me de perceber que aquilo estava a ser tudo tão rápido que quase nem me dava tempo de pensar muito, só de ter olhado para o consentimento e… pensar: seja o que Deus quiser.” Gonçalo é um católico dedicado, crente, acima de tudo. Todos os anos vai em peregrinação a Fátima, integrado no “grupo da diálise”, organizado por enfermeiras dessa especialidade.
Depois da operação, esteve internado durante 28 dias. “Geralmente, ao fim de 11 dias as pessoas vão para casa. Só que lá para o 11.º dia detectaram-me a subida de uns valores inflamatórios. Fizeram umas análises e viram que estava a ter uma uma dupla rejeição do rim. Para além do órgão, implicava também os tecidos”, conta. Transferiram-no então do HSM para o Curry Cabral, mais preparado para as questões renais. Gonçalo haveria de debelar mais essa contrariedade. E finalmente regressar a casa, onde as irmãs e os amigos se revezaram para que tivesse todo o conforto, descanso absoluto, a melhor alimentação. Por sorte, já morava agora num primeiro andar, no mesmo prédio da irmã Maria Antónia.
Dois meses depois, entrava no programa de reabilitação cardíaca do HSM. “Os meus pés pareciam dois tijolos, tal era a dificuldade em me movimentar. Andava na passadeira a três à hora. Mas graças à enfermeira Joana [que se tornou também sua amiga] tive uma evolução tal que saí de lá a correr. Quando terminei o programa fui participar numa prova”, recorda Gonçalo, que hoje faz exercício físico com regularidade, e participa em provas até 10 km. Até então, nunca correra. Gosta de treinar à beira-mar, junto ao paredão, na Parede. “Ainda há dias, nas minhas conversas com Deus, agradecia ter-me acontecido isto, e começar a correr. Atualmente já poucas vezes pego no carro, a não ser que seja mesmo necessário. Faço tudo a pé”, acrescenta.
Além disso, continua a fazer meditação, com o grupo online organizado pela amiga Inês. Mantém uma vida social ativa, e diz que é, acima de tudo, “uma pessoa muito grata”. “Nas minhas orações sempre pedi alento para continuar. E acredito que o transplante — que me permitiu ter esta vida — foi o reflexo disso mesmo”. Por isso, nos desejos de Natal e Ano Novo, continua a figurar apenas um: saúde.