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O menino humilde que largou a poeira e se fez à estrada para ser rosa: Afonso Eulálio, o novo líder do Giro

Fez-se ciclista no BTT, mas foi na estrada que encontrou o rumo que o levou ao topo do ciclismo em cinco épocas. Um ano chegou para brilhar no Mortirolo, ser nono no Mundial e liderar o Giro.

Tiago Gama Alexandre
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(Artigo originalmente publicado a 1 de outubro de 2025 e agora republicado por ocasião da camisola rosa de Afonso Eulálio na Volta a Itália)

Terra de magos, de ilusionistas, de artistas e de desportistas. É no centro de Portugal que se encontra uma das cidades mais multifacetadas do país. Localizada junto à foz do rio Mondego, a Figueira da Foz possui um dos maiores areais da Europa, tem o casino mais antigo da Península Ibérica e possui diversas infraestruturas históricas e culturais. No desporto não é exceção, apesar de os tempos de glória da mítica Naval 1.º de Maio, que entretanto foi extinta e deu lugar à Associação Naval 1893, terem ficado no passado. Ticha Penicheiro e Hugo Almeida são, provavelmente, os nomes mais sonantes que a cidade trouxe ao mundo, mas é do ciclismo que a Figueira da Foz vive na atualidade, depois de António Alves Barbosa e José Bento Pessoa terem feito história nos séculos passados.

Falar de ciclismo e falar da Figueira da Foz é, em 2025, o mesmo que falar de uma das principais clássicas “alternativas” do calendário mundial. Seja pela dureza, pelas condições meteorológicas ou pelas paisagens da região, a Figueira Champions Classic precisou de apenas três anos para se afirmar no cenário internacional, contando com o apoio da economia da região, em particular do casino, que tem sido o principal patrocinador da corrida. É aqui que entrar Afonso Eulálio, o último ciclista português a conseguir passar diretamente do pelotão nacional para o World Tour. Natural da freguesia de Ferreira-a-Nova, o ciclista de 23 anos precisou de apenas uma temporada para confirmar o estatuto de promessa, apesar de estar numa equipa que deposita as suas esperanças em Antonio Tiberi, Lenny Martinez e Pello Bilbao. Na Bahrain-Victorious, Eulálio deu a Portugal o seu quinto top 10 em Mundiais, juntando-se a Rui Costa (vencedor em 2013, nono em 2015 e décimo em 2018 e 2019).

https://observador.pt/2025/09/28/a-fuga-de-ivo-loucura-nas-estradas-um-eulalio-top-10-e-o-esticao-no-monte-que-trouxe-o-arco-iris-pogacar-e-bicampeao-mundial

O resultado foi de tal forma surpreendente que, no dia da corrida de fundo, o nome do português foi o segundo mais pesquisado na base de dados do Pro Cycling Stats, que tem uma das maiores bases de dados de ciclismo, com mais de 31 mil visualizações. Só o bicampeão Tadej Pogacar gerou mais visitas que Eulálio. Numa das edições com mais dureza de sempre, o atleta chegou a Kigali depois de ter dado boas indicações nas clássicas canadianas, no Québec (33.º) e em Montréal (não terminou) que serviram de antecâmara aos Mundiais do Ruanda. O português foi um dos destaques da prova e, aos 23 anos, precisou de apenas um ano no World Tour para deixar a sua marca na prova mais concorrida do calendário do mundial. Eulálio esteve com os favoritos até às derradeiras voltas e cedeu apenas nos últimos quilómetros, terminando num honroso nono lugar, a 7.06 minutos de Pogacar, e numa prova em que apenas 30 dos 165 ciclistas terminaram.

“Sabia que vinha bem, mas nunca pensei fechar no top 10. Foi um Mundial super duro, mas consegui gerir a corrida. Quando o Pogacar atacou de longe, não fui ao choque nem ao limite, porque sabia que a perseguição seria feita por um grupo maior. Procurei poupar-me e fazer diferenças onde sabia que podia. Conseguir um top 10 num Mundial é muito motivador. Passei o ano a trabalhar para a equipa e, agora, no final da época, alcançar este resultado é muito gratificante”, assumiu Afonso Eulálio, citado pela Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC).

“O Mundial é mais uma prova daquilo que o Eulálio tem feito”

O resultado de Afonso Eulálio no Ruanda acabou por surpreender grande parte do mundo do ciclismo. Um desses casos é o de Luís Beltrão, fundador da plataforma especializada TopCycling e comentador do Eurosport Portugal, que contou ao Observador que esta edição “foi caracterizada pela imprevisibilidade”, que se traduziu em diversas “surpresas”. “Acho que o Eulálio, com a qualidade que tem e a abordagem que fez, com a Seleção, esteve bem. O Mundial foi muito por eliminação. O Eulálio defendeu-se, esteve no sítio certo e foi resistindo. É mais uma prova daquilo que o Eulálio tem feito nesta temporada, com muitos dias de competição. Estamos a falar de um ciclista que chegou à Bahrain porque tem qualidade. O Eulálio já fez Voltas a Portugal, que são caracterizadas pelo calor. Por exemplo, o Artem Nych, que venceu este ano a Volta, também fez um excelente Mundial [24.º]. Talvez isso tenha sido mais um pontinho a favor”, acrescentou.

"Um ciclista com a idade do Afonso Eulálio, que só tinha estado em estruturas portuguesas, competido em Portugal e que de repente cai no World Tour e faz o que ele fez este ano... Podemos esperar coisas muito boas dele. Acho que ele pode chegar longe"
Luís Beltrão, fundador da plataforma especializada TopCycling e comentador do Eurosport Portugal

“O Afonso é um escalador, um ciclista de montanha. Já mostrou na Volta a Portugal que pode lutar pela geral em voltas de uma semana. Este ano foi convocado para o Giro, o que foi um bom sinal. Só o facto de ter sido convocado para uma das três Grandes Volta mostra que, dentro da estrutura da Bahrain, veem grande valor nele, não obstante da juventude e da falta de experiência. É sinal que os dados são bons e que dá confiança. O primeiro ano dele no World Tour é muito positivo. Voltista? Sem dúvida. Na Volta a Portugal mostrou que pode ser regular. A prova de que ele se pode tornar num voltista foi a chamada ao Giro. Quando um atleta é bom e tem qualidades físicas e mentais, acaba por se revelar. O Joaquim Andrade tem muita experiência, tem levado o Feirense a bons resultados e tem olho para escolher os ciclistas e desenvolvê-los. O que me espanta não é a evolução, é o trajeto que ele fez. Antes do Afonso teríamos que recuar alguns anos para vermos ciclistas jovens que tenham saído diretamente para o World Tour. O Afonso fez a sua evolução numa equipa portuguesa, que não compete internacionalmente como as equipas de Sub-23. O facto de ele se estar a dar bem é bom para o ciclismo português. Os olheiros estão mais atentos ao que se passa em Portugal”, explicou Beltrão.

Quanto ao futuro, o comentador considera que Eulálio vai estar “presente mais vezes em Grandes Voltas” ao serviço da atual equipa. “O Eulálio é um ciclista muito humilde, que parte do princípio de que está ali para aprender. O World Tour é uma coisa completamente à parte, as distâncias são maiores, as horas de corrida são maiores, a diferença de ritmo é abismal e o nível competitivo é maior. Um ciclista com a idade do Afonso Eulálio, que só tinha estado em estruturas portuguesas, competido em Portugal e que de repente cai no World Tour e faz o que ele fez este ano… podemos esperar coisas muito boas dele. Acho que ele pode chegar longe. Não sou visionário, não sou futurologista, mas acho que ele nos vai dar alegrias e que pode fazer uma boa carreira no World Tour. Tem mais um ano de contrato e tem qualidade para se manter”, concluiu Luís Beltrão em declarações ao Observador.

https://twitter.com/FeirenseCycling/status/1870556933541048403

O início no BTT, o menino com “fibra de ciclista” e a lesão inusitada na temporada de afirmação

Falar de Afonso Eulálio é falar de um dos melhores ciclistas portugueses da atualidade e de um percurso que esteve longe do convencional. Apesar de ter nascido numa região em que o ciclismo é imagem de marcar, Eulálio fez toda a juventude no BTT e só no segundo de júnior decidiu experimentar a vertente de estrada. A adaptação foi rápida, a progressão não ficou atrás e, no primeiro ano, apresentou-se como um dos juniores mais consistentes, vencendo o Circuito de Argoncilhe, o Memorial aos Ciclistas de São João de Ver e o Memorial Bruno Neves, para lá das oito vitórias que rubricou no BTT. Em 2020 deu o salto do São de Ver para a estrutura principal do Feirense, pela mão de Joaquim Andrade, antigo ciclista que esteve em ação nas décadas de 80 e 90 do século passado, bem como na primeira deste século, e conquistou a Volta ao Algarve, a Volta ao Alentejo e duas etapas na Volta a Portugal. Assim, com apenas 18 anos, o “pequeno” Afonso já se encontrava no topo do ciclismo português e na terceira divisão internacional, a Continental.

“A primeira corrida que vi do Afonso Eulálio foi em setembro de 2019, ainda era júnior. Estava no São João de Ver, equipa parceira do Feirense. Como era um circuito pude presenciar. O que mais me fascinou é que ele não era o mais forte, havia miúdos muito acima, e ele passou sempre em sofrimento. Na parte final vejo-o ao fundo da reta, isolado, com uns metros [de vantagem]. Aproveitou que se estavam a marcar, arrancou de trás e passou direto. Disse: ‘Este gajo tem fibra de ciclista’. Mudança para o Feirense? Penso que foi importante ele sentir aquele apoio, porque tenho a certeza que na altura ele imaginava vir a ser uma pequena parte daquilo que é hoje. É um excelente trepador, que faz muito bem as montanhas longas, e tem um espírito de adaptação. Está sempre disponível para o que a equipa pede, seja atacar em benefício próprio, seja ajudar os colegas. Para mim essa é a característica que o marca e tem ajudado à progressão que tem tido ano após ano”, contou Joaquim Andrade, diretor desportivo da formação sediada em Santa Maria da Feira, que atualmente compete como Feirense-Beeceler.

https://twitter.com/BHRVictorious/status/1851601358975094978

No primeiro ano como profissional, Afonso Eulálio integrou uma equipa bastante jovem, em que o ciclista mais velho era Rafael Reis, com apenas 27 anos. Para além do foguete de Palmela, o menino de 18 anos contou ainda com a experiência de Óscar Pelegrí. Com uma temporada mais reduzida motivada pela pandemia da Covid-19, e que levou a Volta a Portugal a ser organizada pela FPC, Afonso estreou-se no Circuito de Getxo-Memorial Hermanos Otxoa, em que acabou no 97.º e antepenúltimo lugar, mas começou desde logo a competir frente às equipas do World Tour. Seguiram-se os Campeonatos Nacionais, onde foi 18.º no contrarrelógio e 14.º na prova de fundo, ambas no escalão de Sub-23. A fechar a curta época, esteve no Grande Prémio Internacional de Torres Vedras-Troféu Joaquim Agostinho, em que terminou no 63.º lugar da geral e no 14.º da classificação da juventude.

O ano de 2021 ainda foi condicionado pela pandemia, mas permitiu a Afonso Eulálio ter mais dias de corrida (14), distribuídos por pouco mais de dois mil quilómetros. Depois do 37.º lugar na Clássica da Arrábida, o figueirense progrediu nos Campeonatos Nacionais e foi 11.º no contrarrelógio e nono no fundo em sub-23, naquele que foi o seu primeiro top 10 como profissional. Na Volta ao Alentejo, foi o oitavo melhor jovem, seguindo-se mais uma participação simbólica no Troféu Joaquim Agostinho. O ano terminou com três provas internacionais: a Prueba Villafranca-Ordiziako Klasika, em Espanha (não acabou), e a clássica Paris-Chauny (104.º) e o Tour de Vendée (não acabou), ambas em França. O melhor estava por vir e apareceu no ano seguinte, já como ciclista da Glassdrive Q8 Anicolor, formação que, à data, procurava contornar o domínio desportivo da W52-FC Porto.

Na nova equipa, Afonso estreou-se na Volta Algarve e participou no célebre Grande Prémio Miguel Indurain (desistiu de ambas) e, a meio da temporada, conquistou a sua primeira vitória, ao sagrar-se… campeão nacional de Sub-23. Na prova realizada em Mogadouro, Eulálio bateu Afonso Silva ao sprint. “A corrida foi muito dura, como eu gosto. Também um pouco caótica, com muitos ataques. Os adversários estavam muito fortes e eu comecei por não me sentir muito bem. Com o passar dos quilómetros acabei por sentir-me melhor e ataquei. Quando me vi na frente foi até ao fim. Não há palavras para descrever o que sinto. Sempre desejei andar um ano com a bandeira de Portugal. Agora vou aproveitar o momento e desfrutar desta felicidade”, explicou no final da prova. Com a bandeira de Portugal ao peito, o ciclista esteve ainda na Volta a Castela e Leão, que voltou a não completar, e teve a sua experiência numa prova de sete ou mais dias: a Volta a Portugal. O resultado individual foi inócuo, já que a sua equipa acabou por dominar a prova, colocando Maurício Moreira, Frederico Figueiredo e António Carvalho no pódio, vencendo ainda a camisola da montanha e a geral por equipas.

https://youtu.be/mBq0x_gooDQ

“O ano do salto foi 2022 porque fui campeão nacional. Em 2023 foi a continuação de todo o trabalho que vinha a realizar. Foi incrível poder representar a seleção, comecei a ganhar confiança e tive ótimos resultados no resto da época”, explicou Eulálio em entrevista ao TopCycling. De regresso à então ABTF Betão-Feirense, o jovem atleta teve em 2023 mais um ano de crescimento, embora ainda com o estatuto de gregário – que, na verdade, nunca chegou a perder. A primeira metade da temporada foi positiva, com destaque para o 20.º lugar na Prova de Abertura (ajudou Santiago Mesa a vencer), o segundo lugar na juventude do Grande Prémio O Jogo e a estreia na seleção nacional, através da Taça das Nações de Sub-23, onde esteve no Orlen Grand Prix (António Morgado foi sexto) e na Corrida da Paz, em que foi sétimo e superou o melhor resultado de sempre de Portugal, entretanto igualado por Daniel Lima em 2025. No horizonte estava a Volta a França do Futuro, mas o cruzamento de datas com a Volta a Portugal levou-o a abdicar do último patamar de Sub-23.

Já depois de ter sido o melhor jovem do Troféu Joaquim Agostinho, Eulálio despontou na Grandíssima, ao levar António Carvalho ao terceiro lugar e a terminar no segundo lugar da juventude, classificação que liderou em cinco etapas e chegou a ter uma vantagem superior a 10 minutos, mas o trabalho em prol do líder levaram-no a perder a liderança no contrarrelógio de Viana do Castelo. Ainda assim, ficou a apenas 47 segundos de Jaume Guardeño. Acabou a temporada com um segundo lugar no Grande Prémio de Mortágua-Pedro Silva e o regresso ao Paris-Chauny e ao Tour de Vendée, que voltou a não terminar. Pouco depois, em dezembro, já durante a preparação para a nova época, Afonso Eulálio sofreu um revés que acabou por condicionar as primeiras corridas de 2024: enquanto fazia mudanças, atirou um sofá pela janela e deu um “mau jeito”. O gesto banal levou-o ao segundo lugar da Prova de Abertura e a abandonar a Figueira Champions Classic e a Volta ao Algarve.

A Volta às Astúrias acabou por ser mais uma marca internacional que se juntou ao seu currículo, com Afonso Eulálio a ser quarto na primeira etapa, ganha por… Isaac del Toro. A regularidade manteve-se nas restantes etapa, e o português acabou por terminar em quinto na geral e segundo na juventude, com o mexicano a triunfar nas duas classificações, com menos 1.48 minutos. Seguiu-se um segundo lugar na última etapa do Grande Prémio Anicolor e o triunfo no Alto de Montejunto, num Grande Prémio de Torres Vedras em que foi segundo na geral e o melhor jovem. Seguiu-se a Volta a Portugal… de Afonso Eulálio.

Numa das edições mais espectaculares dos últimos anos, Eulálio entrou como principal escudeiro de António Carvalho e acabou por mostrar que estava pronto para outros voos. Foi segundo na Torre, depois de ter assumido as despesas da corrida durante grande parte da corrida e perdido ao sprint para Sergio Chumil e liderou a prova durante sete dias, quebrando apenas na Senhora da Graça, no penúltimo dia de competição. Ainda assim, terminou no décimo lugar e deu boas indicações em Getxo (nono) e no Grande Prémio Jornal de Notícias (terceiro com uma vitória de etapa). A boa forma levou-o à estreia na seleção de elites, nos Mundiais de Zurique, que não terminou devido a uma queda.

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Um ano de crescimento na estreia junto dos pesos pesados

Fruto dos bons resultados internacionais, Afonso Eulálio cultivou a atenção de diversas estruturas do World Tour. Ainda assim, só Bahrain-Victorious e Cofidis consumaram o interesse no português, que rumou à formação do Golfo Pérsico para se tornar no primeiro português a representar a equipa fundada em 2017. Assinou contrato por dois anos e, aos 23 anos – completou 24 esta terça-feira –, pode assim viver a primeira experiência internacional. Há mais de uma década que um ciclista português não dava o salto do pelotão nacional para o World Tour, algo que não ocorria desde que Mário Costa rumou à Lampre-Merida, em 2015.

Esse dado permite perceber que, depois de passar por dias negros motivados por dezenas de casos de doping, o ciclismo português estava finalmente a dar a volta à situação e a surgir como uma montra de jovens promessas. Afonso Eulálio faz parte desse predicado, num ano em que Julius Johansen passou da Sabgal-Anicolor para a UAE Team Emirates, e Francisco Peñuela (Rádio Popular-Paredes-Boavista) e Abner González (Efapel) assinaram pela Caja Rural-Seguros RGA.

Eulálio uniu-se à equipa no final do ano passado, no estágio de pré-temporada que decorreu em Valência. Na Costa Valenciana, o português contou, em entrevista ao TopCycling, que a mudança foi drástica, porque passou a ter 30 companheiros de equipa, de 16 nacionalidades diferentes. “O staff é mais do dobro dos ciclistas. Nunca sonhei chegar ao World Tour. Quando fazia BTT, jogava Pro Cycling Manager no computador e jogava com as equipas do World Tour. Jogava com um dos nossos diretores, o Roman [Kreuziger]. As equipas portuguesas não correm muito fora do país. O Feirense acabou por fazer esforço, até por causa de mim, porque eu pedia. Em Portugal tínhamos uma família. Foram cinco anos ligado às mesmas pessoas. Gosto muito de ser agressivo e de atacar. Gosto de ser um ciclista muito ofensivo. Na minha primeira corrida, em Getxo, acabei quase em último e quem ganhou nesse dia foi o [Damiano] Caruso. O Pello Bilbao fez sexto. É gratificante estar aqui com eles. O objetivo é ajudar os colegas e tentar aproveitar as oportunidades”, explicou.

A língua acabou por ser um dos problemas que o português enfrentou ao início, embora tenha contado com a ajuda do colega de quarto Edoardo Zambanini, que é italiano, e do espanhol Pello Bilbao. A estreia aconteceu na Austrália, no Tour Down Under, em que acabou no honroso 15.º lugar. Regressou a Portugal no Algarve, estreou-se nas clássicas da Primavera na Strade Bianche e fez o Tirreno-Adriatico, a Volta à Catalunha e a Volta aos Alpes como preparação para a Volta a Itália, a sua primeira Grande Volta. A estreia no Giro foi pautada por momentos de destaque, de superação e, sobretudo, de apoio a Tiberi. A 17.ª etapa, que ligou San Michele all’Adige (Fondazione Edmund Mach) a Bormio, acabou por ter a marca de Afonso Eulálio, que integrou a fuga do dia durante mais de 100 quilómetros, e foi o primeiro a passar no mítico Passo del Mortirolo, o que lhe valeu a conquista do troféu Montanha Pantani. No final foi décimo na etapa e acabou por desistir da corsa rosa a dois dias da chegada a Roma, devido a dores no ombro direito.

https://twitter.com/giroditalia/status/1927727144039276779

Já na segunda fase da temporada, Afonso Eulálio conquistou o 28.º lugar na Volta a Burgos, tendo sido terceiro na primeira etapa, seguindo-se um 59.º posto na Clássica da Bretanha. Na Volta à Grã-Bretanha voltou a deixar boas indicações e foi sexto classificado na geral, a 12 segundos de Romain Grégoire. Por fim, Eulálio competiu no Canadá, antes de alcançar o melhor resultado da temporada em Kigali. No final da época passada, o português chegou a estar na lista do selecionador nacional, José Poeira, para os Campeonatos da Europa de França, mas a prestação no Ruanda levou-o a ser chamado pela Bahrain para as clássicas italianas de fim de temporada. Depois de não ter ido além de um 52.º lugar na Tre Valli Varesine, ainda que se tenha mostrado numa das fugas, o ano de 2025 de Afonso Eulálio terminou, na Taça do Japão, onde foi 21.º no Criterium e 34.º na corrida de fundo. Ao todo, o figueirense correu mais de 10.700 quilómetros em 68 dias de competição.

O regresso a Itália para continuar um sonho que esteve cinco anos em standby

Cinco anos e meio depois do Etna, Potenza entrou para a história do ciclismo português. Foi num dia chuvoso e com uma movimentação precisa no início da quinta etapa da Volta a Itália de 2026 que Afonso Eulálio atingiu o ponto mais alto de uma curta carreira que promete não ficar por aqui: depois de ter sido segundo atrás de Igor Arrieta (UAE Team Emirates-XRG), o figueirense subiu ao pódio do Giro para vestir a camisola rosa – e a branca, de líder da juventude. Por um lado, foi o culminar de um sonho. Por outro, foi o prolongar de um sonho que desapareceu na tarde de 22 de outubro de 2020, quando João Almeida sucumbiu à luta pela rosa no temível Stelvio. Desde então, Portugal nunca mais voltou a envergar a camisola da liderança na corsa rosa, ainda que Ruben Guerreiro tenha vencido a classificação da montanha nessa edição e que o Bota Lume tenha sido terceiro na edição de 2023, na qual venceu uma etapa e foi o melhor jovem.

https://observador.pt/2026/05/13/corrida-molhada-corrida-abencoada-o-dia-perfeito-afonso-eulalio-e-camisola-rosa-no-giro/

O regresso à Volta a Itália surgiu como mais uma recompensa pelo grande trabalho que Afonso Eulálio tem feito na Bahrain. Para lá de tudo o que conseguiu mostrar na época de estreia no WorldTour, o ciclista de 24 anos começou a atual temporada em grande plano na Volta à Arábia Saudita, tendo terminado no quinto lugar da geral, já depois de ter sido segundo na terceira etapa, que perdeu ao sprint para Yannis Voisard (Tudor). Depois de ter continuado no Médio Oriente, tendo sido 55.º na Volta aos Emirados Árabes Unidos, Eulálio foi 27.º na Strade Bianche e esteve na Volta à Catalunha a preparar o Giro. Na prova espanhola não foi além de um 46.º posto na geral, mas contribuiu para o segundo lugar final de Lenny Martinez. Já depois de ter feito o habitual estágio em altitude, Afonso regressou na Liège-Bastogne-Liège (62.º) e na Eschborn-Frankfurt (37.º), na antecâmara da corsa rosa, a que chegava como um dos principais escudeiros de Santiago Buitrago e Damiano Caruso.

Contudo, as ambições da Bahrain-Victorious em Itália mudaram muito rapidamente, já que o colombiano foi “apanhado” na queda massiva que assolou a segunda etapa, abandonando de imediato a corrida. A partir daí, equipa comandada por Franco Pellizotti trocou a luta pela geral por tentar ganhar uma etapa, algo que até podia ter acontecido na quarta etapa, quando Eulálio foi sexto em Cosenza. 24 horas depois, o português integrou a fuga do dia, ficou apenas com a companhia de Arrieta na fase final, isolou-se quando o espanhol caiu, voltou a ter companhia depois de ter ido ao chão e, num final explosivo, terminou em segundo lugar, resultado que lhe permitiu assumir a liderança, com quase três minutos de vantagem para o Emirates. Para lá de todo o simbolismo que norteia as hostes nacionais, esta liderança marca a ascensão da Bahrain-Victorious nas Grandes Voltas, depois do fatídico ano de 2023, marcado pela morte de Gino Mäder – que venceu no Giro há exatamente cinco anos -, devido a uma queda na Volta à Suíça. Nesse ano, Wout Poels triunfou na Volta a Espanha, naquele que foi o último grande vislumbre da equipa.

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“Liderar num Giro não é só o nível físico. Se corres para a geral, estás sempre a arriscar quedas porque não queres perder tempo e tens que correr sempre na frente, todos os dias. Além disso, o contrarrelógio é muito longo e não me favorece. Prefiro desligar logo na primeira etapa, levar cinco minutos e fazer os dez quilómetros finais sem arriscar. Fui da Volta à Catalunha diretamente para a altitude, por isso o meu maior medo é não ter recuperado bastante, porque continuei a treinar bastante. Quando se está bem não se pode querer mais e mais, tem que se recuperar. Quanto a ganhar uma etapa, depende do que as outras equipas querem. Se o Jonas Vingegaard quer ganhar a etapa, basicamente é ler a corrida dia a dia e ir tomando decisões”, contou Eulálio ao TopCycling antes do Giro. A viver um momento inédito, o português tem agora uma saborosa missão em mãos: gerir a liderança numa Grande Volta.