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António Lobo Antunes: a ordem natural de um gigante

João Bonifácio escreve sobre o escritor sobre quem temos uma "dívida monumental", para lá de adjetivos e prémios: "ensinou-nos a virar os ouvidos para dentro e ouvir a nossa pequena voz interior".

João Bonifácio
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António Lobo Antunes morreu esta quinta-feira, 5 de março, aos 83 anos.

É muito provável que George Steiner nunca tenha entrado na Fábrica Simões, em Benfica (Lisboa), até porque durante muitos anos, mais especificamente entre 1921 e 1987, a Fábrica não foi propriamente um lugar de literatura, antes da azáfama diária própria de uma indústria: era para ali que se deslocavam diariamente certa de 1500 empregados, que se dedicavam à produção de roupa – camisas, meias, lingerie, enfim, objetos que pouco interessariam ao ensaísta.

Depois a fábrica ficou ao abandono, até que há uns anos surgiu um projeto que visava transformar o edifício num espaço dedicado à cultura. E é ali, na Avenida Gomes Pereira, que se espera há já algum tempo a Biblioteca de Benfica — António Lobo Antunes, em cujas prateleiras serão colocados mais 20 mil livros outrora pertença do escritor e que este doou a Lisboa e a Benfica.

Steiner e Lobo Antunes chegaram a encontrar-se e tinham simpatia mútua, uma simpatia que terá nascido quando o professor de Literatura e Poesia em Oxford e Harvard defendeu que o Nobel da Literatura atribuído a José Saramago devia ter sido partilhado com Lobo Antunes, numa homenagem à literatura portuguesa. Steiner morreu em 2020, aos 90 anos de idade, pelo que isto não seria possível, mas Lobo Antunes certamente teria apreciado que uma das conversas entre ambos tivesse decorrido na antiga fábrica, que mais não seja porque foi em Benfica que António Lobo Antunes nasceu — e Benfica serviu de cenário a vários dos romances que levaram Steiner a qualificá-lo como um gigante.

A Benfica de Lobo Antunes não era exatamente a mesma que a Benfica da fábrica. O escritor não era filho do proletariado nem de industriais. As raízes da sua árvore genealógica situavam-se na aristocracia (era trineto do 1.º Visconde de Nazaré) e na alta burguesia: o seu pai, João Alfredo, era médico e neurologista de renome, tendo sido assistente de Egas Moniz e professor universitário. Lobo Antunes falou várias vezes da influência que o pai exerceu sobre ele: queria transmitir aos filhos “a beleza das coisas belas” e punha-os a ler os clássicos e a fazer resumos do que haviam lido. Em outras entrevistas, o pai era apresentado como distante e até cruel – obrigava-os a lutar entre si, talvez para os habituar às agruras da vida, talvez para que os rapazes aprendessem a safar-se sozinho, talvez porque a pedagogia da época ressalvasse valores diferentes dos de hoje.

Os portugueses não estavam habituados a ver descritos, de forma tão crua, divórcios e mortes, one-night stands e braços amputados. Não estavam preparados para aquela torrente de linguagem, os parágrafos que nunca mais acabavam, a sucessão de imagens comparativas, os rodriguinhos constantes, a oscilação entre a alta cultura e o vernáculo comum.

Traços de personalidade contraditórios coexistem na maior parte das pessoas, mas no caso de Lobo Antunes é difícil asseverar o grau de veracidade do que decidiu revelar sobre si e os seus: toda a tentativa de verificar factos esbarra na semiótica que o escritor criou para si mesmo e que foi mudando com o passar dos anos. No início da carreira de escritor, Lobo Antunes defendia autores tão díspares como José Saramago ou Philip Roth – mais tarde incompatibilizou-se com o primeiro e desmereceu o segundo como um mero romancista (por oposição a um inovador). E algures no tempo decidiu que não era ele que escrevia os livros, era apenas o condutor de uma força maior, que o usava para levar as palavras ao papel.

Isto corresponde, em traços gerais, à mitologia do génio, o humano possuído por uma qualquer força, que se encarrega de criar a obra, indiferente ao contexto (à fome, ao frio, às horas). Ainda não chegámos ao ponto em que a ciência descodificou o processo interno da criatividade, mas será seguro afirmar que um escritor que reescreve obsessivamente terá, em algum momento, de tomar decisões – cortar esta ou aquela palavra, usar menos adjetivos, menos advérbios de modo, eliminar um capítulo, puxar uma frase a meio do segundo capítulo para a abertura do livro, como Tolstoi em Anna Karenina, um exemplo que o próprio Lobo Antunes (que apreciava comparar-se ao mestre russo) gostava de dar quando queria mostrar o trabalho minucioso a que a grande escrita obriga.

Apesar da couraça semiótica que António Lobo Antunes criou a respeito de si mesmo, não é difícil acreditar que o pai foi uma grande influência na sua vida – foi por causa dele (ou para não o desiludir) que António seguiu Medicina (na vertente de Psiquiatria), pese embora fosse um aluno tão calaceiro que o seu irmão João, mais novo, acabou o curso mais cedo; e foi por causa do pai que António leu os clássicos e se apaixonou pela literatura e, mais tarde, pela escrita, um amor que por vezes qualificava como uma doença, uma patologia da qual não consegui libertar-se.

A outra grande influência na sua vida terá sido a guerra colonial, que serviu, como médico militar entre 1971 e 1973, em Angola. A guerra e os seus traumas, o 25 de Abril, as mudanças nos costumes que daí advieram, a luta surda entre as classes sociais, estes foram os temas dos primeiros romances de António Lobo Antunes, que alcançou sucesso logo com o primeiro, Memória de Elefante, de 1979; mas foi o segundo, Os Cus de Judas, um relato do inferno da guerra feito através de um monólogo interior no decurso de um one-night stand, com recurso a uma escrita romanesca, que evoca Céline (ou Cormac McCarthy), que constituiu um autêntico escândalo.

Os portugueses não estavam habituados a ver descritos, de forma tão crua, divórcios e mortes, one-night stands e braços amputados. Não estavam preparados para aquela torrente de linguagem, os parágrafos que nunca mais acabavam, a sucessão de imagens comparativas, os rodriguinhos constantes, a oscilação entre a alta cultura e o vernáculo comum. Esses dois livros valeram a Lobo Antunes um agente em Nova Iorque e o início de um rumor que nunca se concretizou: um dia, dizia-se, este homem receberia um Nobel. Nunca recebeu, e isso provocou-lhe certa amargura.

Lobo Antunes viria a diminuir os feitos literários de vários escritores portugueses e estrangeiros ao longo dos anos, mas também se manteve fiel aos seus escritores e amigos preferidos (em particular ao psiquiatra Daniel Sampaio e a José Cardoso Pires); é difícil dizer se essas tricas se deviam a ciúmes ou se, simplesmente, o seu gosto foi mudando.

A escrita, essa, mudou: quando chega a Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura (de 2000), António cortara nos adjetivos, fizera uma dieta para eliminar a imagética e a escatologia, e tornara a sua escrita mais poética e delicada; a stream of counsciosness (que lhe valeu bastas comparações a Faulkner, mas que também denota uma leitura atenta do extraordinário Arthur Schnitzler) era levada ao extremo: as frases do narrador eram interrompidas pelas “falas” das personagens, que quase não existiam, isto é, das personagens quase só restava os seus monólogos interiores – foi aí, na sua fase mais experimental, que se revelou o Lobo Antunes sintonizado com a solidão humana, capaz de detalhar o fundo falso dos traumas da infância sobre o qual acumulamos pequenos rancores, inseguranças, medos irracionais, uma ideia distorcida de nós mesmos.

Em todos os livros de António Lobo Antunes encontramos, de uma forma ou de outra, polifonia, narrativas fragmentadas, fluxo da consciência, uma obsessão com o que está escondido no recesso da psique humana e com as classes sociais, tropos que o levaram a ser comparado a Joyce e a Faulkner – discutir se foi efetivamente um gigante ou se está ou não no mesmo patamar de Tolstoi é inútil.

Talvez nessa altura os seus romances já não fossem tão lidos, mas o trineto do 1.º Visconde de Nazaré teve uma segunda vida no reino da popularidade: começou a assinar crónicas para a Visão e ali, limitado por espaço, criava histórias curtas, por vezes claramente ficcionadas, outra vezes ligeira ou abertamente biográficas – mas estas histórias tinham sempre uma característica comum: eram pequenos tratados sobre a fragilidade humana. As limitações do espaço, a própria natureza pessoal que normalmente atribuímos ao registo da crónica, permitiram que Lobo Antunes se mostrasse no seu mais vulnerável ou observasse os humanos ao se redor e se comovesse – e a nós de permeio.

Mas para uma fação dos seus leitores e estudiosos os seus grandes feitos encontram-se entre Conhecimento do Inferno (de 1980) e O Esplendor de Portugal (de 1997): Explicação dos Pássaros (de 1981), Fado Alexandrino (1983), Auto dos Danados (1985), As Naus (1988), Tratado das Paixões da Alma (1990), A Ordem Natural das Coisas (1992), A Morte de Carlos Gardel (1994), Manual dos Inquisidores (1996), isto é uma sucessão de livros extraordinários, nos quais se encontram um punhado de obras-primas.

Por norma esse estatuto é atribuído a Auto dos Danados, Tratado das Paixões da Alma, A Ordem Natural das Coisas, A Morte de Carlos Gardel, Manual dos Inquisidores ou a O Esplendor de Portugal – foi esta meia-dúzia de romances que o elevaram ao estatuto de gigante, herdeiro de Faulkner (pela linguagem) e Tolstoi (pela ambição de retratar toda uma sociedade, com todos os seus desníveis).

E foi aí que ele aprimorou o cinzelar de um turbilhão de vozes que, em Auto dos Danados, servia para refletir as mazelas da sociedade portuguesa durante a ditadura, foi aí que ele escavou no labirinto da memória para retratar a decadência da aristocracia portuguesa (como em A Ordem Natural das Coisas), ou a Lisboa marginal, de que não se fala (A Morte de Carlos Gardel). O Manual dos Inquisidores merece uma menção especial, visto ser comummente considerado a obra-prima de Lobo Antunes: sendo o retrato da queda de estatuto social de uma família outrora próxima de Salazar e que não se adaptou ao 25 de Abril, uma ruína primeiro lenta depois súbita, O Manual dos Inquisidores é o momento em que Lobo Antunes domina a polifonia, a fragmentação da narrativa, os narradores inconfiáveis, tudo isto ao serviço de uma análise das classes sociais em Portugal e das sequelas emocionais que a ditadura deixou.

Uma coisa é que diz o cânone, outra o gosto de cada um – quando se fala em Tolstoi menciona-se Guerra e Paz ou Anna Karenina primeiro, mas o que realmente me comove é Ivan Ilyich; na obra de Faulkner são sempre destacados A Luz em Agosto ou O Som e a Fúria, mas o que mais mossa me provocou foi As I Lay Dying, uma história extraordinariamente simples de um pai que tenta, com a ajuda dos filhos, enterrar a mulher. A dado momento, Vardaman Bundren, o garoto mais novo, olha para a mãe morta, lembra-se do peixe que pescara horas antes, e pensa “A minha mãe é um peixe”. E com estas cinco palavras, Faulkner consegue transmitir toda a confusão de um miúdo que está, numa idade em que isso devia ser proibido, a tentar capturar o conceito de morte – mais ainda, da morte da sua mãe.

António Lobo Antunes foi um médico da alta burguesia que olhou o mundo com os olhos arregalados de um peixe habituado às águas fundas da solidão humana; depois dele, ficou mais fácil andarmos apoiados apenas nas patas traseiras.

O meu As I Lay Dying com Lobo Antunes é a Explicação dos Pássaros, que retrata um casal de classe média alta, os códigos sociais da burguesia, as aspirações e ambições da mesma num país em mudança, num país em que as antigas fortunas do tempo da ditadura haviam fugido e as hierarquias estavam em risco, que retrata as feridas que o conservadorismo extremo provoca – esta passagem é extraordinária: “Um dia, em miúdo, ao fim da tarde, achávamo-nos na quinta e um bando de pássaros levantou voo do castanheiro do poço na direção da mancha da mata, azulada pelo início da noite. As asas batiam num ruído de folhas agitadas pelo vento, folhas miúdas, fininhas, múltiplas, de dicionário, eu estava de mão dada contigo e pedi-te de repente Explica-me os pássaros”. Mais à frente o personagem principal, Rui, professor de história, pensa “E nunca me explicaste os pássaros, pai”, e esta frase tão simples denuncia a distância que havia outrora entre pais e filhos.

Em todos os livros de António Lobo Antunes encontramos, de uma forma ou de outra, polifonia, narrativas fragmentadas, fluxo da consciência, uma obsessão com o que está escondido no recesso da psique humana e com as classes sociais, tropos que o levaram a ser comparado a Joyce e a Faulkner – discutir se foi efetivamente um gigante ou se está ou não no mesmo patamar de Tolstoi é inútil: quem aprecia dirá que sim, quem não lida bem com o estilo literário dirá que não.

Mas os que dizem que sim, os que saíram do lado de lá de todas as vozes que reverberam nas páginas de Lobo Antunes, esses têm para com o escritor de Benfica uma dívida monumental, ontológica, que vai muito para lá de adjetivos e prémios: ele ensinou-nos a virar os ouvidos para dentro e ouvir a nossa pequena voz interior; ensinou-nos a olhar o mundo pelos olhos dos outros; ensinou-nos que traços de personalidade contraditórios coexistem na maior parte das pessoas, e que a solidão e acidez que todos carregam tem um contexto social e histórico; ensinou-nos a empatia.

António Lobo Antunes foi um médico da alta burguesia que olhou o mundo com os olhos arregalados de um peixe habituado às águas fundas da solidão humana; depois dele, ficou mais fácil andarmos apoiados apenas nas patas traseiras.