“Quando se pensa na União Europeia pensa-se que são uns tipos simpáticos, não é? Pois, mas eles roubam-nos à descarada, é triste ver”, afirmou Donald Trump, enquanto erguia um placard onde estavam elencados os países que irão ser sujeitos às taxas que chama de “tarifas recíprocas generosas“. E porquê “generosas”? Porque, regra geral, as novas tarifas que vão entrar em vigor nos próximos dias correspondem a metade daquilo que, nos cálculos da administração Trump, é cobrado em cada país na importação de produtos norte-americanos. Para os produtos da União Europeia, a tarifa será de 20%.
Para a administração Trump, a União Europeia, por exemplo, cobra uma tarifa de 39% aos produtos importados dos EUA – porém, este é um número que não existe em qualquer cálculo oficial de uma entidade independente. Todos os valores da coluna da esquerda, no placard de Trump, dizem respeito a “tarifas cobradas aos EUA” mas, depois, em letras pequenas, lê-se que o valor “inclui manipulação de moeda e barreiras ao comércio“.
É incorporando os cálculos da administração Trump sobre essas outras duas componentes que se chega, depois, a um valor do qual é calculado metade (em quase todos os casos) para se chegar à “tarifa recíproca generosa”, “descontada“, que os EUA vão cobrar.

Trump e vários membros da sua administração já tinham indicado que para calcular as “tarifas recíprocas” seriam tidas em conta não apenas as barreiras comerciais tarifárias mas, também, barreiras não-tarifárias – ou seja, limitações como regras regulatórias ou, até, o sistema de IVA que a União Europeia, por exemplo, implementa e que, aos olhos de Trump, é algo que foi criado para prejudicar os EUA. Além disso, Trump acusa vários países de deprimir artificialmente o valor das respetivas divisas (face ao dólar), de forma a ganhar maior competitividade e, também dessa forma, prejudicar os EUA.
Para a China, serão 34%, 32% para Taiwan, 10% para o Reino Unido e Brasil, 30% para África do Sul e 24% para o Japão. O Vietname terá uma das taxas maiores: 46%. O Camboja é ainda mais: 49%. “Quem quiser evitar pagar as tarifas tem bom remédio: abra a sua fábrica aqui nos EUA e pagam zero”, afirma Trump. E para os consumidores, outro recado do Presidente dos EUA: devem privilegiar a compra de produtos feitos nos EUA.
Através de barreiras não-tarifárias, a União Europeia bloqueia as exportações de carne mas querem que compremos os nossos carros – eu não os censuro mas vou fazer o mesmo. Eles fazem a nós, nós fazemos o mesmo a eles – não podia ser mais simples do que isso”, afirmou o Presidente dos EUA.
“A América foi saqueada, violada e pilhada, tanto por amigos como por inimigos. Agora, vai-se acabar”, afirmou Donald Trump, repetindo algumas das acusações que já vinha fazendo nos últimos dias, em antecipação a este “Dia da Libertação”.
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Apesar das pistas que foram sendo dadas, a magnitude das tarifas anunciadas surpreendeu os especialistas – basta ver a reação muito negativa dos mercados financeiros: a desvalorização dos contratos futuros da bolsa de Nova Iorque, que negoceiam 24h/dia, faziam antever, ao final da noite na Europa, uma abertura muito negativa da bolsa na quinta-feira, a derrapar mais de 2%.
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As novas tarifas entram em vigor entre os dias 5 de abril e 9 de abril. Trump afirmou que, nos próximos dias os “globalistas” e os “grupos de interesses especiais” vão criticar estes anúncios e a imprensa “fake news” também poderá fazer o mesmo.
“Estamos a ser muito generosos, somos pessoas muito generosas”, afirmou, indicando que a sua administração “podia ter lançado tarifas totalmente recíprocas” (em valores iguais aos que Trump considera que são cobrados aos EUA) mas “optou por não o fazer“.
“Este será conhecido como o dia em que a indústria renasceu e o dia em que tornámos a nossa nação rica de novo”, garantiu o Presidente dos EUA, acrescentando que “os empregos e as fábricas vão regressar, vamos ter mais concorrência na produção interna vai contribuir para baixar os preços” – uma promessa feita ao arrepio dos alertas dos economistas que sublinham que as tarifas, por serem pagas por quem importa produtos, irão ser repassadas aos consumidores e, por isso, estimular a inflação.
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