Donald Trump terá confessado ao seu círculo político mais íntimo que Elon Musk — o magnata sul-africano que lidera o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) e que atua também como conselheiro sénior do Presidente dos EUA — vai abandonar os cargos que exerce junto da Casa Branca. A notícia está a ser avançada pelo Político, que descreve o empresário como um “risco político cada vez maior”.
O mesmo órgão de comunicação cita três membros da administração sob anonimato, adiantando que Trump, apesar de demonstrar-se agradado com o papel de Musk à frente do DOGE no que toca à redução da despesa pública, terá decidido que este deverá passar a ter um papel mais secundário. O Político, de resto, noticia que os dois terão chegado a acordo nesse sentido.
Não tendo sido um oficial dos EUA sujeito a escrutínio público quando foi eleito por Trump para liderar o DOGE, Musk beneficia do estatuto de “funcionário público especial”, uma nomenclatura legal criada a nível federal e que permite à Casa Branca convidar cidadãos privados para exercer determinados cargos, isentando-os temporariamente de algumas regras de ética e de conflito de interesses.
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Este tipo de estatuto tem uma validade de 130 dias, não podendo ser renovado até passarem 365 dias, ou seja, um ano. Quando este tema foi levantado pela imprensa norte-americana em fevereiro, vários oficiais da Casa Branca tinham garantido que Musk estava “aqui para ficar” e que Trump iria encontrar uma forma de contornar as restrições quanto à manutenção do empresário à frente do DOGE.
No entanto, o que está a ser avançado pelo Politico é que o entendimento junto de Trump é não segurar Musk ao fim desse período, tratando-se assim de uma espécie de não renovação ao invés de uma demissão. Quer isto dizer que o empresário poderá deixar o cargo no final de maio ou no início de junho, já que foi recrutado para liderar o DOGE em janeiro.
Esta decisão terá sido comunicada por Trump a vários membros da sua administração numa reunião tida a 24 de março, e desde então, tanto o Presidente dos EUA como Musk já sugeriram a possibilidade da transição do empresário para esse papel menor junto da Casa Branca.
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O magnata, por exemplo, afirmou em entrevista à Fox News, a 27 de março, que sentia ter cumprido a sua missão de reduzir a despesa pública do Estado norte-americano. “Penso que teremos realizado a maior parte do trabalho necessário para reduzir o défice em um bilião de dólares dentro desse prazo”, garantiu. Já Trump, esta segunda-feira, disse que “a dada altura, Elon vai querer voltar para a sua empresa”, frisando, porém, que “mantê-lo-ia enquanto pudesse mantê-lo” junto à sua administração.
Não obstante esta aparente vontade de segurar Musk, os entrevistados pelo Politico atribuem a sua saída ao seu perfil enquanto íman de controvérsias para a administração Trump devido à sua atuação errática e imprevisível à frente do DOGE — surgindo como exemplos quando exigiu aos trabalhadores federais que listassem as suas tarefas sob ameaça de despedimento ou quando afirmou que cortara acidentalmente fundos para o programa de prevenção do Ébola.
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Além disso, Musk também tem gerado mal-estar pela forma como anuncia as suas decisões ou as suas motivações políticas na rede social X — da qual é dono —, ignorando a tradicional cadeia de comunicação que passa pela Chefe de Gabinete Susie Wiles.
Apesar destas informações prestadas ao Politico terem como origem funcionários de Trump, a Casa Branca reagiu durante a tarde a esta notícia, classificando-a como falsa. “Esse ‘furo’ é lixo. Elon Musk e o Presidente Trump declararam publicamente que Elon deixará o serviço público como funcionário especial do Governo quando concluir o seu incrível trabalho no DOGE”, declarou a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, na sua conta oficial do X.
Musk também já reagiu, na mesma rede social. “Sim, é notícia falsa”, comentou Musk, ao repartilhar a publicação feita por Leavitt. No entanto, nem um nem outro negaram um aspeto da notícia — a de que Musk não será formalmente demitido, mas sim que o Trump não terá interesse em manter o empresário sob a sua égide após terminar o seu estatuto especial.
O empresário passou de ter meras simpatias por Trump para tornar-se um dos seus mais fortes aliados no decurso das eleições presidenciais de 2024. No decurso da campanha, chegou mesmo a prometer pagar milhões de dólares a eleitores para que fossem votar, por exemplo, e subiu ao palco com o agora presidente releito dos EUA durante comícios.
Musk tem vindo a ser encarado como um enorme trunfo para Trump e para o chamado movimento MAGA, dada a sua influência como o homem mais rico do mundo — não só por deter a X, como também por ser o dono da construtora automóvel Tesla e da aeroespacial SpaceX.
No entanto, nos últimos meses, o perfil público de Musk tem sido mais e mais contestado, manifestando-se, por exemplo, em campanhas de boicote aos carros Tesla, que têm resultado não só em atos de vandalismo, como numa queda abrupta das vendas da marca e do seu valor bolsista.
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Além dos custos financeiros que a carreira política trouxe, o próprio capital de influência do empresário tem vindo a decair, sendo disso exemplo a eleição desta terça-feira da juíza Susan Crawford para o Supremo Tribunal do Wisconsin, levando a melhor sobre Brad Schimel, candidato abertamente apadrinhado por Musk, com mais de 10 pontos de vantagem.
Crawford venceu esta eleição, não obstante Musk e grupos a si associados terem gasto mais de 20 milhões de dólares (18,5 milhões de euros) e de este ter considerado que estava em cima da mesa “o futuro do mundo” e da “civilização ocidental”. Aliás, o empresário chegou mesmo a prometer oferecer dois milhões de dólares a votantes, suscitando acusações de corrupção por parte dos adversários democratas.