Depois de quase dois mil anos soterradas nas cinzas da erupção do monte Vesúvio, duas esculturas em tamanho real de um homem e de uma mulher foram descobertas num antigo túmulo nas ruínas de Pompeia, antiga cidade romana no atual sul de Itália.
As esculturas são a mais recente descoberta na cidade destruída em 79 D.C, e foram encontradas numas escavações — iniciadas em 1998 — a um “túmulo monumental” que fazia parte de um dos muros da necrópole (cemitério romano) de Porta Sarno, uma das principais entradas em Pompeia.
As figuras surgem esculpidas lado a lado, com a mulher a usar um manto sobre uma túnica e o homem com uma toga sobre o ombro esquerdo. A escultura do homem tem cerca de 1,86 metros de altura, enquanto a da mulher mede 1,77 metros, revela o artigo publicado no jornal online do Parque Arqueológico de Pompeia por uma equipa de arqueólogos da Universidade de Valência em colaboração com a equipa do próprio parque.
Segundo um comunicado do parque arqueológico sobre a descoberta, a qualidade das figuras apontam para uma data no período mais tardio da República Romana, antes da proclamação do Império.
A equipa que fez a descoberta acredita que a escultura da mulher pode representar uma sacerdotisa do culto à deusa romana de Ceres, que representava a agricultura e a fertilidade.
Segundo o estudo, a hipótese é levantada devido aos acessórios esculpidos na figura, tais como o amuleto de uma lua em quarto crescente (conhecido como lunula em latim) que a mulher usa ao pescoço ou o ramo de folhas de louro visíveis numa das mãos, usado “para purificar e abençoar espaços, espalhando o fumo do incenso ou de outras ervas aromáticas queimadas em cerimónias religiosas”.
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Estas sacerdotisas eram das poucas figuras religiosas femininas que representavam a sociedade como um todo, sendo também apoiadas pelo próprio Estado na Roma antiga. A equipa de arqueólogos frisa mesmo a importância do cargo para as mulheres na sociedade daquela altura.
“Uma vez que as mulheres eram geralmente relegadas na sociedade romana para a esfera doméstica e para as tarefas de matrona (um termo para a mãe de família romana), ser sacerdotisa era a posição social mais elevada a que uma mulher podia aspirar”, explicam os arqueólogos.
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No caso do homem, o corte da toga usada dá uma pista sobre quais podiam ser as suas origens. A vestimenta da figura retratada chega até metade das canelas das pernas, mostrando assim um par de sapatos normalmente usados pelos patrícios, uma das classes elevadas da hierarquia social romana.
Os autores do artigo referem-se às figuras como marido e mulher. No entanto, ao The Guardian, o diretor do Parque Arqueológico, Gabriel Zuchtriegel, não salta para essa conclusão, já que este tipo de esculturas nem sempre representam casais.
“Às vezes temos dois homens ou três pessoas”, afirmou, ressalvando que o homem pode “ser marido dela, mas também pode ser o seu filho”.
De acordo com o Parque Arqueológico de Pompeia, as esculturas descobertas estão agora em processo de restauro e poderão ser visitadas a partir de 16 de abril na antiga cidade, numa exposição com o título “Ser mulher na Pompeia antiga”.