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Seguradora Ageas quer lançar rede de hospitais, centros de saúde e diagnóstico. E está "atenta a oportunidades" para comprar outras empresas

Segunda maior seguradora no país vê área da saúde como prioritária e, numa altura em que até os hospitais "privados estão cheios", quer lançar uma rede de cuidados primários, diagnóstico e hospitais.

Edgar Caetano
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A seguradora Ageas quer lançar uma rede própria de centros de saúde (cuidados primários), centros de diagnóstico e, até, unidades hospitalares – e admite fazê-lo de forma orgânica, criando essa rede de raiz, ou, então, aproveitar algumas oportunidades de aquisição que diz “estarem no mercado” e às quais está “atenta”. O anúncio foi feito nesta quarta-feira pelo presidente da seguradora que é a segunda maior a operar em Portugal (com uma quota de 15,5% do mercado global), Luís Menezes, que considera a aposta na saúde “prioritária” para o grupo numa altura em que até os hospitais privados estão a ter dificuldades em dar resposta à procura.

A intenção de criar uma rede própria de unidades de saúde “não é uma intenção contra os prestadores”, diz Luís Menezes, referindo-se aos hospitais e clínicas que prestam cuidados de saúde, frequentemente em parceria com as seguradoras. Mas, afirma o gestor, “até os prestadores estão cheios – nós hoje em dia vamos a hospitais privados e têm um fluxo de doentes que não se via antigamente. Muitos hospitais privados hoje têm tanta gente que parecem hospitais públicos”.

Apesar desse maior fluxo, “não é a mesma coisa, ainda há um serviço diferenciado” em relação ao Serviço Nacional de Saúde, que “está a perder muitos médicos para o setor privado por razões óbvias, porque os médicos também são pessoas e têm o direito de tomar decisões economicamente racionais”. Mas Luís Menezes, num encontro com jornalistas em Lisboa, considera que há espaço em Portugal para criar uma rede integrada, em que a seguradora em vez – ou além – de trabalhar com parceiros (as clínicas prestadoras de cuidados de saúde) é ela própria a gestora da unidade que presta os cuidados de saúde.

A nossa ambição é, através de parcerias, de aquisições ou de forma orgânica, lançar as nossas unidades de cuidados primários, centros de diagnóstico e, possivelmente, as nossas unidades hospitalares”, afirma Luís Menezes.

O cliente vai pagar menos se houver uma integração, e nós sabemos que estes produtos vão ter de ser competitivos em termos de preço“, afirma Luís Menezes, lembrando que em Espanha e noutros países já é assim – “aliás, em vários países todo o sistema foi pensado dessa maneira”. “Os nossos clientes têm acesso a consultas online gratuitas, por exemplo, e depois encaminhamos estes doentes para outras unidades de saúde. No dia em que tivermos as nossas unidades de cuidados primários, onde possamos oferecer uma quantidade de cuidados em várias zonas, esse encaminhamento seria feito para uma das nossas unidades”, explica o gestor.

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E quando podem arrancar esses planos? Já arrancaram, responde Luís Menezes, mas vão ser “definitivamente acelerados nos próximos anos”. “Temos um setor de hospitais privados que tem quatro grupos com 82% de quota de mercado” e a Ageas tem “cerca de um milhão de clientes na Médis, pelo que achamos que temos um direito de entrar no mercado da prestação – já o estamos a fazer na área dentária e da fisioterapia”. “Os próximos passos são os cuidados primários, claramente, e depois cuidados hospitalares“.

Porém, é “difícil prever timings” porque “tudo o que é orgânico tem de ser planeado com tempo” e, quando se fala em eventuais aquisições, “depende do que venha para o mercado”. “Há vários ativos à venda nesta fase, olhamos para todos”, garante Luís Menezes. “Temos uma aquisição para breve na área da fisioterapia, que não podemos ainda revelar, mas vamos tornar-nos o maior prestador de fisioterapia em Portugal“, afirma o gestor, garante que este é um “caminho que vai ser feito de forma acelerada”.

Uma área em relação à qual Luís Menezes mostra algum ceticismo, embora não a exclua, é a possibilidade de o grupo Ageas criar algumas parcerias público-privado (PPP), para gestão de unidades de saúde mediante um contrato com o Estado. “Não retiro de cima da mesa nenhuma possibilidade, mas tem de fazer sentido para nós“, afirma.

Somos um grupo grande, estamos em vários países da Europa e da Ásia, temos a capacidade de olhar para outras oportunidades, sejam PPP, sejam grupos de diagnóstico, sejam grupos hospitalares que possam vir ao mercado, são sempre oportunidades que vamos analisar”.

Na área da saúde privada, o grupo Luz Saúde (que pertence à seguradora rival Fidelidade) indicou estar à procura de investidores minoritários – depois de cancelada a intenção de vender parte do capital na bolsa de valores. Questionado se, de alguma forma, a Ageas poderia estar interessada em comprar ativos da Luz Saúde, Luís Menezes repete que a Ageas está “a olhar para todas as oportunidades que possam estar no mercado“.

A Ageas terminou o ano de 2024 com um resultado líquido operacional de 103 milhões de euros, abaixo dos 120 milhões do ano anterior, apesar de o volume de negócios ter crescido 33%.

O exercício foi penalizado pelo desempenho negativo da área do seguro automóvel (que já vem de há vários anos) e por alguns investimentos anteriores que não tiveram o resultado previsto, reconheceu Luís Menezes, que só se tornou CEO da empresa no final de 2024. Além disso, foram feitas imparidades que foram um passo necessário para criar uma base de capital mais “limpa” para iniciar um novo ciclo estratégico de três anos, depois daquele que terminou em 2024, explicou o gestor.

O rácio de solvabilidade da seguradora está em 234%, acrescenta a empresa.