(c) 2023 am|dev

(A) :: Val Kilmer (1959-2025): o protagonista que ficou por cumprir

Val Kilmer (1959-2025): o protagonista que ficou por cumprir

Eterno nº2 em "Top Gun", foi Jim Morrison, Batman e Santo, mas não conseguiu fazer a transição que queria para o cinema de outro patamar criativo. Depois de um cancro, morreu de pneumonia aos 65 anos.

Andreia Costa
text

A tarefa era relativamente simples: promover um hambúrguer. Porém, Val Kilmer olhou para o guião e não conseguiu perceber a motivação da personagem que lhe cabia. Disse ao realizador que não era capaz de fingir gostar daquele produto e saiu disparado do estúdio. Tinha 12 anos. Esse trabalho ficou pelo caminho, mas a reputação de ator “difícil” revelou-se anos depois em inúmeras ocasiões. Ainda assim, nunca foi fator suficiente para afastar Kilmer de papéis de enorme sucesso em filmes como Top Gun: Ases Indomáveis (1986), The Doors: O Mito de Uma Geração (1991) ou Batman Para Sempre (1995).

Depois de uma intensa batalha contra um cancro da garganta — que lhe roubou a voz quase por completo —, mas do qual estava curado, o ator morreu na terça-feira, 1 de abril. Não resistiu a uma pneumonia. A notícia foi dada pela filha, Mercedes, ao The New York Times. “Estava rodeado pela família e amigos”, escreveu no email enviado à publicação.

O irmão “tímido” que virou ator

Val Edward Kilmer nasceu a 31 de dezembro de 1959 em Los Angeles (EUA), sendo o segundo de três irmãos. A mãe, Gladys, tinha origens suecas e o pai, Eugene, era descendente de irlandeses, alemães e do povo indígena cherokee. “O meu irmão mais velho era o palhaço da turma, o meu irmão mais novo era incrivelmente criativo e eu era tímido. Mas gostava de representar, era satisfatório”, explicou sobre as suas origens.

Da infância de classe média recorda uma fase fora do comum quando teve um babysitter homem que introduziu as três crianças ao “estilo de vida hippie”. “O meu pai contratou-o porque ele conduzia um Mustang vermelho descapotável e estudava Arte na CSUN, no Valley. Acho que o meu pai não sabia que ele era um radical. Por isso, nenhum assunto estava fora dos limites. Olho para trás com o devido conservadorismo paternal e com a boca aberta ao recordar algumas das descodificações de letras de rock’n’roll, ou apenas educação sexual pura e simples na autoestrada de Ventura para um miúdo de 10 anos, um de 9 e um de 7. Meu Deus, as nossas cabeças explodiam”, recordou à revista Vanity Fair em 2020.

Os pais divorciaram-se quando Val tinha oito anos e os miúdos ficaram a viver com o pai, Eugene, um engenheiro aeroespacial com “valores patrióticos” e “muito excêntrico”. “As coisas não correram bem entre mim e o meu pai durante muito tempo”, contou ao The Telegraph em 2004. “Gostava que os meus pais tivessem sido… eram pessoas muito amorosas, mas não falavam tanto de amor como eu falo com os meus filhos. Temos de aprender Matemática e História, porque é que não há uma disciplina na escola sobre o amor? Não faz qualquer sentido quando pensamos nisso”, lamentou em entrevista ao The Guardian em 2005.

Estudou na escola secundária de Chatsworth, ao lado de Kevin Spacey e da também atriz Mare Winningham, sua namorada na altura. O sonho dele era estudar na Royal Academy of Dramatic Art, em Londres, mas a candidatura foi rejeitada porque, aos 17 anos, tinha menos um ano do que a idade mínima para entrar. Do outro lado do oceano isso não foi impeditivo, tornando-se a pessoa mais nova a integrar a divisão de drama da Julliard, um prestigiado conservatório de Nova Iorque. Na véspera da sua partida, o irmão mais novo, Wesley, de 15 anos, teve um ataque de epilepsia, caiu na piscina e afogou-se.

“Acho que cresci por causa disso. O meu pai não. Destruiu-o completamente”, admitiu ao The Guardian.

Formou-se em 1981 e em 1983 estreou-se na Broadway com a peça The Slab Boys. O cinema chegou um ano depois e seu nome deixou de ser desconhecido graças a Ultra Secreto, no qual era uma estrela de rock’n’roll num festival na Berlim Ocidental, cenário transformada em conflito da Guerra Fria. Kilmer canta todos os temas no filme e acabou por editar um álbum com o nome da personagem que interpretava, Nick Rivers.

Depois disso declinou vários papéis — o plano prioritário era o de viajar pela Europa de mochila às costas — mas regressou rapidamente como protagonista, em 1985, na comédia Academia de Génios. Seguiu-se o papel de Ice, o rival de Tom Cruise em Top Gun — Ases Indomáveis, que fez dele uma estrela mundial.

Os amores, as desilusões e os amores (outra vez)

Por esta altura já a vida pessoal de Val Kilmer rendia muitas páginas às revistas cor de rosa. Teve uma relação de dois anos com Cher (de 1982 a 1984). Ela tinha 36, ele 23 e, apesar dos comentários sobre a diferença de idades não terem afetado o casal inicialmente, esse acabaria por ser um dos motivos para a separação. “Ele é diferente de todas as pessoas que conheço. É exasperante e histérico. Emocionante e engraçado, e não faz o que os outros fazem. […] O nosso sentido de humor e o que aturávamos um do outro foi mais do que acho que tive com qualquer outro tipo. Ele ia embora, fazia as próprias coisas e só tínhamos de estar preparados”, recordou a cantora em entrevista à revista People em 2021.

Apesar de ter ficado de “coração partido” quando o ator a deixou, os dois continuaram amigos e Cher foi uma das primeiras pessoas a oferecer apoio a Kilmer quando este soube que tinha cancro.

Em 2020, Val Kilmer editou uma autobiografia, I’m Your Huckleberry, na qual detalhou este e outros romances, incluindo os que viveu com Michelle Pfeiffer (que inspirou um dos dois livros de poesia que escreveu), Ellen Barkin, Angelina Jolie e com a cantora-compositora Carly Simon. “Penso que a razão pela qual deixámos de nos ver foi o facto de ela ter percebido que era demasiado avassalador para mim. A sua sensibilidade tímida viu através da minha alma. Ela viu que eu estava loucamente, irremediavelmente apaixonado por ela. Não sei se alguma vez disse estas palavras, mas tu deves ter percebido, Carly”, escreveu o ator nas suas memórias.

No set de Willow — Na Terra da Magia (1988) contracenou com Joanne Whalley, a única mulher com quem se casou. O casamento durou de 1988 a 1996 e os constantes rumores amorosos que envolviam Kilmer e as co-protagonistas não ajudaram a manter a estabilidade. O casal teve dois filhos, Mercedes, nascida em 1991, e Jack, quatro anos mais tarde. Apenas algumas semanas depois do nascimento de Jack, foi através da CNN, quando estava fora em filmagens, que Val Kilmer descobriu que Whalley tinha iniciado o processo de divórcio. Foi Cindy Crawford que o ajudou a ultrapassar essa fase. “Se namorei com a Cindy Crawford? Sim, ela é muito simpática. Uma rapariga inteligente com um grande sentido de humor”, disse numa entrevista ao The Guardian, em 2005.

A atriz Daryl Hannah talvez tenha sido a que mais o marcou. Os dois envolveram-se em 2001. “Ainda estou apaixonado pela Daryl. Quando finalmente acabámos, chorei todos os dias durante meio ano”, revelou na autobiografia, onde também admitiu não ter namorada há duas décadas. “A verdade é que estou sozinho na maior parte dos meus dias.” Sobre álcool ou drogas, disse várias vezes que, simplesmente, nunca teve tentações. “Já nem sequer bebo café”, explicou em 2005 ao The Guardian. “Já interpretei um par de bêbados, mas nunca me pareceu um estilo de vida apelativo. Sempre fui um peso leve, isso salvou-me de qualquer… experiência difícil.”

Quando Oliver Stone avançou com The Doors: O Mito de Uma Geração, o filme sobre a banda com o mesmo nome, Val Kilmer explicou-lhe que a história não devia ser contada pela ótica das drogas, não queria promover consumos ilícitos. O realizador concordou, mas não ficou completamente convencido de contratar Kilmer para o papel de Jim Morrison com a gravação que o cantor mandou, na qual cantava alguns temas da banda. No entanto, Paul A. Rothchild, produtor original do grupo, viu o vídeo e ficou abalado. O projeto avançou e, para se preparar, Val Kilmer passou um ano a vestir-se ao estilo de Jim Morrison, a ir a concertos de tributo, a ler a poesia do cantor e autor e a frequentar os locais preferidos do vocalista dos The Doors, na Sunset Strip. Alguns dos membros da banda revelaram que a interpretação foi tão convincente que tinham tido dificuldade em distinguir qual era a voz do ator e qual a de Morrison.

Os anos 90 traduziram-se em sucesso após sucesso: Tombstone (1993), Amor à Queima-Roupa (1993) ou Heat — Cidade Sob Pressão (1995). E quando Michael Keaton decidiu que não queria fazer um terceiro Batman, o realizador Joel Schumacher demorou apenas uns dias a contratar Val Kilmer — desde que vira Tombstone que tinha tal plano em mente. Kilmer aceitou o papel sem sequer ler o argumento ou saber quem seria o realizador. Batman Para Sempre estreou-se em 1995, mas, apesar de ter sido um sucesso de bilheteiras, as críticas não foram simpáticas e Kilmer não voltou para mais nenhum papel da saga — até porque a experiência com Schumacher não foi o que nenhum deles sonhara.

Em 2005 protagonizou um dos filmes que lhe garantiu mais simpatias por parte da crítica: Kiss Kiss Bang Bang, uma comédia disfarçada de thriller e policial (ou vice versa, dependendo da interpretação), com Hollywood como cenário e Robert Downey Jr. como companheiro de equipa. O filme, realizado por Shane Black, personificava na perfeição a vontade que Kilmer expressara várias vezes de fazer outro tipo de filme, desempenhar outro tipo de papéis, menos dados à bilheteira e mais preocupados com o lado artístico. o desejo nunca se concretizou por completo.

Aliás, em 2008 foi a voz de KITT no reboot da série Knight Rider. No entanto, tal como aconteceu com o ator William Daniels no projeto dos anos 80, o nome de Val Kilmer nunca aparece nos créditos. Além da representação, editou um disco em nome próprio, Sessions with Mick, em 2007. Sempre pintou, algo que redescobriu depois de ficar doente como uma outra forma para se expressar, e dedicou grande parte do seu tempo à religião, como cientista cristão.

Os problemas de saúde que lhe roubaram a voz

Em 2014 foi hospitalizado e, na altura, o representante do ator disse apenas que estavam a ser feitos testes a um possível tumor. Durante muito tempo, o ator não admitiu ter cancro na garganta e refugiou-se em orações. Foram os filhos que o fizeram mudar de ideias e Kilmer foi submetido a quimioterapia, radioterapia e a duas traqueotomias, apesar de todos os tratamentos da medicina convencional serem desaconselhados pela igreja que frequentava.

Em Val, documentário disponível na Prime Video que recorda a carreira, a vida e partilha imagens exclusivas —, explicou as consequências da doença, incluindo o facto de ter de usar uma caixa de som para falar. “Obviamente soo muito pior do que me sinto. Não posso falar sem tapar este buraco [na garganta].” Em 2020 revelou estar livre de cancro, mas os vários tratamentos deixaram-no debilitado — tendo de recorrer a uma sonda para comer. Numa rara aparição televisiva, no programa Good Morning America, perguntaram-lhe de que sentia mais falta na voz. “O facto de ter uma! E de não me rir como um pirata”, respondeu.

No ano seguinte trabalhou com uma empresa de software inglesa para recriar digitalmente a sua voz usando Inteligência Artificial — devido às intervenções na traqueia, sofria de falta de ar e a voz ficou reduzida a um som anasalado. O objetivo era poder usar esse modelo digital em projetos futuros. Ainda assim, no papel de Iceman que retomou em 2022 no filme Top Gun: Maverick, o realizador Joseph Kosinski garantiu que não foi usada essa técnica de Inteligência Artificial. A voz é a de Kilmer, apesar de ter sido digitalmente editada para se ouvir com mais clareza. Tal como na vida real, a personagem de Iceman tem cancro na garganta e a experiência foi emotiva para todos.

“Conheço o Val há décadas e para ele regressar e fazer aquele papel… é um ator poderoso e transformou-se na personagem outra vez instantaneamente. Eu estava a chorar, estava a chorar, fiquei emotivo. Ele [Val Kilmer] é um ator brilhante, adoro o trabalho dele”, disse Tom Cruise no programa Jimmy Kimmel Live!. Aliás, Cruise tinha garantido que só faria a sequela se Val Kilmer fosse incluído na história. Foi a última presença no cinema.

O ator “infantil e impossível”

Tinha a reputação de ser um colega difícil. São conhecidas as desavenças com Marlon Brando, em A Ilha do Dr. Moreau (1996), ou com Schumacher, em Batman Para Sempre, que lhe chamou “infantil e impossível”. Michael Biehn, que trabalhou com ele em Tombstone, disse à revista The Hollywood Reporter em 2019: “As pessoas perguntam-me como é trabalhar com o Val Kilmer. Não sei, nunca o conheci, nunca lhe apertei a mão. Conheço o Doc Holliday [a personagem], mas não conheço o [Kilmer]”.

Os inúmeros problemas reportados nos bastidores incluem uma queimadura de cigarro que Kilmer terá alegadamente provocado a um elemento da equipa que rodou A Ilha do Dr. Moreau ou uma das exigências que fez: ninguém fazer podia fazer contacto visual com Kilmer nas filmagens de O Santo (1997). Em 2003, respondeu às críticas numa entrevista ao jornal Orange County Register: “Quando certas pessoas me criticam por ser exigente, penso que isso é um disfarce para algo que não fizeram bem. Acho que estão a tentar proteger-se. […] Acredito que sou desafiante, não exigente, mas não peço desculpa por isso”.

Apesar do rótulo de sex symbol, nunca se demorou em festas ou em grandes eventos de Hollywood. Em vez disso, preferia refugiar-se num rancho que comprou no Novo México, com mais de 2400 hectares, dez cascatas, cavalos e manadas de búfalos, onde passava tempo com os filhos. Fez, aliás, uma pausa na carreira (entre 2000 e 2002) para poder ser um pai mais presente.

“Trabalhei muito na fase de O Santo e do Batman. Foi como um período de dois anos em que tudo o que eu fazia tinha de ser o mais longe possível dos meus filhos. Era como uma lei cósmica. Estive na Austrália, em África, na Rússia… Por isso, perdi alguns anos cruciais da escolaridade da minha filha. E não queria que o mesmo acontecesse com o meu filho, por isso, quando ele começou a escola, há uns anos, tirei mais férias”, explicou em 2004 ao à revista Total Film.

O último evento público em que esteve foi em 2019. Depois disso, interagia com os fãs sobretudo através das redes sociais. A última publicação no Instagram é de 22 de março e tem a foto de um dos quadros que pintou. “Tem aquele brilho de fim de noite. Tons frios com um fogo baixo, como quando o fogo do acampamento arrefece mas ainda estamos bem acordados”, descreveu.

No currículo não colecionou prémios e, durante algum tempo, sentiu-se magoado pela falta de reconhecimento ou por distinções como os Óscares não lhe “baterem à porta”. Ainda assim, aprendeu a fazer as pazes com isso. “Não tenho muita noção de sucesso ou popularidade, porque nunca joguei essa carta. Nunca cultivei a fama, nunca cultivei uma persona. Exceto, possivelmente, o desejo de ser considerado um ator”, garantiu há 20 anos à Total Film. No documentário Val, de 2021, sintetizou assim o percurso que construiu: “Vivi uma vida mágica. Capturei grande parte dela.”