(c) 2023 am|dev

(A) :: Governo criticado por "ato propagandístico chocante"

Governo criticado por "ato propagandístico chocante"

Deslocação do Governo ao Mercado do Bolhão motivou críticas da oposição. Montenegro garante não estar a usar cargo para fazer pré-campanha eleitoral. PS lamenta episódio e compara PM a Viktor Orbán.

Miguel Santos Carrapatoso
text
Mariana Lima Cunha
text

Uma visita de estudo ao Mercado do Bolhão, um ministro-candidato a passear entre potenciais eleitores, o aparelho partidário a convocar militantes para cumprimentarem o “primeiro-ministro” e “presidente” do partido. O Conselho de Ministros a partir da cidade do Porto obrigou Luís Montenegro a garantir que não está a aproveitar a plataforma do Governo para fazer pré-campanha eleitoral e a ter de prestar esclarecimentos sobre a qualidade em que se apresentava ali. Socialistas falam em “ato propagandístico chocante”.

O facto de o Conselho de Ministros acontecer na cidade do Porto no mesmo dia em que Pedro Duarte confirmou a candidatura à sucessão de Rui Moreira (que se deixou fotografar ao lado do ministro e de Luís Montenegro) já tinha motivado algumas críticas da oposição ao longo da manhã, ainda que fontes do PSD fossem garantindo que tudo não passava de uma coincidência — o Conselho de Ministros já estava marcado e foi Pedro Duarte quem tomou a iniciativa de anunciar esta quarta-feira, através de um artigo no JN, de que vai mesmo ser candidato ao Porto.

Depois, o Observador avançou com a notícia de que a concelhia do PSD/Porto enviara na véspera uma mensagem aos militantes daquela estrutura para que marcassem presença no Mercado de Bolhão e pudessem “cumprimentar” o “primeiro-ministro” e “presidente” do partido, numa ação típica de mobilização do aparelho partidário em ambiente de campanha.

A mensagem, a que o Observador teve acesso, dizia o seguinte: “Caro(a) militante, informa-se que amanhã, dia 2 de abril, o Primeiro-Ministro Luís Montenegro estará na cidade do Porto, numa reunião do Conselho de Ministros que assinalará 1 ano de governação. O Primeiro-Ministro chegará ao Mercado do Bolhão pelas 10h20 e sairá pelas 12h30. Todos estão convidados a ir cumprimentar o nosso Presidente.”

Ao Observador, Alberto Machado, presidente da concelhia do PSD/Porto, confirmou a autoria da mensagem e rebateu as críticas que se vão fazendo a partir do PS. “Era o que faltava não podermos vir cumprimentar o nosso presidente quando vem ao Porto”, respondeu o mesmo Alberto Machado.

Já em declarações aos jornalistas, Luís Montenegro foi insistentemente desafiado a dizer se estava ou não a misturar os dois papéis — o de primeiro-ministro e líder do PSD. Montenegro começou por dizer que foi ao Bolhão com o seu Governo para “descentralizar”, como no passado, as reuniões do Conselho de Ministros. “Estamos num espaço que está reanimado, junto das pessoas — outra característica da governação. Todo o enquadramento deste Conselho de Ministros corresponde à forma de estar do Governo. A avaliação que se faz disso compete a cada pessoa“, argumentou o social-democrata.

Luís Montenegro disse também desconhecer a iniciativa do PSD/Porto. “Não sei o que está a referir, mas há dirigentes partidários que podem elucidá-lo. Nessa componente não tive nenhuma diligência. Admito que possa haver trabalho político das estruturas partidárias, é normal”.

[Já saiu o terceiro episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]

Perante a insistência dos jornalistas, o primeiro-ministro voltou a garantir que terá um cuidado especial para que os dois papéis não se confundam durante este período. “É uma questão difícil, não vale a pena ignorá-la. A pessoa é sempre a mesma, e eu sou sempre o mesmo. Não tenho maneira de deixar de ser primeiro-ministro, não vale a pena criarmos celeumas à volta disso. Não vim aqui fazer campanha nem distribuir materiais de campanha.”

Entretanto, numa tentativa de esvaziar a polémica, fonte do Governo garantiu ao Observador que o Executivo terá informado todos os grupos parlamentares sobre este Conselho de Ministros descentralizado e que convidou, como é habitual, todos os deputados de todos os partidos para acompanharem a deslocação dos membros do Governo.

Os argumentos não convenceram a oposição. “Hoje, num ato propagandístico chocante, pago por todos os portugueses, o Governo decidiu passear-se no Mercado do Bolhão, no Porto, apresentando um ‘balanço’ que mais não é do que uma ação de campanha eleitoral para a qual o PSD enviou uma mensagem a apelar à presença dos seus militantes para ‘cumprimentar o seu Presidente’ em horários específicos”, criticou Nuno Araújo, líder da Federação do PS/Porto e diretor de campanha de Pedro Nuno Santos, em comunicado.

Segundo os socialistas, para piorar a situação “um ministro do Governo decidiu aproveitar o cargo, o momento e os recursos, lançando-se como candidato à Câmara onde decorre o evento de campanha”, referindo-se a Pedro Duarte e à confirmação da sua candidatura à liderança da Câmara Municipal do Porto.

“O PSD não tem limites na utilização do aparelho do Estado para favorecer os seus interesses, lembrando as ‘democracias musculadas’ com quem partilhou afinidades na Europa”, acrescenta o PS, que garante que “jamais aceitará esta indecorosa usurpação de funções para benefício partidário”. “Lembramos ao Dr. Luís Montenegro que ainda não chegámos à Hungria do Sr. Orbán.”