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Guerra das listas mostra divisões por sarar no PS profundo e outras a abrir

Em Braga, Aveiro, Setúbal e Coimbra a constituição das listas de candidatos a deputados levantaram dúvidas, críticas, votos contra e até um chumbo. Saída do poder encolhe lugares e aumenta problemas.

Rita Tavares
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É um clássico socialista, sejam as eleições em tempo regulamentar ou apenas um ano depois das últimas, há sempre tumultos na composição das listas de candidatos a deputado. E quando há carência de poder, o cenário complica-se. O número de lugares elegíveis encolheu para os socialistas depois das últimas legislativas, o aliciante de um futuro lugar executivo também esmoreceu e pelo meio ainda houve disputas de poder interno que deixaram feridas que continuam por sarar, como saltou à vista em Braga e Aveiro, a federação do líder Pedro Nuno Santos.

O líder quis ter um leque de cabeças de lista que pudesse ombrear com o elenco de ministros apresentado pela AD nestas eleições. Mas o pano encolheu antes de esticar, com Fernando Medina a anunciar na última semana a sua indisponibilidade para voltar a candidatar-se ao Parlamento. Além disso, o PS debatia-se ainda com a quantidade de saídas fruto da regra não escrita sobre candidatos a presidências de Câmara ficarem de fora das listas das legislativas.

De 13 nomes com experiência governativa que foram postos à frente dos círculos eleitorais pelo PS há um ano, agora avançam dez com essa marca no currículo: o próprio Pedro Nuno Santos, José Luís Carneiro, ex-ministro da Administração Interna, Nuno Fazenda, que esteve no Turismo, Jamila Madeira, antiga secretária de Estado da Saúde, Eurico Brilhante Dias, antigo líder parlamentar e secretário de Estado da Internacionalização, Mariana Vieira da Silva, ex-ministra da Presidência, Marcos Perestrello, vice presidente da Assembleia da República e ex-secretário de Estado da Defesa, António Mendonça Mendes, ex-secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro e Marina Gonçalves, ex-ministra da Habitação.

A saída de Alexandra Leitão, Ana Abrunhosa, Ana Mendes Godinho e Ana Catarina Mendes (eurodeputada), criaram problemas numa medalha que Pedro Nuno fez gala em ostentar há um ano quando apresentou um conjunto de cabeças de lista paritário. E deixou dificuldades em Coimbra, onde o líder esteve até à última para encontrar quem liderasse a lista. Segundo a rádio Renascença, teve duas recusas, a de Maria Manuel Leitão Marques e a de José Luís Carneiro — que chegou estar em dúvida em Braga (por onde acabou por ir), com o líder da distrital a preferir a ex-eurodeputada Isabel Estrada Carvalhais.

Problemas e divisões em Braga, Aveiro, Setúbal e Coimbra

O drama em Braga atingiu o nível máximo esta terça-feira à noite, quando a comissão política distrital chumbou a lista apresentada pelo líder Victor Hugo Salgado. A concelhia de Guimarães e os representantes da JS distrital opuseram-se aos lugares que lhes calharam na lista de candidatos a deputados e acabaram por travar uma proposta que chegou a ter no topo o nome de Carvalhais e também do chefe de gabinete de Pedro Nuno Santos, Hernâni Loureiro. A intenção de limpar Carneiro do lugar de cabeça de lista também já tinha criado algum mal estar na estrutura e a lista seguiu para as mãos do secretário geral sem acordo. Pedro Nuno Santos fez tudo para resolver o problema antes de entrar na reunião da comissão política nacional da noite, evitando críticas que já se perfilavam no espaço público sobre eventuais afastamentos de opositores — uma das vozes era a de José Luís Carneiro, mas não foi o único.

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É a segunda maior federação do PS e sempre a mais bicuda no que toca a casos — já tinha sido um parto difícil o da última lista às legislativas. E não abrandou nesta, sobretudo depois da luta pelo poder que se travou pela liderança da distrital e que opôs pedronunistas e carneiristas. Venceu um dos maiores apoiantes de Pedro Nuno no PS, o presidente da Câmara de Vizela Victor Hugo Salgado, e Luís Soares. Na oposição a Salgado, a lista é lida à luz do que se passou aí, bem como o afastamento de Palmira Maciel, que até agora foi sempre a número dois, mas que não só apoiou Carneiro nas diretas de 2023, como Luís Soares na eleição na federação.

Mas Braga não foi o único distrito onde o PS teve problemas, e com a lista a acabar chumbada com 38 votos contra e 31 a favor. Também em Aveiro, casa do líder, a disputa foi tensa, com a lista a passar mas com 28 votos contra e 50 a favor. Na origem da tensão que se viveu nessa segunda à noite na reunião a comissão política de Aveiro, esteve a disputa eleitoral interna de setembro passado com uma luta fratricida: dois pedronunistas em confronto, com Hugo Oliveira a bater Jorge Sequeira, até aí presidente da federação.

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A questão não ficou por aí e resultou no que a oposição a Oliveira vê como uma limpeza de quem apoiou Sequeira nas eleições internas, caso de Cláudia Santos, a candidata independente que nos últimos anos até entrou sempre pela quota nacional, ou seja, por aquele um terço de escolhas que são ditadas a partir do Largo do Rato, em Lisboa, e não são da lavra da federação — e por onde a independente ainda pode entrar, já que há um lugar em aberto na lista de Aveiro. Mas a queda para lugares mais abaixo (11º e 12º) do que aqueles em que concorreram há um ano (7º e 8º) de Joana Sá Pereira e Bruno Aragão — ambos apoiantes de Sequeira — também foi vista como parte de uma manobra de limpeza no distrito que a oposição a Hugo Oliveira acredita ter a complacência do líder do partido. Afinal já tinha sido decidido a nível nacional o afastamento de uma candidatura à Câmara de Espinho da atual presidente, Maria Manuel Cruz, que saiu a queixar-se de Pedro Nuno Santos — também ela apoiou Sequeira nas eleições internas.

A outra frente onde a luta foi mais intensa foi a de Setúbal. A federação liderada por André Pinotes Batista optou por mudar alguns nomes, sendo alvo de críticas na reunião da comissão política da federação desta segunda-feira. A lista que é liderada por António Mendonça Mendes foi aprovada com 39 votos a favor e 27 contra e com críticas de “nepotismo” durante a reunião, com acusações de uma corrente ultra minoritária, liderada por José Carlos Nascimento Pereira, a apontar o dedo à escolha de Margarida Afonso para o quarto lugar, ao dizer, num comunicado, que foi “alegadamente imposta por Samuel Cruz, presidente da comissão política do Seixal, em benefício da sua própria esposa” — a própria. O caso está também a ser questionado entre os socialistas de Setúbal, sobretudo por não ter feito “o percurso de militância” por ali, mas no PS de Lisboa.

Mas houve também contestação vinda da JS distrital, com o presidente da estrutura, Pedro Almeida, e outro elemento, Ana Vitorino, a serem indicadas para a lista e não terem sido incluídos — e isso foi dito durante a reunião da comissão política distrital, com acusações de falta diálogo com a JS. A crítica feita por esta estrutura é que Pinotes Batista acabou por preferir incluir nomes da oposição interna ao líder da JS de Setúbal, que não é alinhado com o líder da federação. Para um lugar abaixo da linha de água, mas que o PS pretende conquistar, o oitavo, Pinotes chamou o presidente da Câmara de Sines, Nuno Mascarenhas, que chegou a estar detido no âmbito da Operação depois de o juiz de instrução ter considerado que não estava em causa o crime de corrupção pelo qual chegou a estar implicado.

Depois houve ainda o caso de Coimbra, com o nome do cabeça de lista em aberto até à última depois de várias recusas. A lista foi a votos sem que a federação que a votou fizesse ideia que quem a viria a liderar e acabou a ter 43 votos a favor, 27 contra na reunião da comissão política da federação, na noite desta terça-feira. Mas também houve muitos alterações, apenas Pedro Coimbra se mantém nos quatro lugares elegíveis, de resto entra Rosa Cruz e Daniel Azenha, da JS.

Falta de mão e/ou falta de poder?

Neste puzzle sempre complexo, Pedro Nuno Santos viu a sua própria federação em tumultos. Mas no PS garante-se que os problemas que se sentiram em mais uma volta daquilo que na gíria partidária chama de “mercearia das listas”, tem mais a ver com o contexto político do que com a liderança nacional. Embora também seja certo que se o dia das eleições correr mal, no dia seguinte todas as brechas que possam ter ficado abertas serão aproveitadas pela oposição interna.

Há uma semana, em entrevista ao Observador, José Luís Carneiro usou a diplomacia para responder sobre o dia seguinte, mas também empurrou a avaliação para as estruturas distritais. “Essa é uma avaliação que tem que ser sempre feita por quem lidera as instituições e por quem lidera o PS e também pelos militantes e por aqueles que os representam a nível local e a nível distrital. Como se sabe, o secretário-geral teve um apoio muito expressivo da estrutura militante do PS e num cenário dessa natureza só o secretário-geral deve proceder.” Reconheceu ser “evidente que em cada momento fazer uma avaliação dos termos em que o Partido Socialista está ou não está a conseguir falar para aqueles que são os seus destinatários, que são os portugueses.”

Carneiro sabe que é nessas estruturas que reside a força do atual líder, mas esse é um apoio que também pode vacilar se perceber que quem está à frente do partido não consegue chegar lá. Por agora, já pesou o resultado eleitoral de há um ano. “As listas são mais apertadas e tem de haver exclusões”, comenta com o Observador um dirigente do partido quando confrontado com as tensões que os últimos dias trouxeram. “Passámos de 120 deputados para 78”, lembra para provar a dimensão do estreitar de lugares pelo PS e acrescentar o “raciocínio de sobrevivência de qualquer pessoa em garantir o seu lugar” nesta fase.

Outro dirigente do partido aponta vários motivos “cumulativos” para a situação que o PS vive atualmente. A começar pela “perceção” que existe de “legitimidade de continuidade de quem foi eleito há apenas um ano”, isto “baralha o processo”, aponta. Depois a questão das quotas nacionais terem de ser “integradas de uma forma mais condensada“, já que o número de eleitos (sobre os quais é contabilizado o tal um terço para a quota de escolhas do líder) é hoje menor. Além disso há o período autárquico em curso, que pode ajudar por levar para essa corrida alguns dos nomes que teriam lugar de deputado se não fossem candidatos a presidentes de câmara, mas também pode agravar já que há autarcas em fim de mandato que, normalmente, são integrados nestas listas — já aconteceu há um ano e volta agora a acontecer.

As divisões e questões internas dos partidos — já se sabe — acabam por ser sempre aplacadas pela vitória, não havendo cola mais forte do que o poder. Na mesma medida, se a estrutura — mesmo a que parece dominada por uma frente — começar a evidenciar frestas, uma derrota nas eleições pode ser fatal.