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(A) :: A casa de Yara Kono pode ser uma montanha e um chapéu

A casa de Yara Kono pode ser uma montanha e um chapéu

Educar para o valor da arquitetura é, por si só, um encargo louvável e necessário, porém exigente. Fazê-lo com a linguagem dos livros infantis, em particular para crianças cegas, é assinalável.

Vasco Rosa
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Em artigos no Observador tenho tentado chamar a atenção para a admirável qualidade da edição infanto-juvenil portuguesa e da ilustração a ela associada, um processo de renovação e até de revolução sem precedentes, que se afirma no plano internacional com a aquisição de direitos de tradução e prémios variados, mas agora a Trienal de Arquitetura de Lisboa e Yara Kono decidiram subir ainda mais a fasquia, produzindo este arrojado e surpreendente Uma casa é uma montanha é um chapéu, dirigido a crianças dos 6 aos 10 anos, cegas ou com baixa-visão, mas também a quaisquer outras que saibam com aquelas compartilhar o mundo em que lhes foi dado viver.

Não é apenas o facto de a ilustradora nipo-brasileira residente em Portugal desde 2014, autora habitual da Planeta Tangerina, protagonizar um projeto inclusivo deste tipo, é também a forma nova — e inspiradora — da sua concretização mediante um crowdfunding inicial por pessoas individuais, depois complementado com doações da Fundação Millennium BCP, Fundação Calouste Gulbenkian e Imprensa Nacional Casa da Moeda que ajudaram a pagar a produção complexa, inevitavelmente dispendiosa, dos seus 1500 exemplares.

Mais ainda, há relevantes instituições envolvidas na produção deste livro: o Centro Professor Albuquerque e Castro, do Porto, que teve a seu cargo a impressão Braille, a Locus Acesso, que concebeu a acessibilidade táctil,  e a Gráfica Maiadouro, que imprimiu e gravou em relevo sobre papel com um zelo oficinal que uma vez mais a coloca num patamar de superior excelência internacional. Até as “ilustrações táteis” de Kono foram testadas por invisuais, envolvendo escolas e associações. Que tudo isto tenha sido feito desta maneira e com esta nobre finalidade dá vívido alento a quem olhe à sua volta e não encontre grandes motivos para tal.

Título: “Uma casa é uma montanha é um chapéu”
Ilustração: Yara Kono
Texto: Filipa Thomaz, Letícia do Carmo
Editor: Trienal de Arquitectura de Lisboa
Páginas: 38

Educar para o valor da arquitetura é, por si só, um encargo louvável e necessário, porém exigente, e fazê-lo com a graça e a simplicidade da linguagem própria dos livros infantis, com o seu constante desafio de atenção aos pormenores das ilustrações, exige uma maturidade autoral que encontramos patente neste livro. Na contracapa, o geralmente intrusivo código de barras, aparado para parecer uma casa a mais, prova como se trabalha bem em livros destes… A cada enunciado de três linhas — com representação Braille — corresponde uma ilustração de página inteira, em que os leitores fiéis dos trabalhos de Yara Kono reconhecerão motivos e personagens recorrentes, como o seu cão preto de focinho vermelho perseguindo bola azul, o patinho cor de rosa e a menina de cachecol, chapéu e guarda-chuva, além da paleta cromática que a singulariza.

“A casa é um lugar e um abrigo” é a primeira frase. Montanha e chapéu representam aqui o telhado inclinado que faz desligar a chuva (ou a neve) e o resguardo que uma casa dá a quem nela vive, e as duas autoras textuais — que trabalham no serviço educativo da Trienal — desdobram aproximações à geografia e à variedade de estilos e formas do habitar, sem esquecer o “esqueleto, bem escondido ou disfarçado”, “para tudo segurar e o peso aguentar”, “a energia que prolonga o dia” e “a água que vagueia pelos canos” de cada casa, mas que a ela regressa, depois de tratada.

Quaisquer que sejam — rodeadas “de campo ou de uma grande cidade”, “sós ou acompanhadas, numa rua, num prédio, num largo ou numa praça”, “de pele colorida ou cobertas por escamas, de madeira, pedra, azulejo ou hera”, “lado a lado ou empilhadas, redondas de palha, de barro enquadradas ou tendas de pano bem trianguladas” (olhando para as múltiplas formas do habitar humano) — as casas, dizem, foram pensadas e desenhadas, depois construídas para serem vividas. Se “em casa celebramos com família e amigos”, então a cozinha e a mesa de refeições — onde todos se encontram, ajudam e conversam — são o verdadeiro centro dela.

São estes os desenhos mais complexos, além dos dois que exibem espaços urbanos e todas as casas “de trabalhar ou cuidar, de divertir e rir, de aprender, ler, ou onde ir comer”, como a biblioteca municipal, a escola primária, o cinema, o café, a livraria oficina, o sapateiro e o lugar da fruta — sem esquecer o parque infantil com escorrega e os três contentores de reciclagem, elementos de valor social que a ideia de bairro e o cuidado com o futuro não podem esquecer.

Talvez por isso, o último desenho do livro — com um Godzilla bastante chateado empoleirado num arranha-céu, outros traços claramente infantis e duas mãos sobre o papel — aponte para que os miúdos de hoje desejem ser os projetistas de amanhã. É, claro está, a vocação interativa da literatura infantil. Mas que os que não podem ver, e têm de tudo o que os rodeia uma noção espacial drasticamente alterada, sejam chamados a compartilhar essa consciência da arquitetura como bem vital, é um ato maravilhoso, e este livro mereceu bem ter sido finalista dos Prémios Nova Bauhaus Europeia 2023. Vai certamente a tempo de ganhar outros…