Dupla e trágica ironia. A homenagem acabou por ser a última cena da sua própria história. Avesso a riscos desnecessários, morreu num atividade controlada, no que parecia ser um contexto seguro. Carlos Suárez, atleta de desportos radicais, alpinista, precursor do base jumping em Espanha, morreu na terça-feira em La Villa de Don Fadrique, Toledo. Participava nas gravações de La Fiera, um filme inspirado na sua vida, quando saltava, como duplo, de um balão de ar quente, com mais três participantes. Os outros chegaram bem ao chão, o homenageado não.
O acidente ocorreu durante a pré-produção do filme dirigido por Salvador Calvo, noticiou o jornal espanhol El País. Uma falha técnica levou-o num voo fatal. As câmaras filmavam uma cena de um filme do cineasta Salvador Calvo, que pretendia ser um tributo aos que abriram caminho neste desporto radical. La Fiera inspira-se concretamente em Suárez e no seu grupo de cinco amigos apaixonados pelo base jumping (modalidade radical em que o atleta salta de penhascos, prédios, pontes, etc, utilizando um paraquedas), do qual apenas dois sobreviveram. Mas enquanto os outros quatro duplos não tiveram contratempos, os dois paraquedas do seu wingsuit (macacão com asas usado em alguns voos de alta performance), não abriram e Carlos Suarez teve morte imediata, aos 52 anos, depois de 35 anos a escalar picos e a desafiar as alturas. As equipas de emergência chegaram rapidamente ao local, mas já nada puderam fazer.
O mundo do alpinismo (e também o do cinema) comoveu-se. A produtora Atresmedia Cine e a MOD Producciones, apressou-se a explicar na rede social X, que o salto obedeceu a “rigorosas medidas de segurança exigidas para este tipo de atividade“. O acidente já está a ser investigado pela Guarda Civil, avança a imprensa espanhola.
https://twitter.com/atresmediacine/status/1907040304676384768
A equipa de produção lamentou a morte trágica de Carlos Suárez, um “grande especialista em escalada, paraquedismo e base jumping”, sendo apenas uma das muitas vozes consternadas pela morte do atleta, como por exemplo, a do amigo próximo e conhecido alpinista basco Alex Txikon.
https://twitter.com/AlexTxikon/status/1907054250875564048
Não é para menos. Carlos Suárez era um nome incontornável no país vizinho. Foi tricampeão da Espanha de escalada desportiva e tornou-se numa referência nos desportos radicais após ter sido o primeiro a escalar a face oeste do pico espanhol NaranjoBulnes, sem o auxílio de cordas, o que fez dele “uma lenda viva da escalada espanhola”, considera a National Geographic. Nos seus dois perfis do Instagram é possível ver em fotografias e vídeos muitos dos seus feitos, em paisagens (e coreografias) impressionantes, ao longo dos anos.


O entusiasmo pelas montanhas começou aos 13 anos e levou-o a muitos cenários agrestes, desde os Himalaias, ao mítico K2 ou à Patagónia ou aos cumes africanos. Mas Carlos Suarez não era propriamente um aventureiro que não media o perigo. As suas expedições eram estudadas, preparadas meticulosamente, para diminuir ao máximo o risco.“O alpinista não procura o acidente, procura a forma mais segura de realizar os seus sonhos”, sublinhava sempre. Tão fiel a este princípio foi que acabou por se afastar de uma das sua paixões, o base jumping, quando viu alguns dos seus amigos a morrerem nesses saltos.
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“Não era um louco. A sua fama fora das nossas fronteiras era enorme e, de facto, o alpinismo espanhol perdeu com ele o seu grande embaixador”, disse ao El País um dos seus grandes amigos, Dario Rodriguez.

Comunicador e divulgador da modalidade, estudou Ciências Políticas e concluiu um mestrado em gestão desportiva, fazendo palestras sobre liderança e tomada de decisões em condições extremas. Escreveu três livros — Morir por la cima, Citas alpinas y Solo, Técnicas y experiencias e era figura habitual do conhecido programa de televisão em Espanha, Al filo de lo imposible.
Na agenda tinha para os próximos dias os Himalaias, de novo. Desta vez, para tentar escalar o Pico Saula (6.235 m), perto de Manaslu, numa expedição para comemorar o 50º aniversário dos primeiros oito mil metros escalado por alpinistas espanhóis, em 1975.
Já não fará parte das imagens desse grupo. E ainda não se sabe se surgirá, como duplo, em alguma cena do La Fiera, mais uma longa-metragem de Salvador Calvo que venceu o prémio Goya de Melhor Realização, em 2021, com o filme Adú. Estava previsto começar em maio as gravações, sendo que a estreia estaria agendada para o final de 2026, com distribuição pela Disney.
https://youtu.be/UZ9GsEkFPR4?si=2tu09ILPziMFZArD