Quando Fernando Silva entrou na barbearia “Granda Pente”, ao início da tarde, trazia escondida numa bolsa que levava à cintura uma arma de 6.35mm. Ao proprietário do espaço, muito conhecido pelos moradores do bairro de Penha de França, em Lisboa, exigiu: “Vais-me cortar o cabelo.” Depois de Carlos Pina lhe pedir para esperar “um bocadinho”, porque ia “só almoçar”, Fernando disparou sobre ele à queima roupa. Ainda se voltou e atirou também sobre um casal — incluindo uma mulher grávida — que estava à porta e acabou por morrer e um funcionário da barbearia, que conseguiu escapar ileso. O homem agiu “sem que nada o fizesse prever e sem proferir nenhuma palavra”, lê-se na acusação do Ministério Público (MP).
Guardando a arma, Fernando Silva correu para o carro conduzido pelo pai, chamando a companheira e os três filhos para que o seguissem, diz o MP na reconstituição dos acontecimentos da tarde de 2 de outubro de 2024. Viria a refugiar-se num bairro do Pinhal Novo, onde foi localizado e cercado pela polícia, acabando por se entregar com a ajuda de familiares. Está em prisão preventiva desde essa altura.
No despacho de acusação, noticiado esta manhã pelo jornal Expresso e consultado pelo Observador, questiona-se a tese apresentada pela defesa de Fernando Silva, que alegou que o homem de 33 anos era “doente” e lembra-se que foi considerado estável por um psiquiatra que o seguia no Hospital Júlio de Matos. Sublinha-se que, “aquando da prática dos factos, o arguido não apresentava qualquer alteração psicopatológica abnorme“, apesar da “preocupação em dar uma imagem patológica de si, ainda que de modo vago, com exagero de sintomas”. O motivo? O “receio de vir a ser condenado na pena máxima permitida pela lei penal portuguesa — 25 anos“, considera o MP.
A bolsa com a arma, a agressividade no almoço e a exigência: “Vais-me cortar o cabelo”
Antes de se dirigir à barbearia, onde era cliente habitual, Fernando Silva esteve a almoçar com a companheira numa pastelaria no Saldanha. Já nesse momento trazia consigo, na mesma bolsa de cintura, a arma com que viria a matar o proprietário da “Granda Pente”, de 43 anos, que tinha cinco filhos, Bruno Neto, de 36 anos, e a mulher, Fernanda Soares, de 34 anos, que estava grávida do terceiro filho. As vítimas, à semelhança do atirador, eram todas daquele bairro.
Enquanto comiam, o homem “demonstrou comportamentos agressivos e alterados perante os clientes que lá se encontravam”, descreve a acusação do MP. A companheira decidiu, então, chamar o pai de Fernando para os ir buscar e seguiram para a casa onde viviam, mas o autor do triplo homicídio — que consumaria minutos mais tarde — ficou pouco tempo. Pelas 13h20 chegava à barbearia de Penha de França, na Rua Henrique Barrilaro Ruas, com o pai e um amigo, a quem tratava por “irmão.”

Fernando Silva entrou com o amigo, já o pai “permaneceu junto à porta”. Por essa altura, o proprietário estava sentado descontraidamente na cadeira da receção, de telemóvel na mão, enquanto um funcionário atendia um cliente. “Vais-me cortar o cabelo. Vais-me cortar o cabelo. Vais-me cortar o cabelo”, disse “de imediato” a Carlos Pina, “de forma agressiva”. “Se esperares um bocadinho eu corto-te o cabelo. Agora vou só almoçar”, retorquiu o homem. Insatisfeito com a resposta, insistiu: “Não, não! Vais-me cortar o cabelo, vais-me cortar o cabelo.”
O funcionário, que já conhecia Fernando Silva, perguntou se estava tudo bem. O homem respondeu que ‘sim’ e voltou a concentrar-se em Carlos Pina: “Vais-me cortar o cabelo. Vais-me cortar o cabelo”, repetiu novamente “com uma postura mais agressiva”. O amigo ainda tentou convencê-lo a sair dali — “deixa-te disso, vamos embora”, avisou. Mas, “nesse preciso momento”, o proprietário voltou-se para Fernando, que, “sem que nada o fizesse prever”, puxou da arma, encostou-a ao rosto do homem e fez o primeiro disparo. O tiro atingiu a “região ocular direita”, descreve o MP, citando o relatório da autópsia. A morte foi imediata.
“Então pá? Era preciso isso?”, questionou Bruno Neto, um cliente que esperava no exterior da barbearia a sua vez. As palavras tiveram um efeito imediato em Fernando Silva, que, sem dizer nada, se aproximou dele, apontou-lhe a arma à testa e disparou pela segunda vez. Quando a mulher da vítima, Fernanda Soares, “começou a gritar”, o homem “pressionou” a arma contra a sua testa e voltou a disparar.
O único cliente dentro da barbearia aproveitou a confusão que se seguiu para fugir. O funcionário que momentos antes lhe cortava o cabelo fez o mesmo. Agachado contra a parede do estabelecimento, escapou por sorte a um quarto tiro de Fernando Silva, que depois disso fugiu para o carro, chamando a companheira e os filhos, enquanto o pai se sentava ao volante e conduzia rumo ao Alto de São João.
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O acusado é “calculista”, “astucioso” e exagera sintomas patológicos
Pouco depois de as autoridades chegarem ao local, durante a tarde de 2 de outubro, afiguravam-se dois motivos para o crime. Na altura, ao Observador, vários moradores e vizinhos falavam num motivo fútil — a falta de uma vaga para cortar o cabelo —, mas fonte relacionada com o processo não descartava nessa fase inicial da investigação a hipótese de um crime motivado pelo tráfico de droga. No despacho de acusação, porém, o Ministério Público apenas refere que foi “motivado pelas circunstâncias de não ter sido imediatamente atendido pelo ofendido (…), que lhe respondeu que só lhe cortaria o cabelo depois de almoçar”.
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Depois da fuga, Fernando Silva esteve desaparecido durante uma semana com a ajuda do pai. A Polícia Judiciária (PJ), que investigou o crime, percebeu que o destino tinha sido um bairro no Pinhal Novo, em Setúbal, que esteve “completamente cercado” pelos inspetores durante vários dias. Uma vez que a fuga foi auxiliada pelo pai, a PJ entrou em contacto com este familiar para facilitar a detenção, tendo este colaborado com as autoridades — o homem acabou por não ser acusado já que a lei absolve quem tenta ajudar um familiar direto depois da prática de um crime.
Fernando está em prisão preventiva desde então e assim continuará, lê-se no despacho de acusação, assinado pela procuradora Felismina Carvalho Franco no dia 26 de março deste ano. A medida é descrita como necessária, adequada e proporcional, pois “elevada será a tentação” do acusado “de se eximir à ação da justiça, pelo receio de vir a ser condenado na pena máxima permitida pela lei penal portuguesa — 25 anos.”

A procuradora sugere ainda que, para evitar cumprir uma pena decorrente de uma eventual condenação, o acusado tem fingido e exagerado sintomas associados a doença mental. “O arguido é calculista, astucioso, mede o efeito das suas palavras e escolhe o que deve dizer em cada momento, apresentando desconfiança, um estilo evasivo de respostas e cautela excessiva, com uma preocupação em dar uma imagem patológica de si, ainda que de modo vago, com exagero de sintomas, cujos fatores a literatura científica aponta como comportamento de sobrevivência para evitar uma sanção penal e reclusão prisional”, refere.
Na acusação, nota-se ainda que, na altura do crime, o acusado “não apresentava qualquer alteração psicopatológica abnorme que o impedisse de avaliar ou de se determinar.” Antes do triplo homicídio, o homem chegou a ser seguido no hospital Júlio de Matos, tendo estado internado por duas vezes, em 2019, em ambos os casos, segundo o Expresso, teria consumido drogas e exibia comportamentos agressivos. Em novembro do ano passado, foi considerado estável pelo psiquiatra que o seguia no hospital psiquiátrico“.
“O arguido demonstrou capacidade de compreensão suficiente para se mostrar omisso no que considera ser-lhe prejudicial e demonstrou ter capacidade cognitiva para compreender a natureza ilícita dos factos que praticou”, diz ainda a acusação. É acusado de três crimes de homicídio qualificado agravado, com recurso a arma de fogo; um crime de homicídio qualificado agravado, com recurso a arma de fogo; e um crime de detenção de arma proibida.