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(A) :: Quem é Cory Booker, o senador democrata que criticou as políticas de Trump num discurso que durou 25 horas?

Quem é Cory Booker, o senador democrata que criticou as políticas de Trump num discurso que durou 25 horas?

Jogou futebol americano, é vegan e fez greves de fome em protesto contra as más condições da habitação social em Newark. Falhou a candidatura a Presidente, mas mantém o lema: unir o Partido e o país.

Madalena Moreira
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Cory Booker falou durante 25 horas e 4 minutos no Senado. Quando finalmente se afastou do púlpito para terminar a sua intervenção, tinha batido um recorde com 68 anos — o de discurso mais longo na História da câmara alta do Capitólio. Mais importante, tinha sido coroado pelos seus pares como a cara da resistência democrata em Washington — “A câmara irrompeu em festejos e os democratas rodearam o seu novo líder não-oficial“, escreve o The Guardian sobre o momento final do discurso.

O senador de 55 anos, eleito pelo estado de Nova Jérsia, faz realmente parte da liderança do Partido Democrata. Foi eleito para o cargo pela primeira vez em 2013, o que o torna o quarto democrata com mais anos de experiência no Senado. No currículo acumula uma carreira desportiva, cargos locais em Newark e uma candidatura falhada às primárias do Partido para as presidenciais de 2020.

No discurso, que começou na segunda-feira e só terminou na terça-feira à noite, Booker anunciou a “intenção de começar bons problemas” e de “interromper o normal funcionamento do Senado dos Estados Unidos” para alertar para a situação de “crise” que o país atravessa. Durante 25 horas, elencou e criticou as muitas medidas já implementadas por Trump, leu dezenas de cartas de norte-americanos “aterrorizados”, lembrou a História do país e, quando precisou de uma pausa, ouviu elogios dos seus pares.

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Os longos discursos no Senado são utilizados normalmente como forma de filibustering, um mecanismo que serve para adiar o máximo possível a votação de uma lei. Neste caso, Booker protagonizou um protesto. Mas não foi a primeira vez que o agora senador se destacou por um protesto mediático.

De Washington D.C. para Newark e o regresso a D.C.

Cory Booker nasceu na capital Washington D.C. em 1969, mas cedo se mudou para Nova Jérsia, onde passou quase toda a infância. Uma e outra vez, Booker falou da sua experiência de crescer como um rapaz negro num bairro predominantemente branco.

Enquanto se formava em Direito na Yale Law School, trabalhou numa organização sem fins lucrativos que ajudava famílias com poucos recursos. No regresso a Nova Jérsia, mudou-se para um bairro de habitação social, para lutar por melhores condições para os residentes. Em 1998, chegou ao conselho municipal de Newark e no ano seguinte esteve em greve de fome e acampou numa tenda durante dez dias e depois viveu numa caravana durante cinco meses. Sempre com o mesmo objetivo: alertar para a má situação de habitação.

Entre 2006 e 2013 foi presidente da câmara de Newark, ano em que ganhou a eleição extraordinária de Nova Jérsia para substituir o senador que tinha morrido no cargo, tornando-se o primeiro senador afro-americano a ser eleito neste estado. Em 2014, venceu a sua primeira eleição para um termo completo no Senado e aí permanece até hoje.

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Carreira no futebol-americano ajudou-o a preparar-se para o discurso

Antes de chegar a Yale, Booker licenciou-se em ciência política em Stanford, onde integrou a equipa de futebol norte-americano. Com 1,93 metros de altura, jogava numa posição ofensiva.

A aptidão para o desporto e a preocupação com a saúde acompanham-no até hoje e foram uma ajuda para se preparar para as 25 horas que passou de pé no Senado. Não comeu entre sexta-feira e terça, nem bebeu água nas 24 horas antes de começar a discursar. O objetivo? Evitar idas à casa de banho que o obrigassem a abandonar o pódio, explicou o próprio, citado pelo New York Times.

É vegan e, segundo escreveu uma antiga assessora, “bebe cafeína suficiente para ficar acordado 72 horas num dia normal”. Mas apesar das rotinas e da preparação física, Booker admitiu que a maratona política o deixou “cansado e rouco”.

O “otimista” que quer unir os norte-americanos

Em fevereiro de 2019, em frente à sua casa em Newark, Booker declarou que o “amor não é fácil” e anunciou a sua candidatura às primárias do Partido Democrata, num discurso em que invocou os movimentos pelos Direitos civis e das mulheres sufragistas.

Esses dois temas marcaram a sua carreira no Senado, visível no protagonismo que teve na implementação do First Step Act, uma lei para a reforma do sistema prisional que visava a desigualdade com que prisioneiros negros e latinos são tratados. Na sua biografia oficial, destaca ainda o seu trabalho para proteger o Affordable Care Act — o Obamacare.

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A sua curta campanha presidencial fez-se na base da união e de um “sentido de propósito comum” que o opunham a Donald Trump. À data a Associated Press, destacou o seu “otimismo” e a sua postura descontraída, por oposição aos restantes candidatos democratas, que se revelaram muito mais combativos e agressivos contra o então Presidente.

A agência destacou ainda as críticas feitas por uma franja mais progressista do Partido, que apontou as suas ligações financeiras aos interesses bancários e farmacêuticos. Acabou por se retirar de uma corrida apinhada, mas ressurgiu agora como o líder que quer voltar a unir um Partido Democrata dividido.