Jacarandás. Só se fala dos jacarandás de Lisboa. Não se falava tanto de uma árvore desde que a Senhora subiu àquela azinheira. E aí foi mais por responsabilidade da Senhora do que propriamente da árvore. A coisa está de tal forma que, como colunista responsável — e modesto — que sou, me senti obrigado a estudar os jacarandás.
E digo uma coisa: agora sim, após cerca de meio-minuto de ChatGPT, sinto-me parte da geração mais bem preparada de sempre. Preparado para, nomeadamente, defender a absoluta necessidade de manter os jacarandás em Lisboa. Mais. Estou pronto para fazer segundas vozes naquele coro deprimente que apareceu nas redes sociais a cantar loas aos jacarandás, enquanto abraço libidinosamente — como também vi fazerem nas redes — um frondoso jacarandá.
Mas porque são os jacarandás fundamentais na capital? Porque trata-se de parte inalienável do nosso património cultural. O que seria dos arruamentos de Lisboa sem passeios e alcatrão todos levantados por culpa das raízes agressivas desta árvore? Que seria da circulação pedonal na cidade sem a massiva quantidade de folhas que, ao caírem, formam um extremamente roxo e escorregadio tapete, propício a fortes quedas produtoras de roxos traumatismos, apenas amenizados pela algo macia cobertura do omnipresente pupu de canídeo nos passeios?
Enfim, de repente, dir-se-ia que os jacarandás não fazem muito pelo seu caso. Não fosse o caso de se tratar de uma árvore originária do Brasil, Argentina e Paraguai, o que faz da sua presença em Lisboa não apenas um exemplo berrante de neo-colonialismo, como também de abominável apropriação cultural. E isso deve fazer dói-dói aos exactos maluquinhos dos jacarandás que desejam fazer amor com o arvoredo. Convenhamos que é divertido ver a trupe ecologico-vegano-mal lavada envolta nesta versão do clássico cenário da faca de dois legumes.
Já que falo de exotismos e relações obscuras com a água, deixemos a conversa fluir até à candidatura do Almirante Gouveia e Melo à presidência da República. Estará um enorme estadista a emergir? Podemos sonhar com um Presidente sem receio de agitar as águas? É boa ideia terminar com metáforas marítimas sob a forma de questão? Sem dúvida. Larguemos então as figuras de estilo, mas não abramos mão da temática aquática.
Muitos têm referido o inusitado de podermos voltar a ter um militar como mais alto magistrado da nação. Mas eu — até por ser individual — não partilho da inquietação. E nem é por já termos tido Ramalho Eanes como Presidente, que isso foi há mais tempo do que o Sócrates está para ser julgado. É mais porque a eventual transição de Marcelo Rebelo de Sousa para Gouveia e Melo não podia ser mais suave: um Almirante a suceder ao chefe de Estado que, de tanto tempo passado de molho, já deve ser fuzileiro honoris causa. Um chefe de Estado a quem O Homem da Atlântida podia dirigir, implorando, um sentido: “Marcelo, vá lá, estou fartinho de nadar. Vamos um bocado para a toalha apanhar sol.”
Ou seja, aconteça o que acontecer, é tão provável mudar alguma coisa na política portuguesa como é mudar alguma coisa na política da UE de interferir em eleições nos países membros com o pretexto de vir lá o Hitler. Agora, era a Le Pen que se ia transformar no novo Hitler, depois de, na Roménia, Călin Georgescu ter ameaçado ser o novo Hitler, ao mesmo tempo que, na Hungria, Orbán teima em querer converter-se no novo Hitler.
Valham-nos a Ursula von der Leyen e o nosso António Costa, quais precognitivos do Relatório Minoritário, de molho naquele tanque de imersão, a terem visões do futuro e a ajudarem a bófia a impedir crimes nazis antes de acontecerem. A única diferente é que os precogs estavam de molho num qualquer líquido inócuo, ao passo que estes líderes da UE chafurdam num espesso caldo de autoritarismo.