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Mário Amorim Lopes: "Crise foi provocada por luta de galos"

O deputado e cabeça de lista por Aveiro, Mário Amorim Lopes, critica a postura de Montenegro e Pedro Nuno na crise política e aponta a coligações pós-eleitorais.

Miguel Viterbo Dias
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Vanessa Cruz
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É um dos deputados da IL que vai procurar a renovação de mandato. Mário Amorim Lopes recusa um partido concentrado na imagem do candidato e garante que os liberais continuam a ser “o partido das ideias”, mas que “as pessoas votam em pessoas” e por isso é preciso investir também na imagem de Rui Rocha.

Em entrevista ao Sofá do Parlamento, na Rádio Observador, Mário Amorim Lopes acredita que a Iniciativa Liberal vai sair valorizada destas legislativas, apesar de ter votado a moção de confiança no sentido da continuidade do Governo. O deputado liberal desvaloriza a questão da coligação pré-eleitoral e diz que “se for necessário” os liberais vão contribuir para um Governo de centro direita liderado pelo PSD.

Já que no que toca às alterações nas listas, Mário Amorim Lopes reconhece que Bernardo Blanco e Patricia Gilvaz são “enormes ativos” da IL mas garante que o partido tem “um naipe de trunfos” para apresentar nestas eleições e que o objetivo é crescer no número de mandatos.

[Ouça aqui o Sofá do Parlamento com Mário Amorim Lopes]

https://observador.pt/programas/o-sof-do-parlamento/il-se-necessario-faremos-coligacao-com-o-psd/

A sua escolha para encabeçar a lista de Aveiro há um ano foi alvo de algumas críticas dos núcleos locais. Desta vez está a ser mais bem recebido?
Não foi nada pessoal, foi simplesmente a primeira vez que a Iniciativa Liberal colocou como cabeça de lista alguém que efetivamente não vivia no distrito, que é o meu caso, e isso gerou alguma turbulência, mas que foi ultrapassada na própria campanha, quando perceberam que estava  de corpo e alma para Aveiro. Agora conheço bem melhor o distrito de Aveiro do que o distrito do Porto. Aveiro é um dos distritos mais liberais do país, é gente de mangas arregaçadas, empreendedora, com pequenos negócios que quer fazer crescer, não fica à espera do Estado, e portanto foi um enorme privilégio poder representar esse distrito, politicamente, que de certa forma me adotou, e é com esse mesmo sentido de lealdade que não podia ir nas listas por outro sitio.

Sendo que Aveiro vai ter como cabeças de lista Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro, pelo PS e pela AD. Esta proximidade dos líderes do PS e do PSD à região pode tornar mais difícil o crescimento da Iniciativa Liberal?
Torna ainda mais interessante. Espero que os cabeças de lista do PS e do PSD não se furtem a um debate porque que teria muito gosto de debater com eles. Vejo isso como um grande desafio, não vejo como um problema. Vamos a isso.

Depois das europeias a Iniciativa Liberal vai voltar a apostar numa campanha com a imagem do candidato do partido, neste caso Rui Rocha. A IL deixou de ser o partido das ideias e agora valoriza já a figura do candidato?
Não, pelo contrário. Está na nossa origem. Valorizamos as ideias que temos para o país e a convicção profunda de que podemos fazer de Portugal um grande país se adotarmos as políticas públicas certas e para isso de facto temos de ter boas ideias. Recentemente, numa visita de Estado que tive a oportunidade de fazer com o Presidente da República e outros deputados aos Países Baixos, estávamos num jantar com os reis e estava sentado ao lado de uma ministra do VVD, que é o nosso partido irmão, e pergunto-lhe como é que o VVD, que nasceu por volta de 1950, teve sempre votações pouco expressivas, à volta dos 4, 5, 6%, e de repente nos últimos 20 anos dá um salto? E o que é que tinha acontecido? Se eles tinham mudado o seu programa eleitoral, o seu posicionamento, as suas ideias? E ela disse: Mark Rutte. Mas as ideias são novas? Questionei. Ao que a resposta foi: as ideias são as mesmas, mas as pessoas votam em pessoas e, portanto, esse é um aspeto muito importante que não podemos descurar. A IL está a conciliar isso: ter as ideias certas com as pessoas capazes de implementar essas ideias.

"Tanto Luís Montenegro poderia ter evitado esta situação, se calhar recuando na moção de confiança, assim como Pedro Nuno Santos podia perfeitamente ter subsistido na moção de confiança e depois ter avançado com a comissão de inquérito"

Luís Montenegro “vai esclarecendo e novas questões vão surgindo”

O PSD surge numa sondagem da Pitagórica mais distanciado do PS. Estes dados são um primeiro sinal de que Luís Montenegro fez bem em apresentar uma moção de confiança e provocar uma crise política?
Não sei se podemos concluir isso porque também podemos ver que a maior parte das pessoas não queria estas eleições e que, em boa verdade, tivemos uma situação em que estavam dois atores políticos, no caso Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro, que mais pareciam estar numa luta de galos. Tanto Luís Montenegro poderia ter evitado esta situação, se calhar recuando na moção de confiança, assim como Pedro Nuno Santos podia perfeitamente ter subsistido na moção de confiança e depois ter avançado com a comissão de inquérito. Infelizmente, como nenhum dos dois acabou por ceder, estamos todos a pagar por isso, ao invés de termos estabilidade para conseguimos implementar as políticas de que precisamos. Ninguém beneficia com isto, mesmo que depois, no dia 18 de maio, a AD possa terminar com uma votação maior. Ainda assim, o país não beneficia desta situação.

Mas tendo em conta que o cenário eleitoral, à partida, será ainda mais polarizado do que há um ano, os outros partidos, no caso a Iniciativa Liberal, não podem sair prejudicados?
As sondagens dizem exatamente o contrário e as que precediam a moção de confiança já nos colocavam numa tendência crescente. E isto até seria um motivo, se fossemos puramente eleitoralistas, para votarmos contra a moção de confiança e querermos forçar as eleições. A IL não colocou isso em primeiro plano e fizemos uma votação de princípio. Não conseguíamos antecipar o impacto eleitoral que isto vai ter e, portanto, não valia a pena estar a pensar num voto tático. O que é que, efetivamente, seria a nossa posição de princípio? O que é que, efetivamente, é bom para o país e para Portugal, independentemente das implicações que tem para a Iniciativa Liberal? É não irmos a eleições, darmos estabilidade ao país, e assim foi. Felizmente, correu bem. Parece que as sondagens confirmam que isso foi bem recebido pelo povo português, porque não deixamos de ser rigorosos e de pedir um escrutínio a Luís Montenegro e dizer que deveria ter feito tudo isto de forma diferente, para não deixar arrastar esta situação.

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E, ao dia de hoje, Luís Montenegro ainda tem coisas por esclarecer?
Vai esclarecendo e novas questões vão surgindo. São as consequências de ser primeiro-ministro. O grau de escrutínio é elevado, sabemos bem disso, e esse escrutínio não é errado desde que não chegue ao nível da devassa. Do que se sabe, atualmente. Quer dizer, a questão é que vão sempre surgindo novas questões. No início, na primeira moção de censura que o Chega apresentou, o que estava em causa era a lei dos solos e o facto de Hernâni Dias ter sido imprudente. Depois, surgiu a dúvida se uma empresa que Luís Montenegro teria, que tinha um âmbito imobiliário, se não poderia ser usada também para beneficiar da lei dos solos. O segundo tema já era a procuradoria ilícita, com Alexandra Leitão, enquanto líder parlamentar do PS, num tom bastante professoral, muito certa de si mesmo, de que tinha quase a certeza absoluta que estávamos perante um caso de procuradoria ilícita por parte de Luís Montenegro. Entretanto lá se percebeu que a proteção de dados tem uma componente tecnológica, portanto, não é necessário ser jurista e daí passou para as questões da exclusividade. O objeto de dúvida vai mudando.

E isso enfraquece o caso?
Agora já se fala da questão da obra em Espinho. Luís Montenegro, obviamente, tem de explicar estas situações todas, mas a verdade é que, para alguma oposição cujo único objetivo é deitar abaixo o Governo e que, para isso, vale qualquer meio, nunca estarão satisfeitos. Da nossa parte, se estivermos perante um ilícito, e aí deve ser a Procuradoria Geral da República a instaurar os processos devidos, mas à data isso não está em cima da mesa.

Estas eleições correm o risco de ser um plebiscito a Luís Montenegro. O primeiro ministro está à procura de limpar a polémica com a Spinumviva nas urnas?
Não, nunca poderá ser. A IL será fiel ao que disse: não iremos fazer de Luís Montenegro a campanha eleitoral porque não é isso que resolve os problemas de Portugal. Falaremos de Portugal e do que se pode tornar se tomar as decisões certa. Esse será o foco da nossa campanha. Dito isto, obviamente que um processo democrático não pode ser uma forma de eliminar eventuais ilícitos, caso existam. O PS disse que com ou sem eleições iria haver comissão de inquérito, portanto, quaisquer dúvidas que permaneçam poderão ser esclarecidas aí, embora seja um precedente perigoso porque, a partir de agora, sempre que haja uma dúvida sobre uma empresa de um determinado político, faz-se uma comissão de inquérito e usa-se o Parlamento como tribunal. É perigoso, mas é um entendimento do PS, que está no seu direito.

"Estamos num partido com excelentes quadros e foi possível ir buscar ótimos cabeças de lista e preencher as listas com pessoas muito competentes, com créditos firmados e não sendo fácil perder dois excelentes deputados, felizmente temos um naipe de cartas com muitos trunfos para apresentar"

“Queremos, naturalmente, crescer. Se tivermos mais deputados, isso ajuda” a implantar as ideias da IL

E nestas legislativas de 18 de maio, a Iniciativa Liberal tem alguma fasquia mínima para o aumento de deputados? 
Não fixamos nenhum limite quantitativo, até porque o importante para é perceber como é que conseguimos implementar estas ideias que transformaram outros países em países mais ricos. E, tendo em conta que grande parte do Parlamento não tem essa visão do país, são situacionistas, o que temos de responder é como é que conseguimos implementar essas ideias. Obviamente, se tivemos mais deputados, isso ajuda-nos. Queremos, naturalmente, crescer. Não escondemos isso, mas vai depender da vontade dos portugueses e da nossa capacidade de comunicarmos o que queremos fazer e da campanha que fizermos até ao dia 18 de maio.

Bernardo Blanco não vai ser candidato a deputado. A Iniciativa Liberal pode dar-se ao luxo de perder uma das figuras mais proeminentes?
O Bernardo é um extraordinário ativo da IL e até digo, a título pessoal, gosto muito do Bernardo enquanto pessoa para além de político. Já agora, a Patrícia [Gilvaz] também, porque não é apenas o Bernardo que está a sair. São excelentes deputados e nunca é fácil lidar com isso. Seja como for, foi uma opção dos próprios que decidiram voluntariamente voltar a ter uma carreira no setor privado e isso faz parte da cultura da IL. Não vemos a política como uma profissão. É importante termos uma experiência e um caminho próprio e a porta estará sempre aberta. Estamos num partido com excelentes quadros e foi possível ir buscar ótimos cabeças de lista e preencher as listas com pessoas muito competentes, com créditos firmados e não sendo fácil perder dois excelentes deputados, felizmente temos um naipe de cartas com muitos trunfos para apresentar.

No caso de Mariana Leitão, está até em duas frentes. É novamente candidata a deputada e já tinha anunciado a candidatura presencial. Não mostra falta de compromisso? 
De todo. Se não existissem estas eleições Mariana Leitão continuaria a ser deputada, a nossa líder parlamentar e, também, candidata a Presidente da República.

E isto não pode levar a interpretações de que a candidatura presidencial não vai chegar ao fim? 
Não, vai ser para levar até ao fim. Olhando para os candidatos ou proto candidatos era fundamental ter alguém com a frescura e com a energia da Mariana Leitão. Não está em cima da mesa não levar a candidatura de uma forma séria. A IL sabe qual é o ponto de partida mas quando fazemos as coisas é para levar até ao fim e com a convicção de ser para ganhar. Faremos a mesma campanha que faríamos estando convictos que seria para ganhar. Será uma campanha para explicar aos portugueses o que temos para dar. O nosso grau de compromisso com estas presidenciais, e da Mariana em particular, é absoluto, não está em causa.

"Não será por nós que voltaremos a ter uma geringonça com o Bloco de Esquerda ou com o PCP. Ou seja, não seríamos nós que iríamos invalidar um Governo de centro direita com o PSD. Não fazemos disso a nossa prioridade mas não somos muleta de ninguém e fazemos o nosso próprio caminho. Se for necessário fazemos naturalmente uma coligação"

“Os partidos têm que se afirmar. Temos ideias diferentes do PSD”

A Iniciativa Liberal escolheu não entrar no Governo e não quis agora uma coligação com a AD nestas eleições. Estas decisões não podem levar a que o partido seja asfixiado pelo voto útil e se torne irrelevante no novo xadrez político?
Não, de todo. Fazemos um caminho próprio. Os partidos têm de se afirmar. Temos ideias diferentes do PSD. Se assim não fosse não faria sentido existirmos enquanto partido. Temos ideias que achamos que são muito mais ambiciosas e que poderão ajudar Portugal a ser um país muito mais próspero e dar muito melhores condições aos portugueses. É fundamental que os portugueses conheçam bem o nosso posicionamento. Dito isto, não será por nós que voltaremos a ter uma geringonça com o Bloco de Esquerda ou com o PCP. Ou seja, não seríamos nós que iríamos invalidar um Governo de centro-direita com o PSD. Não fazemos disso a nossa prioridade, mas não somos muleta de ninguém e fazemos o nosso próprio caminho. Se for necessário fazemos, naturalmente, uma coligação, mas o que é verdadeiramente importante é que as ideias sejam implementadas. Não são os cargos que nos movem. Se o PSD implementasse o nosso programa eleitoral, no limite nem precisaríamos de cargos, desde que eles efetivamente fizessem. O problema é que não fazem e daí a importância de ter a Iniciativa Liberal, como se viu pelo último ano em que a AD só tentou corrigir coisas aqui e ali.