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(A) :: A Europa e a China: adversários ou aliados?

A Europa e a China: adversários ou aliados?

União Europeia e China – têm a oportunidade de se reaproximarem e reforçarem as relações de cooperação económica e comercial, e em novas áreas em que a China desenvolveu a sua própria “expertise".

Arnaldo Gonçalves
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A crispação nas relações entre a União Europeia e a ameaça do presidente norte-americano de impor tarifas de 25% sobre as importações da UE, com início em 2 de Abril de 2025 coloca a necessidade da política externa europeia ser repensada, tendo em conta reacertos geopolíticos em curso.

Em 2024, as exportações da União Europeia para os Estados Unidos totalizaram 531,6 mil milhões de euros representando um aumento de 5,5% face ao ano anterior. As importações provenientes dos EUA diminuíram 4,0%, situando-se em 333,4 mil milhões de euros. A principal componente das exportações americanas têm sido produtos farmacêuticos (22,5%), seguindo-se veículos e máquinas industriais.

A Europa, ao tempo representada pela Comunidade Económica Europeia (CEE), estabeleceu relações diplomáticas com a República Popular da China em 6 de Maio de 1975 completam-se agora cinquenta anos. Portugal, por sua vez, estabeleceu relações formais com a RPC em 8 de Fevereiro de 1979, tendo como pano de fundo resolver a questão de Macau, território então administrado por Portugal. Macau seria transferido para a China em Dezembro de 1999.

As relações entre o bloco europeu e a China têm sido enquadradas pela Parceria Estratégica UE-China celebrada em 2023, abrangendo domínios como o comércio, a política e a segurança. Calorosa no tom das declarações políticas a relação tem-se apartado por razões associadas ao crescimento do défice comercial bilateral favorável à China, aos direitos humanos e a visões contrastantes quanto à política internacional.

No que respeita à questão ucraniana enquanto os países europeus se têm mobilizado no apoio político, económico e militar ao país invadido, a China tem assumido uma posição de neutralidade no Conselho de Segurança da ONU, abstendo-se nas propostas de resoluções propostas pelos EUA de condenação da invasão russa da Ucrânia. Apesar da insistência de Zelensky, Xi Jinping nunca recebeu o presidente ucraniano com o receio de melindrar Vladimir Putin. Em abril de 2023, o presidente chinês, Xi Jinping, e Zelensky mantiveram uma conversa telefónica, na qual discutiram a crise na Ucrânia e as relações bilaterais entre os dois países.

As relações entre Pequim e Moscovo têm sido reguladas pela Parceria Estratégica Abrangente de Coordenação para uma Nova Era celebrada em Fevereiro de 2022 entre Xi Jinping, presidente da China e Vladimir Putin presidente da Rússia. Enfática na designação escolhida a parceria tem como objectivo o reforço da cooperação entre os dois países não só em termos económicos e políticos, mas também em termos de defesa e coordenação da acção no palco internacional.

O texto da declaração refere que a amizade entre os dois países “não tem limites” e que as relações de cooperação “não têm áreas proibidas”. A Parceria tem como desiderato opor-se à influência dos Estados Unidos e da NATO designadamente no palco europeu. Algo se modificou, entretanto, na relação bilateral. Começou a perceber-se que Putin tem a ambição de reconstruir o antigo império czarista, influenciado pelo ideólogo do Kremlin, Alexander Dugin, que olha a Rússia como o centro de uma grande civilização eurasiática, que deve rivalizar com o Ocidente liberal e globalista opondo-se aos valores ocidentais (democracia, direitos humanos, globalização) que considera uma ameaça à identidade russa. O que implica a diminuição do papel da China no plano global.

No Conselho Europeu de Junho de 2023 a relação da União Europeia com a China foi requalificada, designando este último país como parceiro, concorrente e rival sistémico. Esta foi uma reacção ao aumento da concorrência chinesa em termos comerciais e a penetração de empresas chinesas em sectores estratégicos europeus como o das novas tecnologias, as telecomunicações, a indústria espacial e a Inteligência Artificial.

A nova política agressiva da administração Trump dirigida à Europa mas também à China corrói os princípios do mercado e do comércio livres, instituído no sistema internacional no pós-Segunda Guerra Mundial, e configura uma convergência objectiva com a política expansionista russa que ameaça a estabilidade e a sobrevivência da União Europeia.

Esta alteração do paradigma sob que temos vivido nos últimos trinta anos, assente na aliança com os Estados Unidos e no papel da NATO na defesa europeia, impõe que a Europa olhe para as suas necessidades no médio e longo prazo e repense as suas relações com outras partes do mundo. O reforço da cooperação com a República Popular da China pode ser uma nova oportunidade com benefícios mútuos. A China está cada vez mais incomodada com o actual realinhamento estratégico entre Washington e Moscovo e com a obsessão expansionista russa.

As duas partes – União Europeia e China – têm a oportunidade de se reaproximarem e reforçarem as suas relações não só em termos de cooperação económica e comercial mas em novas áreas em que a China desenvolveu a sua propria “expertise”. Sobretudo em termos do desenvolvimento de tecnologias avançadas como a Inteligência Artificial, as tecnologias limpas, as comunicações, os veículos elétricos, a robótica, a automação ou a biotecnologia. O atraso europeu em relação à China é nestas áreas cada vez mais significativo. Existem economias de escala que podem ser desenvolvidas.

Há questões nos diálogos bilaterais criados pela Parceria Estratégica UE-China que são motivos de acrimónia reflectida no facto de desde 2020 não existirem declarações conjuntas nas cúpulas anuais entre os dois lados. Um deles é o boicote europeu à venda de armas à China que se mantém desde 1989. O segundo a questão dos direitos humanos na China, objecto de sanções especiais a Pequim em relação à situação em Xinjiang e em Hong Kong. Naturalmente a Europa não pode prescindir dos seus valores cardinais, mas num tempo em que se agravam, de forma vertiginosa, as tensões internacionais num clima que alguns identificam com a Guerra-Fria, a União Europeia tem de dar provas de moderação e pragmatismo.

Um mundo centrado em dois potentados – Estados Unidos e Rússia – dividindo entre si zonas de influência não é favorável ao futuro da Europa e ao seu projecto civilizacional.