(c) 2023 am|dev

(A) :: Montenegro encurta desvantagem entre os mais velhos e cobiça base eleitoral do PS

Montenegro encurta desvantagem entre os mais velhos e cobiça base eleitoral do PS

AD acredita que conseguiu recuperar confiança dos pensionistas, grande base eleitoral do PS. Montenegro tenta ainda alargar mancha à direita, acenando com redução de impostos e controlo de imigração.

Miguel Santos Carrapatoso
text

Um sinal que reforça (e muito) as boas perspetivas que a equipa de Luís Montenegro vai tendo em relação às próximas eleições legislativas. Os sociais-democratas têm históricas dificuldades em convencer os eleitores mais velhos a confiarem no centro-direita, especialmente depois do período traumático da troika. Apesar de tudo, as mais recentes sondagens sugerem que pode estar a existir uma significativa alteração de perceções. Com essa base eleitoral diminuída, Pedro Nuno Santos teria muitas mais dificuldades em derrotar Luís Montenegro e impossibilitaria, acreditam os conselheiros do primeiro-ministro, a vitória do PS.

“Toda a narrativa do PS para os mais velhos era: ‘Os malandros do PSD vão…’. Hoje, esse já não é um discurso credível”, comenta com o Observador um dos elementos do núcleo duro de Luís Montenegro, reagindo, precisamente, às mais recentes sondagens. A última, divulgada pela TVI/CNN, traz um dado surpreendente tendo em conta tudo o que aconteceu nos últimos atos eleitorais desde 2015: a AD aparece com mais de 4 pontos percentuais de vantagem sobre o PS entre os eleitores com mais de 65 anos.

Os sociais-democratas vão reagindo a estes estudos de opinião com relativa cautela, mas os dados animadores (sobretudo entre os eleitores mais velhos) vão contagiando a equipa de Montenegro: os pensionistas começam a olhar de outra forma para a agenda dos partidos do centro-direita e isso torna ainda mais sólidas as ambições da coligação PSD/CDS.

A partir do Governo, há quem vá sugerindo alguns elementos que podem ajudar a explicar essa aparente inversão de uma tendência que se registava, pelo menos, desde 2015. Este fenómeno pode dever-se ao facto de terem sido dados alguns passos na valorização dos rendimentos dos pensionistas e na garantia de acesso a medicamentos, mas também (e não menos importante) ao facto de este Governo ter investido especial atenção numa agenda sobre a segurança e sobre a imigração, temas que, acreditam os sociais-democratas, dizem muito aos mais velhos.

Em janeiro deste ano, já alguns destacados dirigentes do PSD sugeriam que estava em curso uma inversão de tendências e que os mais velhos (o grande suporte político do PS) começavam a perceber que o fantasma da troika e do corte das pensões estava definitivamente exorcizado. Essa tentativa reconciliação (que foi igualmente evidente junto de determinadas carreiras da função pública, como os professores) foi sempre assumida por Luís Montenegro. Mesmo durante a última campanha eleitoral. Percebe-se porquê: pesar de ter conseguido uma vitória em março de 2024, a coligação PSD/CDS foi copiosamente derrotada pelo PS entre os mais velhos.

Ironicamente, o Executivo tinha preparado um bónus para os pensionistas marcado algures para o verão deste ano, uma forma mal disfarçada de lançar a campanha para as autárquicas. Mas, no Parlamento, PS e Chega forçaram o Governo a aplicar o aumento já em janeiro deste ano — mais do que a tempo destas legislativas inesperadas

A luta pelo voto dos pensionistas

Nas eleições de março de 2024, e de acordo com uma sondagem à boca da urna do ICS/ISCTE, 48% dos eleitores com mais de 65 anos tinham votado no PS, contra os 28% da Aliança Democrática; nas europeias, em junho do mesmo ano, a diferença foi mais ou menos idêntica (48 contra 31%). Ora, o que esta sondagem da Pitagórica para a TVI/CNN aponta, confirmando tendências de outros estudos de opinião, é que a coligação PSD/CDS está aparentemente inverter esta diferença ou, pelo menos, a encurtá-la. A verificar-se, isso pode tornar ainda mais mais difícil a missão de Pedro Nuno Santos de derrotar Montenegro nas próximas legislativas.

Daí para cá, o Governo vinha a fazer um esforço concertado por “desmistificar” a ideia de que a direita penaliza os reformados quando chega ao poder. Aumentou as pensões, reforçou o Complemento Solidário para Idosos e garantiu, por exemplo, a gratuitidade dos medicamentos para os beneficiários deste apoio social. Ironicamente, o Executivo tinha preparado um bónus para os pensionistas marcado algures para o verão deste ano, uma forma mal disfarçada de lançar a campanha para as autárquicas. Mas, no Parlamento, PS e Chega forçaram o Governo a aplicar o aumento já em janeiro deste ano — mais do que a tempo destas legislativas inesperadas.

Aliás, prova da importância deste campeonato muito particular é que socialistas e sociais-democratas se travaram de razões sobre as pensões ainda na fase prematura da pré-campanha eleitoral. “O nosso sistema público de pensões e o nosso sistema de segurança social estão em risco com um Governo da AD”, atirou há dias Pedro Nuno Santos. “Quando faltam ideias e palavras e soluções aos atores políticos, como parece ser o caso, abundam as invenções, as insinuações falsas. Fazer debate político ou início de campanha a criar medos que não têm nenhuma sustentação é um grande desrespeito pelos eleitores”, devolveu António Leitão Amaro, ministro da Presidência.

[Já saiu o terceiro episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio e aqui o segundo]

Ainda em janeiro, alguns dirigentes sociais-democratas falavam de um efeito difícil de medir mas que servia para alimentar boas perspetivas: as agendas sobre segurança e imigração poderiam estar a ajudar a recuperar a confiança dos eleitores mais velhos — aqueles que, por norma, mais temem o aumento da criminalidade e que mais dificuldades têm em interagir com uma comunidade que vai sofrendo a pressão da imigração; temas que falam também para os eleitores mais pobres — aqueles que mais sofrem na pele os efeitos secundários da globalização.

Olhando, por exemplo, para a sondagem da Consulmark 2 para o jornal SOL vê-se algo de muito revelador: 32,9% dos inquiridos com mais de 65 anos manifestaram a intenção de votar em Luís Montenegro, contra os 29,5% que dizem ter vontade em Pedro Nuno Santos — e, mesmo assim, este segmento eleitoral continua a ser, de longe, o mais favorável ao socialista. Neste mesmo conjunto de inquiridos, 44,5% dizem preferir Luís Montenegro a Pedro Nuno Santos (37,7%) como primeiro-ministro.

Depois, existe um fenómeno complementar: mesmo nas sondagens em que o PS continua a ser dado como favorito entre os mais velhos (a da Intercampus para o Correio da Manhã, por exemplo), Pedro Nuno Santos tem uma avaliação mais negativa do que positiva junto dos eleitores mais velhos (45,3% contra 26,8%). De alguma forma, o PS, enquanto partido, parece estar a perder alguma hegemonia neste conjunto de eleitores, e Pedro Nuno Santos, enquanto líder, e mesmo quando é mais apreciado do que Luís Montenegro, não está a conseguir ter um desempenho brilhante

Na sondagem da TVI/CNN, há um dado surpreendente: a AD aparece com mais de 4 pontos percentuais de vantagem sobre o PS entre os eleitores com mais de 65 anos. "Toda a narrativa do PS para os mais velhos era: 'Os malandros do PSD vão...'. Hoje, esse já não é um discurso credível", comenta com o Observador um dos elementos do núcleo duro de Luís Montenegro

Alargar a mancha também à direita

Ao mesmo tempo, Luís Montenegro já deu provas de que está apostado em falar diretamente ao coração do eleitorado da AD, o mesmo que deu a vitória marginal à coligação nas últimas eleições legislativas. Há dois sinais disso mesmo: o recuperar da agenda de resposta à imigração “descontrolada”, do combate à insegurança e as garantias de Joaquim Miranda Sarmento, ministro das Finanças e um dos coordenadores do próximo programa eleitoral da coligação, de que PSD e CDS vão recuperar medidas para a redução de impostos sobre o trabalho (IRS) e sobre a s empresas (IRC).

Uma agenda que diz muito (não só, mas sobretudo) ao eleitorado mais à direita e que a AD quer convencer a não “desperdiçar” o voto em partidos como o Chega e a Iniciativa Liberal. Voltando à sondagem da Pitagórica para a TVI/CNN, divulgada esta semana, quase 20% dos inquiridos que dizem ter votado no Chega e na IL admite agora votar na AD de Luís Montenegro.

Esta aparente transferência de votos — é importante recordar que se trata apenas de uma fotografia do momento — é mais evidente junto dos eleitores liberais (11,8%) do que nos eleitores do Chega (7,7%). Há também uma maior transferência de voto do PS para a AD do que o contrário: 4,6% dos inquiridos que votaram no PS admitem mudar para a AD; contra 1,3% que fazem o sentido inverso.

Na semana em que assinou o protocolo de cooperação para a Migração Laboral Regulada, Luís Montenegro garantiu que vai continuar a prosseguir política de imigração controlada, o que indicia que levará igualmente o tema para a campanha. No mesmo dia, António Leitão Amaro, ministro da Presidência, foi ainda mais taxativo em relação às reais intenções do Governo: “As eleições também vão servir para julgar a mudança de política de imigração”.

Na mesma semana, e a reagindo ao Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2024, Luís Montenegro reconheceu que a criminalidade geral diminuíra 4,6% face a 2023, mas não deixou de destacar um elemento que sustenta parte da estratégia política do Governo ao longo destes onze meses de legislatura: o facto de a criminalidade violenta ter aumentado 2,6%.

“Temos todas as razões para continuar a investir na segurança, no policiamento de proximidade, na prevenção das condutas criminais que são geradoras do sentimento de insegurança que muitos portugueses sentem no seu dia a dia Portugal não pode viver à sombra deste contexto. Outros países tiveram uma performance muito similar à nossa e hoje têm problemas muito graves de aumento da criminalidade, em particular da criminalidade mais grave e violenta”, repetiu, mais uma vez, o primeiro-ministro.

Curiosamente, Pedro Nuno Santos tem adaptado a sua própria estratégia a estas duas áreas em concreto, introduzindo nuances que não existiam no discurso socialista. Em janeiro, ainda antes da crise política, deu uma entrevista ao Expresso reconhecendo os erros do PS na política de imigração — o que lhe causou muitos problemas internos. Na questão da segurança, veio admitir esta semana que havia espaço para “intervenções mais musculadas“. Estes dois temas marcarão a próxima campanha eleitoral e Montenegro não quererá perder um centímetro do território que julga ter conquistado.

Em paralelo, em entrevista ao programa Conversa Capital da Antena 1 e Jornal de Negócios, Joaquim Miranda Sarmento sinalizou a intenção de privilegiar a redução de impostos sobre o trabalho e sobre as empresas no programa eleitoral da coligação PSD/CDS, sugerindo que o Governo só não foi tão longe porque encontrou a oposição do PS no Parlamento e que só por isso ficou aquém do ‘choque fiscal‘ que prometera nas últimas eleições legislativas.

Sem se comprometer com o desenho final desta redução de impostos, Miranda Sarmento admitiu avançar com a “redução das taxas dos escalões”, “com exceção do último escalão, que provavelmente continuará com a taxa de 48%”. Ao mesmo tempo, Miranda Sarmento sugeriu que pode revisitar os planos iniciais de IRS Jovem, praticamente sacrificado para fazer aprovar o Orçamento do Estado para 2025, mas sem compromisso para já com mudanças no regime. “O nosso objetivo é que a redução de IRS seja para a esmagadora maioria dos portugueses e muito focada na classe média”, disse Miranda Sarmento.

O ministro das Finanças foi bem mais concreto na questão do IRC, cuja redução chegou a colocar efetivamente em causa a abstenção do PS no Orçamento do Estado para 2025. “Queremos reduzir a taxa de IRC para os 15%, que era o nosso objetivo no programa há um ano. Reduzimos de 21% para 20%, foi o possível neste contexto parlamentar. Mas mantemos o objetivo de reduzir para 15%”, afirmou o governante na já citada entrevista à Antena 1 e ao Negócios.

O desenho do programa eleitoral da AD, sabe o Observador, está relativamente atrasado face ao calendário que seria normal noutro tipo de condições. O documento, que está nas mãos de Joaquim Miranda Sarmento e de António Leitão Amaro, só deverá ser conhecido bem depois do programa socialista (será apresentado este sábado) mas não andará muito longe destes eixos: o regresso da ideia de ‘choque fiscal’, a resposta ao desafio da imigração, o reforço da segurança e, inevitavelmente, novidades nas áreas da Habitação e, sobretudo, da Saúde — o calcanhar de Aquiles deste Governo.