No seu livro Ce Que Je Cherche (Aquilo Que Eu Procuro, em tradução livre), publicado no final do ano passado, Jordan Bardella admite ter duas fontes de ansiedade: cantarem-lhe os parabéns num restaurante e a passagem do tempo. “Tenho sempre um sentido de urgência dentro de mim”, escrevia o presidente da União Nacional (UN), cargo a que chegou com apenas 25 anos de idade. Agora, aos 29, é eurodeputado e já foi candidato a primeiro-ministro. A candidatura presidencial pode estar para breve.
Na semana passada, o partido de extrema-direita francês nem colocava essa possibilidade em cima da mesa. Afinal, desde a sua fundação que a UN (antiga Frente Nacional) se apresentou a eleições presidenciais com um Le Pen no boletim. Mas a sentença desta segunda-feira do Tribunal Penal de Paris, num caso de desvios de fundos europeus, impede Marine Le Pen de concorrer às eleições presidenciais de 2027.
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A deputada de 56 anos e filha do fundador já tinha admitido a possibilidade de Bardella chegar ao Eliseu, mas adiava essa batalha para 2032. Na UN, “simplesmente não se falava” sobre a hipótese de a líder histórica ser condenada e o partido ter de recorrer ao “Plano B”. Mesmo perante a decisão do tribunal, a escolha de Bardella está longe de ser oficial: Marine Le Pen escolheu “o estreito caminho legal” que ainda lhe permite sonhar com a presidência, apresentou recurso sobre a decisão do tribunal e recusou atirar o protegido para a corrida presidencial.
Ainda que não haja confirmações oficiais, a proximidade, a mentoria e a “bênção” de Marine Le Pen colocam Jordan Bardella de forma quase isolada debaixo do holofote da UN. Mas essas mesmas características não o tornam imune às críticas de alguns dos responsáveis de topo do partido, que questionam as suas capacidades, a sua postura de “estrela pop” e a sua juventude.
Essa juventude poderá ser o seu trunfo, independentemente das ansiedades ou sentidos de urgência com o passar do tempo. Por agora, o eurodeputado não revelou qualquer interesse em substituir Marine Le Pen e demonstrou apenas apoio à líder. Quando a candidatura presidencial quase inevitavelmente lhe for confiada, Bardella manterá a sua legitimidade como líder e a sua lealdade ao partido intacta. “De qualquer forma, é uma situação win-win“, argumenta Pierre-Stéphane Fort, autor da biografia Le Grand Remplaçant: La Face Cachée De Jordan Bardella (“O Grande Substituto: A Face Escondida de Jordan Bardella”, em tradução livre).

“A mesma linha marinista”, num formato “jovem e com apresentação decente”
A menos de dois anos das eleições presidenciais, a União Nacional já tinha traçado um plano: Marine Le Pen seria novamente candidata e as sondagens mostravam que podia mesmo chegar ao Eliseu. A condenação desta segunda-feira foi uma surpresa desagradável e que apanhou o partido desprevenido, mas o guião não mudou: Le Pen vai lutar em todos as instâncias para se poder candidatar.
Só quando esgotadas todas as opções legais — ou neste caso, quando chegar o prazo das candidaturas, que deverá vir mais cedo –, é que Marine Le Pen irá passar o testemunho. Tudo aponta para o escolhido ser Jordan Bardella, já que a líder nunca mostrou interesse por outro nome.
Uma e outra vez, os dois deram provas desta relação próxima: “Damo-nos muito bem, confio nele e concordamos em todos os temas”, disse Le Pen em 2022. “Marine está a reproduzir com Jordan a relação que o seu pai [Jean-Marie Le Pen, fundador da Frente Nacional] tinha com ela”, afirma agora um amigo próximo da deputada ao Le Figaro.
O alinhamento é visível nas políticas que Le Pen filha começou a implementar no partido e que foram seguidas à risca por Bardella. A mais visível é a normalização da UN no cenário político e o afastamento das raízes antissemitas e racistas do partido, plantadas por Jean-Marie. Bardella vai um pouco mais longe, piscando o olho à direita tradicional e apresentando-se no seu livro como a pessoa certa para liderar uma grande “união de direita”.
Foi com o objetivo mais unânime da normalização que Jordan Bardella visitou, na semana passada, Israel, a convite do executivo de Benjamin Netanyahu — uma visita que foi alvo de críticas, mas também de elogios. “A viagem teve um significado simbólico muito forte: fecha um capítulo no passado do nosso partido. Hoje somos um escudo contra o antissemitismo“, comentou Sébastien Chenu, vice-presidente da UN, à franceinfo. “Isto é o culminar da estratégia de normalização começada por Marine Le Pen”, declarou outro responsável do partido, que preferiu o anonimato.
O alinhamento total de Bardella com Marine Le Pen garante-lhe o favor da líder, que lhe permitiu chegar a presidente e liderar o partido nas legislativas. Mas, na prática, Le Pen ainda manda na UN e Bardella é só um instrumento com “a mesma linha marinista”, mas num formato “mais jovem e com uma apresentação decente”, argumentou um membro sénior do partido.
O facto de Bardella se ter mantido debaixo da asa de Le Pen leva alguns a questionar se saberá voar sozinho. A prova de fogo serão as eleições presidenciais, muito mais solitárias para o candidato do que umas legislativas, europeias ou municipais.
“A estrela pop” que “não caça em matilha”. A tépida oposição interna a Bardella
“Há uma doutrina Marine e não uma doutrina Jordan Bardella”, declarou um membro da UN à TV5 Monde, sintetizando o estado de espírito de um núcleo duro do partido, que questiona uma eventual candidatura presidencial do eurodeputado. A crítica mais frequente é à falta de experiência política: com apenas 29 anos, a maior fatia da sua carreira política fez-se em juventudes partidárias e, depois disso, no Parlamento Europeu.
Apesar de ser presidente da UN e da família europeia dos Patriotas pela Europa, só liderou o partido numas legislativas em junho e julho do ano passado, e o resultado não o foi esperado: apesar do crescimento da extrema-direita, o partido acabou derrotado pela coligação de esquerda da Nova Frente Popular.

As críticas não se focam só nas suas capacidades, mas também na pose: “[Tem] uma postura de estrela pop que faria bem em mudar“, criticou o mesmo responsável da UN. Esta crítica particular também se fez ouvir entre os seus adversários de outros partidos, pela voz de Franck Louvrier, membro dos Republicanos, que considerou que Bardella tinha de mostrar ser mais do que “uma estrela de palco”.
Sem o apoio do círculo de Le Pen, Bardella fechou-se e as acusações subiram de tom, visando a sua individualidade: “Jordan Bardella não caça em matilha“, criticou um deputado da extrema-direita. Que é como quem diz: o presidente do partido não sabe jogar em equipa.
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Pierre-Stéphane Fort considera que estas críticas não representam um perigo para Bardella, enquanto se mantiver leal a Le Pen, já que “a União Nacional não é uma democracia”. Mas se a proximidade à líder pode ser um ponto forte, os seus adversários políticos dizem ser uma fraqueza — como Stéphane Séjourné, atual comissário europeu e macronista, que classificou Bardella como “uma esponja, sem espinha dorsal“.
Mesmo com as críticas internas e externas, o lugar de Bardella deverá estar seguro. “É impossível fazer uma oposição frontal à família Le Pen. Quem faz isso é despedido”, afirma o jornalista francês, que não exclui, contudo, que a insatisfação interna não venha a ser expressa de “forma discreta”, com alguns membros do partido — como Jean-Philippe Tanguy — a trabalhar “nas bastidores” para o prejudicar.
A emancipação de um “clã” em Bruxelas e a “popularidade complementar”
O nome de Jean-Philippe Tanguy volta a surgir pela boca de um apoiante de Bardella dentro do partido, que identifica o deputado da fação L’Avenir Français como o seu principal adversário. A mesma fonte garante que Bardella está a reagir à oposição interna. “Um clã está a formar-se em Bruxelas, mas não é rival de Marine Le Pen. É principalmente em oposição a Tanguy”, afirmou.
A primeira imposição de Bardella surgiu durante as legislativas, quando supervisionou ativamente as nomeações para dezenas de candidatos da União Nacional. O objetivo era garantir que nenhum dos políticos propostos tinha feito comentários racistas ou xenófobos recentemente, impondo claramente no partido a nova direção de “normalização” para que o quer levar.
Mas foi em Bruxelas que a sua base de apoio cresceu. “[Bardella] está gradualmente a colocar as suas tropas nos cargos de responsabilidades em Bruxelas para se preparar para o futuro”, relatou um conselheiro de Le Pen na Assembleia Nacional. A emancipação de Jordan Bardella só foi possível precisamente porque se sediou em Bruxelas. Se tivesse ficado em Paris, “seria apenas o número dois de Marine Le Pen”, considerou Gilles Lebreton, que partilha com Bardella a bancada da UN no Parlamento Europeu.
Mais distante de Marine Le Pen, Bardella aproveitou o novo posto para cultivar a sua própria liderança entre uma franja mais jovem, quer de eleitores, quer de membros do partido. O sucesso junto dos eleitores parece estar conquistado, com Bardella a conseguir arrecadar quase um terço dos votos na faixa etária dos 18 aos 24 anos nas últimas eleições.
O sucesso entre os membros do partido ainda está a ser consolidado. Por um lado, porque, apesar de os membros do partido não destacarem essa parte, Bardella não é presença assídua no Parlamento Europeu. Entre os seus pares internacionais ganhou mesmo a alcunha de “Bardepaslà” — um trocadilho com o seu nome e “Bardella est pa là“, que significa “Bardella não está lá”.

Por outro lado, Lebreton garante que, apesar da popularidade de Bardella entre os eurodeputados mais jovens, “Marine é inegável”. Um outro membro do partido, que também falou com a publicação Street Press, encontra um meio termo: “É uma popularidade complementar”. Olhando novamente para as eleições presidenciais, surge a questão: será esta popularidade suficiente para Bardella assumir a candidatura presidencial com sucesso?
O voto de confiança de Le Pen ou mais tempo para preparar campanha?
Apesar dos obstáculos internos que possa ter na União Nacional, a popularidade de Jordan Bardella não se limita aos jovens, aos “moderados” ou aos eurodeputados. Segundo uma sondagem do final do ano passado, 59% dos simpatizantes da UN preferiam o jovem eurodeputado como líder. Apenas 37% preferiam Le Pen.
O facto de ter empreendido uma campanha de aparente normalização do partido pode servir ainda roubar votos numa fatia mais ao centro do eleitorado. Uma pessoa próxima de Bardella apresenta uma terceira razão para ele ser o candidato mais adequado ao Eliseu: “Acima de tudo, não está a ser incomodado pelo sistema judicial“, declarou.
A alfinetada aos problemas judiciais de Marine Le Pen pode ser dita por amigos próximos, mas nunca foi assumida por Bardella. Desde a condenação, o presidente da UN não mostrou nada a não ser lealdade férrea à mentora e críticas ao sistema.
Contudo, esta narrativa de perseguição política tem um tom tradicionalmente populista e pode ter um efeito oposto à normalização que a União Nacional tem procurado, destacou o cientista político Jean-Yves Dormagen ao Le Point. Nesse caso, a direita moderada poderia, no sentido inverso, roubar votos à UN.
É impossível prever qual dos cenários irá prevalecer em 2027. Mas Pierre-Stéphane Fort argumenta que Bardella sairá sempre por cima. Por um lado, se Le Pen se retirasse imediatamente da corrida ao Eliseu e passasse o testemunho a Bardella — que já disse que não ia fazer –, este teria tempo de preparar uma campanha sólida e desenvolver a sua base de apoio, quer interna, quer no estrangeiro, e alcançar “o estatuto de um futuro Presidente da República”.
Mas o jornalista e investigador francês argumenta que, mesmo no pior cenário, em que a deputada de 56 anos só desista da corrida no último momento possível e Bardella não tenha tempo de organizar uma campanha vencedora — e seja derrotado nas urnas —, o presidente da UN não sairá a perder. Manterá toda a legitimidade para se candidatar em 2032, altura em que terá todo o tempo que desta vez não teve para se preparar.
“Jordan Bardella só tem 29 anos. Daqui a dois anos terá 31. É um presente de Deus poder ser candidato de um partido grande na corrida presidencial quando se tem apenas 31 [anos]. Mesmo que ele não ganhe as próximas [eleições, em 2027], é jovem e tem legitimidade para concorrer novamente mais tarde”, remata, assumindo sempre que o Eliseu é claramente o objetivo de Bardella. Terá é de ser uma aposta a longo prazo.