E, finalmente, ao fim do que pareceram dois intermináveis meses de um tempo londrino, o céu deixou-se de nuvens, a chuva foi substituída por uma há muito desejada subida da temperatura, a hora mudou, a estação inverno deu lugar à estação primavera, as folhinhas começaram a ficar verdes outra vez, as flores arrebitaram, os casacos grossos voltaram ao armário e as T-shirts regressaram.
No entanto, nem tudo foi alegria em março: o grande Roy Ayers morreu e os Porridge Radio acabaram. A vida, contudo, avança e com ela vêm novos discos, outros sons, outros mundos que nos atraem com uma força gravitacional estranha – e quando damos por nós estamos a trautear “I could be the harm you need”, um verso de Mega Circuit, o quarto tema de For Melancholy Brunettes (& Sad Women), que é o quarto álbum dos Japanese Breakfast; ou então dedicamo-nos a estoirar os nossos próprios tímpanos durante a audição do disco de estreia dos YHWH Nailgun.
Sim, é isso mesmo: são os discos de março recomendados, aquele mês em que a vida parece ter regressado, qual D. Sebastião, por entre intermináveis mantos de chuva, tempestades e vendavais.
“Cotton Crown”
The Tubs
Estranhamente, e apesar dos obituários que lhe passam semanalmente, o rock parece ainda estar vivo – certo, já não ocupa os primeiros lugares das tabelas de vendas em lado nenhum, mas se calhar isso até lhe faz bem: o que começou como música rebelde da juventude inconformada pode, livre da pressão do comércio, dar-se ao luxo de ser o que lhe apetecer. Na mão dos The Tubs o rock está algures entre o bar, a garagem e a galeria de arte, forma de dizer que eles têm os riffs e a atitude mas também a escrita, o talento e a experimentação: há algo de Smiths e Byrds nas guitarras gingonas, enquanto a voz de Owen ‘O’ Williams (que, como o Guardian bem assinalou, recorda a de Richard Thompson) podia muito bem estar a ser gritada num pub.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/3CyhN08fdNqH1lEojtDSFP?si=YvumelAdTbCJ2gTIf3wecA
Como não é incomum no género, há uma melancolia a percorrer a eletricidade dos riffs, e as letras olham para dentro, para os defeitos e insuficiências pessoais (“Sometimes all I see is an empty space”), mas uma melancolia que é catchy, via refrões bem desenhados (Illusion é incrível). Na última canção do álbum percebemos a dimensão da tristeza que percorre Cotton Crown, quando Williams aborda o suicídio da sua própria mãe. Um grande disco.
“Halo On The Inside”
Circuit des Yeux
Há discos que não são apenas sequências de notas, há discos que não cabem na pauta: Halo On The Inside é um desses discos, isto se partirmos do princípio que é um disco – mas disco é uma forma pobre de descrever esta alucinação: isto não é um conjunto de canções, é uma vertigem, uma queda em espiral num abismo que parece não ter fim, cheio de cordas, ecos, assombrações e vozes que não sabemos de onde vêm, apenas sabemos que não são de agora, arrastam consigo mortes e fantasmas arrancados aos lugares onde as sombras crescem. Haley Fohr é o coração de um projeto onde os arranjos orquestrais – quase barrocos – ampliam essa sensação de queda constante, que nos remete para o gótico e seus antecessores: os críticos falam em Scott Walker ou Nico ou Diamanda Galás – todos mestres das sombras, obcecados com a morte, mas (não lhes retirando a razão) que não se reduza a obra ao parentesco.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/1a5FMhDC5UFBhkirhJD72b?si=a049b21e885345c5
Por vezes vivemos obcecados com a evolução das bandas mas, neste caso, mais que dar passos em frente, trata-se de aprofundar os que já se deram – o que é o mesmo que dizer que aqui escava-se ainda mais fundo no mesmo poço íntimo onde cada canção parece escrita a sangue na fita magnética. Há medida que avançamos na idade, as nossas memórias vão ficando difusas, os detalhes envoltos em nevoeiro – as estruturas das canções dos Circuit des Yeux são também assim: nunca sabemos onde vão parar, tudo parece propício a quebrar-se a meio e o ponto de chegada está muito distante do que esperávamos. Talvez seja isto a beleza: pegar nos olhos que usamos para registar o que há lá fora – e usá-los para cair para dentro.
“For Melancholy Brunettes (& Sad Women)”
Japanese Breakfast
Michelle Zauner é uma estrela, mas de um tipo incomum: lidera os Japanese Breakfast desde 2013 e se é verdade que, aqui e ali, houve uma ou outra canção da banda que criaram furor entre aquele nicho de pessoas que aprecia indie-folk-rock melancólico, não deixa de ser curioso que a sua fama advenha de outra arte: em 2021 ela lançou Crying in H Mart, a sua auto-biografia – e surpreendentemente o livro passou 60 semanas na lista de livros de não-ficção mais vendidos do The New York Times. O livro centra-se na ascendência coreana de Zauner e na sua relação com a mãe – enquanto quase todas as suas canções se atêm a relações amorosas e outras formas de auto-punição.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/4qqdOkr3Ff3kN8GxoxvRES?si=ac8e3b41459841c7
A melancolia do título não se aplica apenas a morenas e surge na forma de canções lentas e luxuosas, com arranjos de pianos e cordas e guitarras slide a tomarem a dianteira. Num certo sentido, não é bem um disco de banda, antes se aproxima da obra de um David Ackles ou de um Rufus Wainwright. Há algo de clássico em canções como a belíssima Winter in LA, que beneficia, tal como o disco, de pela primeira vez Zauner ter acesso a um estúdio de gravação decente e a um produtor, ao contrário dos seus anteriores discos lo-fi. Para apreciadores de arranjos de cordas e de vozes com pendor de crooner.
“City of Clowns”
Marie Davidson
Deve haver poucas propostas mais incomuns do que fazer um disco de eletrónica que pretende abordar o atual estádio do capitalismo digital, no qual somos todos objetos dos quais dados são extraídos para nos definir e assim decidir que produtos e narrativas nos são apresentados – mas é esse o objetivo da canadiana Marie Davidson em City of Clowns e ela consegue-o com aclamação. Musicalmente City of Clowns é uma pequena maravilha, que tanto parece repescar o início do techno (em Demolition, faixa em que ela canta/diz: “I don’t want your cash / What I want is you… I want your data”), como o electroclash (em Sexy Clown).
https://open.spotify.com/intl-pt/album/7mDC5vVphFdUarxs1yeUou?si=b019aa3a28c84f1e
Cada batida é de uma precisão admirável, o que é importante num disco minimal, em que cada pequeno arranjo ganha – devido à escassez de recursos – uma dimensão essencial. Mas a grande vitória de City of Clowns está na voz de Marie Davidson, que oscila entre o robótico e a entrega do humor deadpan de um humorista como Anthony Jeselnik – e, sim, há humor aqui, apesar da férrea crítica anti-capitalista, porque a combinação do som com as frases e, sobretudo, a entrega das mesmas é quase cómica (na tragédia que aborda). Que no meio de fazer rimas sobre CAPTCHAs ela faça malhões como Demolition ou Push me fuckhead (cujo delicioso refrão é literalmente a repetição da frase “Fuck with my head” é tão inesperado quanto admirável.
“45 Pounds”
YHWH Nailgun
Há muitas maneiras de produzir ruído: enfiar uma chave de fendas numa rebarbadeira, largar uma jarra no chão ou partir uma janela à martelada, por exemplo. Ou, caso estejamos a falar dos YHWH Nailgun, acumular sons metálicos de sintetizadores e uma constante saraivada de uma bateria que parece empenhada num assassinato em massa. Se isto vos faz pensar em música industrial, bom, não estão longe.
https://open.spotify.com/intl-pt/album/1uch3WTm8HyawghHDBsyXZ?si=e9c6433c01204d2d
É noise, mas estruturado na forma de canções, encabeçadas por um vocalista, Zack Borzone, que possui um daqueles vozeirões que tornam uma banda digit-punk num colosso de porradaria. 45 Pounds, a estreia da banda de Filadélfia, não vos ajudará a fazer amigos – pelo menos se resolverem tocá-lo aos berros a um domingo de manhã. Mas trazer-vos-á um prazer estranho e masoquista, como se o choque resultante de enfiar os dedos numa tomada eléctrica trouxesse um estranho conforto.