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“Anime” sem Alma

“Toda a criança é um artista. O problema é saber como nos mantemos artistas à medida que crescemos” – Pablo Picasso.

Rodrigo Adão da Fonseca
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Nas últimas semanas assistimos a uma invasão das redes sociais por imagens ao estilo “anime”, produzidas através da mais recente funcionalidade do Chat GPT (versão 4.0). Este fenómeno não se limitou a ser um epifenómeno de massas, ao estilo das “modas” da internet. Por exemplo, em Portugal, vários políticos aderiram rapidamente a esta tendência, partilhando versões animadas das suas próprias imagens em redes sociais, numa clara tentativa de explorar o fascínio pela novidade tecnológica.

Esta súbita popularidade evidencia um aspeto recorrente da nossa relação com a tecnologia: o deslumbramento imediato por aquilo que é novo e aparentemente simples, muitas vezes sem reflexão sobre as suas implicações mais profundas.

Desde logo, fazendo tábua rasa a um dos maiores problemas associado à IA: a utilização não autorizada de informação proprietária no pré-treino de modelos de IA de finalidade geral. Estes modelos, como o Chat GPT, são frequentemente treinados com enormes quantidades de dados, muitos deles protegidos por direitos de autor. E se, como indica Ethan Mollick, existem diferenças jurídicas substanciais entre países (por exemplo, o Japão considera que treinar modelos de IA não constitui uma violação dos direitos de autor, não sendo por isso inocente que a moda viral utilize o estilo do nipónico “Studio Ghibli”), vale a pena refletir, além da lei, e perguntar até onde queremos sacrificar, em prol de modas e de um suposto facilitismo, os princípios fundamentais da propriedade intelectual. A discussão está já na ordem do dia, tendo havido vários artistas que resgataram afirmações antigas de Hayao Miyazaki, onde o fundador do “Studio Ghibli” manifesta uma profunda rejeição ao uso da IA na criação artística, considerando que o que daí resulte carecerá de empatia, humanidade e compreensão verdadeira do sofrimento e das emoções humanas. Para Miyazaki, utilizar IA em contextos criativos não é apenas inadequado, mas constitui um verdadeiro insulto à própria essência da vida e à dignidade humana, desprovido que é de sensibilidade e respeito pela experiência real. Este posicionamento é particularmente relevante quando se discute a ética e os limites da utilização da IA, sobretudo em áreas artísticas que exigem uma compreensão profunda e genuína da condição humana.

Picasso, que tanto pintou antes de haver o fascínio pelos oráculos do novo “Deus ex machina” da IA, remete-nos, avant la lettre, para o risco associado à utilização acrítica da IA em contextos criativos: se na nossa génese somos naturalmente criativos, tal como as crianças, essa capacidade pode ser condicionada ou mesmo anulada se recorrermos de forma aditiva às soluções rápidas e imediatas que a IA proporciona. A IA poderá vir a ser valiosa como ferramenta de co-criação, incentivando e acelerando a criatividade num processo colaborativo que expanda as nossas capacidades. Porém, se a utilizarmos apenas como fonte de receitas fáceis, estaremos a perder gradualmente a nossa capacidade genuína de criar algo verdadeiramente novo e significativo, trocando a liberdade criativa por aquilo que é simplesmente cómodo. Como referi numa crónica já antiga inspirada na obra de Kazuo Ishiguro, “Klara and the Sun”, apesar da crescente presença da IA nas nossas vidas, é desejável salvaguardar que características exclusivamente humanas, como a gestão emocional, a empatia e o pensamento crítico, essenciais para interpretar e orientar o uso ético e criativo destas tecnologias, não sejam degradadas, sob risco de, como temos vindo a assistir em “Adolescência”, despojarmos crescentemente as pessoas da sua própria humanidade.

Não tenhamos ilusões: embora a IA consiga replicar estilos e otimizar processos, o verdadeiro ato criativo permanece um processo inerentemente humano e irrepetível, sendo tudo o que é imediato, instantâneo e fácil – como o que temos assistido na geração de imagens –meros fogachos de ego facilitados por uma máquina. A criatividade humana não reside na reprodução de padrões ou estilos, mas na capacidade única de criar algo genuinamente novo, reflexo da nossa experiência, emoções e pensamento crítico. E isso implica esforço, nem que seja a utilização colaborativa com as novas ferramentas da IA.

Sim: a IA apresenta desafios, também, para a exploração das novas fronteiras da criatividade e da Arte (não estivéssemos perante uma ferramenta, e não perante um sujeito pensante), mas é fundamental que todos os que temos mais responsabilidade (neles incluindo, a esforço, políticos e figuras públicas) compreendamos que, mais do que seguir modas passageiras, precisamos perceber como usamos a IA de uma forma consciente, útil, e não fútil.

E foi no uso fútil e viral desta funcionalidade que reside a grande lição do que vimos nos últimos dias, já que a adesão massiva a esta funcionalidade trouxe consequências técnicas inesperadas. A sobrecarga dos servidores da Open AI foi de tal ordem que provocou limitações temporárias no acesso ao serviço. Este efeito secundário aparentemente ignorado pelos utilizadores demonstra que pouco faltará para que tenhamos mesmo de ser seletivos no uso da IA, sem proibições legais ou regulamentares, dadas as limitações objetivas, energéticas e ambientais que um uso indiscriminado e exponencial acabará por provocar.

Sim: porque se há a prazo, como já percebemos, tantas utilizações úteis para a IA, não vamos poder desperdiçar recursos em futilidades. E, não tenhamos dúvidas, não há nada mais sustentável que a criatividade e o pensamento nascidos da energia do cérebro e do génio humanos.